ARTE E CULTURA

 

SILVIO RIBEIRO, UM ARTISTA
 DO DESENHO

Acompanho a carreira do Silvio Ribeiro atravĂŠs das redes sociais jĂĄ hĂĄ muito tempo. Dono de um traço lindo, seus trabalhos sĂŁo realmente impressionantes. Certa feita, nos cruzamos em um Mutação na Feira, evento organizado pelos professores Denilson Reis , Paulo Kobeilski  e AdĂŁo de Lima JĂşnior na tradicional Feira do Livro de Porto Alegre/RS, neste mesmo evento conheci a tambĂŠm artista visual Aline Daka. Lembro-me de ter cumprimentado o Silvio, nĂŁo sei se ele se lembra, mas dali ficou uma impressĂŁo muito boa .

Silvio ĂŠ um desses apaixonados pelo que faz, um lutador pela sua arte e um cara muito tranquilo, simpĂĄtico, sem estrelismos. Ele ĂŠ editor de arte, desenhista, pintor, escritor e quadrinista. Tem 60 anos, nasceu e mora em Porto Alegre. Formado em engenharia eletrĂ´nica pela PUC-RS, depois de alguns anos largou a profissĂŁo para se dedicar Ă  carreira artĂ­stica. Ainda na adolescĂŞncia cursou Desenho ArtĂ­stico no Centro Gaucho de Desenho. Atualmente, alĂŠm de suas diversas publicaçþes de desenho e quadrinhos, ainda se dedica a dar aulas e ministrar workshops de diversos temas ligados Ă  arte.

A partir de 1985, quando ainda trabalhava como engenheiro, produziu vĂĄrias histĂłrias em quadrinhos de super-herĂłis. Uma delas com o personagem GuardiĂŁo Sigma, uma releitura de um super-herĂłi criado aos 6 anos. Criou vĂĄrios outros personagens na dĂŠcada de 80 e 90, mas com o tempo foram surgindo outros similares, entĂŁo ele acabou desistindo deles e atualmente sĂł tem feito quadrinhos de terror. Em 2015 publicou a revista de quadrinhos “HistĂłrias FantĂĄsticas”, e em 2018, a revista de quadrinhos “Quadrinhos FantĂĄsticos”.

Em 1993 iniciou a carreira de Editor de Arte e desde entĂŁo tem produzido projetos grĂĄficos e ilustraçþes para mais de 100 paĂ­ses. Em 2005 publicou alguns de seus trabalhos com uma arte diferente da que fazia para jornais e revistas, no ĂĄlbum “Silvio Ribeiro - Coletânea”.

Em 2009, criou 20 ilustraçþes digitais e publicou seu segundo livro, “Arte Digital”, no qual mostrava a sua maneira de fazer esta arte. No mesmo ano resolveu começar a trabalhar no livro “Curso Completo de Desenho ArtĂ­stico”. Autor independente por falta de apoio das editoras brasileiras, publica suas obras contando apenas com o apoio dos amigos e dos fĂŁs para divulgar seus trabalhos.

Em 2014 foi publicada a primeira edição do livro "Curso Completo de Desenho ArtĂ­stico" e, em 2021, a segunda edição. NĂŁo hĂĄ outro livro do gĂŞnero tĂŁo completo, nem no Brasil e nem no exterior. Nele sĂŁo abordados temas como materiais de desenho e pintura, natureza morta, perspectiva,  paisagens, luz e sombra, animais, figura humana, nanquim puro e aguado, pintura com ĂŞnfase em tinta a Ăłleo, arte digital e histĂłrias em quadrinhos.  TambĂŠm em 2021, Silvio Ribeiro publicou seu primeiro livro de contos, "Faltou a Banana", onde juntou 25 pequenos contos de terror, fantasia e aventura. 

O Arte e Cultura foi conversar com este artista inquieto, confiram, pois SĂ­lvio ĂŠ tĂŁo bom com as palavras como ĂŠ com o nanquim: 

SILVIO RIBEIRO


JORGINHO: Quando e como surgiu o desenho na vida do Silvio Ribeiro?

