
ESSE ESTRANHO NOVO MUNDO
DA ASCENSÃO DO FASCISMO MUNDIAL
Vivemos
num cenário mundial em que os principais líderes da América do Norte, do
Oriente Médio e da Rússia, para citar os mais notórios, demonstram em suas
ações que são fascistas.
Mesmo
em países cujos líderes são diferentes, como o nosso presidente, há um cenário
que vem sendo construído desde 2008, de um fascismo disfarçado e atrelado à
sociedade de consumo; à desconstrução das conquistas trabalhistas em nome da
farsa do empreendedorismo; de um doutrinamento para o individualismo diante do
senso de coletividade que a reboque reforça preconceitos raciais, de gêneros e
religiosos; de um condicionamento dos jovens à lógica do algoritmo que
prescinde da reflexão profunda e do diálogo, entregando apenas impacto emocional
imediato, uma polarização artificial e transformando a captura da atenção em
lucro; e a vigência de um capitalismo financeiro que contamina veículos de
comunicação, redes sociais e instituições políticas e econômicas, gerando mais
riqueza à uma pequena elite em detrimento do empobrecimento de todos os outros,
que somos nós.
Soma-se
à esse quadro perturbador, um negacionismo científico que atrasa as medidas
climáticas urgentes e derruba a proteção vacinal com preconceitos. E assim, o
mundo enfrenta guerras, catástrofes climáticas, epidemias e uma agudização na
distância entre os muitos ricos e a grande maioria.
Isso
tudo gera medo, o principal combustível para votar em soluções pragmáticas e
radicais, que podem eleger candidatos aventureiros aliados à visão fascista. Um
círculo vicioso, como uma “Oroboros do Mal”.
O
Filósofo Psicanalista Vladimir Safatle está lançando o seu novo livro, intitulado
“A Ameaça Interna: A Psicanálise dos Novos Fascismos Globais” e segundo ele: “o
fascismo não é um desvio, nem um acidente histórico, mas uma forma de violência
que reconstrói a sociedade a partir de uma dinâmica de dessensibilização e
indiferença, valores hoje embrenhados na sociedade contemporânea”.
Aqui
em nosso país sempre houve quem o preferisse, que ficasse deitado eternamente
em um berço esplêndido. A origem do fascismo remonta há quase um século. O
Brasil é o país que teve o maior partido fascista do mundo, à exceção da
Europa.
A
Ação Integralista Nacional surgida nos anos 30, chegou a contar com 1,2 milhões
de integrantes.

No
período vigente da Ditadura Militar, muitos dos militares fundamentais do regime
eram integralistas. Por exemplo, o vice de Ernesto Geisel, Augusto Rademaker
era um integralista.
Convém
considerar que esses mais de um milhão e duzentos mil tiveram herdeiros, filhos
e netos que estão por aí agora. E justamente nesses últimos dez anos
complicados, o movimento ressurgiu como atesta a foto de um cerimonial em
Fortaleza em 2020.

Na
cerimônia foram evocadas as palavras do fundador do movimento, Plínio Salgado,
que representam o sentimento e o ideal dos “camisas verdes” espalhados de norte
a sul do Brasil: “que vigilantes, montam guarda às tradições da Pátria e cujos
corações batem, como uma legião de tambores que nenhuma força poderá separar,
porque eles pertencem a Deus e anseiam pela grandeza da posteridade nacional”.
Percebam
que as palavras “pátria” e “Deus” estão sempre associadas, como vimos
recentemente no governo federal anterior.
Mas
essa organização não é a grande ameaça. O problema crucial foi apontado no
segundo parágrafo dessa coluna e estão nessas formas insidiosas e agressivas
que o fascismo se infiltra na sociedade.
Por
exemplo, a ideia de que exista uma “democracia liberal” é falaciosa. Qualquer
sociedade dirigida por essa premissa, não terá os pilares da democracia como
alicerce e verá o fortalecimento de um capitalismo financeiro que para se sustentar
e crescer, precisa precarizar as conquistas trabalhistas, facilitar a ação desenfreada
das grandes Big Techs sem regulamentação, para que sejam um território virtual
livre para disseminar ódios e fake news, agora incrementadas pelo uso
inadequado de I. A.s. e fomentar o individualismo em detrimento do pensamento
de coletividade.
Alguém
uma vez disse: “o Liberal não pode ver o cavalo do fascismo passando, que logo
quer montar”.
Um
dos sintomas disso, foi a precarização do trabalho formal (nunca os salários de
quem tem carteira de trabalho assinada, foram tão desvalorizados) em favor da
ideia do empreendedorismo, que assume formas capciosas, com muito investimento
financeiro em eventos como o “South Summit”, cuja embalagem atraente, uma lista
de palestrantes e tópicos que poderiam ser discutidos em outros fóruns mais
pertinentes, ocultam a farsa do empreendedorismo e que em Porto Alegre assume
outras caracterizações, como a facilitação para grandes empreiteiras
construírem prédios altos em zonas já muito povoadas, que servirão à
especulação imobiliária financeira..
Vladimir
Saflate argumenta que “o Brasil é um país em que o colonialismo nunca passou. A
lógica colonial organizou o Brasil e o organiza até hoje”. E há uma conexão
direta entre colonialismo, fascismo e neoliberalismo.
E
um dos sintomas mais emblemáticos disso, é a chamada “uberização” do trabalho,
que começou a ser desenvolvida em nosso país, a partir do impeachment da
presidenta Dilma. A ideia de que o novo trabalhador seja um empreendedor para
ter autonomia individual é pura balela, de quem quer se apropriar do trabalho alheio
e sempre quer mais.
Gostaria
de conhecer outra forma de mudar o estado das coisas, que não fosse pela
política, mas num país em que a educação básica nunca foi prioridade, em que um
projeto revolucionário de alfabetização de trabalhadores com consciência social
do Paulo Freire foi abortado, em que ao longo da sua história teve apenas alguns
espasmos temporais democráticos, não há possibilidade de nenhuma revolução, que
não venha de militares golpistas e esses devem ser e continuar presos.
Não
temos nenhuma condição de extirpar do poder líderes fascistas como Trump,
Netanyahu e Puttin, mas como já afirmou o ex-primeiro ministro britânico Wiston
Churchill: “a democracia é a pior forma democracia, exceto por todas as outras
formas de governo que já foram tentadas” em seu discurso na Câmara dos Comuns
em 1947, temos que nos valer do estado democrático de direito que ainda vige no
Brasil, para garantir que o nosso país não se insira de novo nessa ascensão do
fascismo no mundo.
Vamos
enfrentar uma eleição geral das mais conturbadas da história, em que forças com
poderio econômico querem o retorno das condições degradantes dos trabalhadores,
o incremento dos preconceitos de gênero e tudo que já citei.
Precisamos
estar atentos, sobretudo na parte que nos cabe nas próximas eleições e escolher
candidatos que demonstrem estarem alinhados a esse combate.
Em
outro mundo, eu diria que precisamos criar as condições para mudanças que
permitam outras alternativas de sistemas. Um mundo para além do capitalismo,
onde não haja nenhuma condição, para a geração de qualquer forma de fascismo.
Mas
é outro mundo. O mundo dos meus sonhos.
![]() |
| João Luís Martinez |



0 Comentários