SILVIO RIBEIRO: Comecei a rabiscar lå pelos 5 ou 6 anos, como a maioria dos desenhistas. Nesta idade todas as crianças gostam de desenhar, mas algumas continuam e outras param. Eu nunca me considerei talentoso, apesar de que, ao contrårio de muitos, eu acredito em talento. Por outro lado, sempre fui muito dedicado a tudo o que faço e jå no Jardim de Infância fui o aluno que mais desenhos fez durante o ano. Enquanto os outros dividiam o tempo entre brinquedos e desenho, eu praticamente só desenhava. Desde pequeno eu mostrava bastante persistência e interesse pela arte. AtÊ hoje ainda guardo a pasta com estes trabalhos.


JORGINHO:  Quais quadrinhos vocĂŞ costumava ler quando era garoto?

SILVIO RIBEIRO: O primeiro personagem que me interessei foi o Zorro, da Disney. Sempre tinha uma HQ dele no meio das do Mickey e do Pato Donald, nos almanaques Disney. Eu sĂł lia ela. Uma vez publicaram trĂŞs especiais do Zorro, e eu consegui todos eles. Mais tarde comecei a me interessar pelo Homem-Aranha. Um amigo tinha um exemplar especial colorido e desenhado pelo Gil Kane e queria trocar. Estava sem capa, mas eu gostei tanto que troquei com ele. A partir daĂ­ consegui vĂĄrias ediçþes da EBAL e, mais tarde, em 1975, comecei a colecionar as ediçþes da Bloch. Parei quando os artistas antigos foram sendo substituĂ­dos, e tanto as histĂłrias como os desenhos começaram a seguir uma linha que eu nĂŁo gostava.


JORGINHO:  Quais as tuas maiores influĂŞncias no traço?

SILVIO RIBEIRO: Minhas primeiras influĂŞncias foram justamente os artistas que desenhavam Homem-Aranha: John Romita, Jim Mooney, John Buscema, Gil Kane e tambĂŠm Jack Kirby. Mais tarde, devido a umas questĂľes pessoais, parei de desenhar por alguns anos e, quando voltei, percebi que o universo das HQs era infinitamente maior do que Marvel e DC. Conheci artistas como Harold Foster, Frank Frazetta, Al Williamson, Wally Wood, Alex Raymond e Bernie Wrightson, alĂŠm de muitos europeus, como Serpieri, Esteban Maroto, Alfonso Azpiri e tambĂŠm uns monstros latino-americanos, como Juan Gimenez e Arturo Del Castillo. E aqui deixo um conselho para quem estĂĄ começando: tenha seus Ă­dolos, aprenda com eles, mas nunca tente imitĂĄ-los, pois o mĂĄximo que vocĂŞ vai conseguir ĂŠ ser uma cĂłpia mal feita de alguĂŠm. Vejo muitos desenhistas, inclusive profissionais, que foram por este caminho e desistiram de seu prĂłprio traço.


JORGINHO:  Fale sobre o GuardiĂŁo Sigma, da criação atĂŠ a retomada dele.

SILVIO RIBEIRO: O GuardiĂŁo Sigma me apareceu primeiro em um rabisco, aos 6 anos. Na verdade, era apenas mais uma tentativa de criança de desenhar algum personagem, que talvez existisse, eu nĂŁo lembro. Quando eu jĂĄ era adulto, no inĂ­cio de 1980, queria fazer uma HQ, mas nĂŁo tinha um personagem e nem uma histĂłria. Revirando minha pasta do Jardim de Infância, encontrei este desenho. Gostei e resolvi dar uma melhorada no layout, criar um nome para ele e uma histĂłria. Escrevi e desenhei a primeira HQ em dois meses, durante as fĂŠrias da faculdade de Engenharia EletrĂ´nica. Depois que terminei, começaram a surgir novas ideias para continuaçþes, e elas nĂŁo paravam. Cheguei a escrever vĂĄrias delas, mas nunca desenhei. A faculdade era muito puxada, eu estudava praticamente todos os dias e o dia todo, a semana inteira. Como nĂŁo podia trabalhar, pois nĂŁo tinha horĂĄrio, eu acabava usando as fĂŠrias para pegar empregos temporĂĄrios e nĂŁo sobrava muito tempo para desenhar, ainda mais quadrinhos. Mesmo assim, eu fiz outras HQs menores e com outros personagens, que agora, em 2021, resolvi publicar numa revista com 76 pĂĄginas, que chamei de Quadrinhos Nostalgia. SĂŁo todas HQs desta ĂŠpoca em que estava na Engenharia, ou estudando ou jĂĄ formado e trabalhando. Às vezes ainda faço uma tela a Ăłleo ou uma ilustração com o GuardiĂŁo Sigma, mas nĂŁo sei se um dia farei novas histĂłrias com ele. O Brasil ĂŠ um paĂ­s complicado, as pessoas nĂŁo sĂŁo incentivadas a valorizar o que ĂŠ feito aqui. Tenho batalhado muito nos Ăşltimos anos tentando mudar a mentalidade das pessoas, mas ĂŠ difĂ­cil. Brasileiro engole tudo o que vem de fora, mas sĂŁo raros os que dĂŁo algum tipo de apoio para quem produz material aqui no paĂ­s. Vejo pessoas promovendo bandas, filmes, sĂŠries, publicaçþes e tudo o que ĂŠ tipo de produção feita nos Estados Unidos, e aĂ­ vocĂŞ faz um trabalho e pede pelo amor de Deus para ajudarem a divulgar ou pelo menos compartilharem no Facebook e sĂŁo rarĂ­ssimas as pessoas que fazem isto. Muitas vezes chego a pensar que devem ganhar algum salĂĄrio ou outro tipo de compensação financeira do exterior. Realmente nĂŁo entendo!


JORGINHO: Como foi participar de um trio criativo com Denilson Reis e Daniel HDR nos primĂłrdios? Muitos fanzines, muita histĂłria? Conte para o leitor um pouco sobre essa fase.

SILVIO RIBEIRO: Lembro que eu ainda estava trabalhando na Engenharia, projetando hardware e software para computadores, mas nĂŁo recordo exatamente que idade tinha na ĂŠpoca. Nos encontramos pela primeira vez na casa do Denilson. Foi em Alvorada, estĂĄvamos eu, o Daniel, o Denilson e tinha outro rapaz, que tambĂŠm fazia quadrinhos e fanzines. Depois disso, ficamos afastados por um longo perĂ­odo e sĂł fui encontrar o Daniel muitos anos depois por acaso, em um shopping aqui de Porto Alegre. Perdemos contato novamente e mais tarde reiniciamos a amizade. Algumas vezes nos encontramos em eventos de quadrinhos. Foi num destes eventos, na ComicCon, que combinamos um workshop sobre nanquim com ferramentas clĂĄssicas, que ministrei no estĂşdio dele. Algumas vezes falamos pela internet. O Daniel ĂŠ um cara fora de sĂŠrie, que teve a coragem de encarar os quadrinhos como profissĂŁo e ĂŠ reconhecido por sua obra e seu talento. O Denilson ĂŠ outro exemplo de dedicação, um entusiasta dos fanzines. Tenho colaborado muito com suas publicaçþes e tambĂŠm com o Paulo Kobielski. Estamos sempre nos falando e produzindo alguma coisa juntos.


Peryc e Spindler, personagens criados por Denilson Reis.

JORGINHO:  Como foi para vocĂŞ depois de formado e exercendo a profissĂŁo, a transição de Engenheiro EletrĂ´nico para a profissĂŁo de artista?

SILVIO RIBEIRO: NĂŁo foi fĂĄcil, rsrs... Comecei a estudar eletrĂ´nica jĂĄ no segundo grau, Ensino MĂŠdio, como chamam hoje, e quando estava quase concluindo esta etapa, comecei a pensar o que faria no futuro. Podia fazer Artes PlĂĄsticas e continuar sem dinheiro, ou entĂŁo cursar Engenharia, que naquela ĂŠpoca estava estourando como profissĂŁo. Depois que me formei, fui contratado na mesma empresa que fiz estĂĄgio. Algum anos depois a empresa faliu e me transferiram para outra, do mesmo grupo, mas menor. Sempre fui um cara organizado e nĂŁo gosto de esculhambação. Infelizmente, o prĂłprio responsĂĄvel pela direção da empresa, incentivava a bagunça e eu nĂŁo me adaptei. Acabaram me demitindo. Eu jĂĄ estava com 30 ou 31 anos e nĂŁo queria voltar para a Engenharia. Nesta ĂŠpoca eu tinha feito um curso de Quadrinhos com uns estrangeiros que estavam aqui em Porto Alegre, produzindo um trabalho para uma escola de inglĂŞs. O diretor do curso viu os meus trabalhos e me convidou para dar aula no exterior. Infelizmente era uma ĂŠpoca difĂ­cil para a economia e o projeto nĂŁo deu certo. Eles queriam entĂŁo, que eu assumisse o curso aqui em Porto Alegre, mas o Fernando Collor de Mello era o presidente e todo mundo sabe a desgraça que foi. NinguĂŠm tinha dinheiro e ninguĂŠm investiria em um curso destes naquela ĂŠpoca. Deu tudo errado, perdi o emprego e a oportunidade de trabalhar com algo que gostava. Fiquei alguns anos desempregado, vivendo das economias. Tive propostas para voltar a Engenharia, mas eu nĂŁo queria. Um dia me chamaram para uma entrevista em uma editora. Fazia mais de ano que eu tinha mandado um currĂ­culo e sĂł agora se interessaram. Eu nĂŁo sabia nada do trabalho, mas quando viram meus desenhos, me contrataram. Depois, em um mĂŞs, por duas vezes me avisaram que iriam me demitir se eu nĂŁo me adaptasse. Como sempre fui muito dedicado e esforçado, a mesma pessoa que queria me demitir, depois de 6 meses, veio me dizer que eu era o melhor profissional da empresa. Havia mais dois, que jĂĄ estavam lĂĄ quando cheguei. Trabalhei 24 anos nesta profissĂŁo, fazia projetos grĂĄficos e muitas ilustraçþes. Cheguei a fazer trabalhos que foram para mais de 100 paĂ­ses, em 3 lĂ­nguas. Muita coisa nem via publicada, apenas colocava no correio e enviava para o paĂ­s de destino. 


JORGINHO:  O que os quadrinhos de terror representam para vocĂŞ? Fale para o leitor como foi produzir as revistas HistĂłrias FantĂĄsticas e Quadrinhos FantĂĄsticos.

SILVIO RIBEIRO: Os quadrinhos de terror pra mim foram uma saĂ­da. Minhas primeiras leituras foram super herĂłis, mas chegou uma ĂŠpoca em que a qualidade, tanto da arte como dos textos, nĂŁo me agradava e parei de comprar. Como costumo dizer, meus Ă­dolos jĂĄ morreram todos, entĂŁo comecei a buscar por aquelas reediçþes de revistas antigas de terror, pois tĂŞm muitos trabalhos de artistas como alguns destes que citei antes. Com o tempo, fui desenhando algumas pequenas HQs de terror, seguindo aquele estilo, textos curtos e sempre uma sacada no final. Como nĂŁo tinha material para uma revista inteira, tive a ideia de convidar alguns amigos. Em 2015, publiquei HistĂłrias FantĂĄsticas, com a participação de vĂĄrios artistas nacionais. Tempos depois, descobri que outras revistas jĂĄ tinham usado este nome anteriormente. Em 2018 mudei o nome da revista para Quadrinhos FantĂĄsticos, juntei novamente trabalhos de vĂĄrios amigos e outros meus e publiquei. A intenção sempre foi tentar resgatar um pouco daquele estilo das revistas Kripta e Eyrie.


JORGINHO: VocĂŞ jĂĄ produziu trabalhos grĂĄficos para diversos paĂ­ses, o que resultou em uma coletânea intitulada Silvio Ribeiro Coletânea. Entre esses trabalhos, qual mais te marcou?

SILVIO RIBEIRO: Na verdade, esta coletânea ĂŠ de ilustraçþes que fiz fora do meu trabalho como editor de arte. Quando vocĂŞ ĂŠ um profissional, nĂŁo desenha sĂł o que gosta e, por isto, nas minhas horas vagas eu produzia meus prĂłprios trabalhos. Em 2005 resolvi publicĂĄ-los. NĂŁo tenho nenhum preferido entre eles, ou que tenha me marcado. A importância desta publicação foi ter sido a pioneira. Foi a primeira vez em que resolvi bancar meus prĂłprios projetos e nĂŁo esperar por editoras.


JORGINHO:  Como foi produzir obras tĂŁo completas para a aprendizagem da arte, sendo uma que aborda a Arte Digital e os dois volumes do Curso Completo de Desenho ArtĂ­stico? Como tem sido a repercussĂŁo destes trabalhos tĂŁo importantes para quem quer aprender as mais diferentes tĂŠcnicas?

SILVIO RIBEIRO: Quatro anos depois da coletânea, em 2009, nĂŁo tinha nada para fazer e comecei a baixar alguns pincĂŠis para o Photoshop. No meio do caminho resolvi criar os meus prĂłprios, em vez de usar os de outros. Montei vĂĄrios arquivos, com diversas camadas, com objetos para transformar em pincĂŠis. NĂŁo deu o resultado que eu esperava, mas percebi que havia criado um enorme banco de imagens e que poderia usar de outra forma. Acabei desenvolvendo meu prĂłprio mĂŠtodo de fazer arte digital e em cerca de um mĂŞs fiz 20 imagens. Decidi entĂŁo fazer um livro ensinando a tĂŠcnica. Como o primeiro livro nĂŁo vendeu bem, resolvi fazer apenas uma publicação digital e coloquei na internet para quem quisesse baixar gratuitamente. O livro acabou sendo um sucesso, e recebi mensagens de vĂĄrios professores de Design que estavam usando meu livro em aula e indicando aos alunos. AtĂŠ consultoria para criação de curso de Design acabei dando. Com o sucesso da versĂŁo digital, resolvi publicar o livro impresso. Logo comecei a receber vĂĄrios pedidos de livros, cada um querendo que eu abordasse um tema diferente. EntĂŁo, neste mesmo ano, decidi começar a produção de um livro que ensinasse tudo. Trabalhei cinco anos no Curso Completo de Desenho ArtĂ­stico. Nunca foi feito no Brasil ou no exterior um livro do gĂŞnero tĂŁo completo. Nele, abordo materiais de desenho e pintura, natureza morta, perspectiva, paisagens, luz e sombra, animais, figura humana, nanquim puro e aguado e pintura, com ĂŞnfase em tinta a Ăłleo e, ainda fui alĂŠm: coloquei um capĂ­tulo sobre arte digital e outro sobre histĂłrias em quadrinhos. Fiz a primeira edição em 2014 e agora, depois de muitos anos esgotado, publiquei a segunda. Demorei mais um ano na revisĂŁo. Ainda restam alguns exemplares deste livro. Provavelmente nĂŁo farei uma terceira edição. A nĂŁo ser que apareça uma editora interessada e que se comprometa a manter a mesma qualidade grĂĄfica das ediçþes anteriores.

Costumo dizer que este ĂŠ o livro que gostaria de ter encontrado quando comecei. Quem pega na mĂŁo e gosta de arte, nĂŁo consegue deixar de comprĂĄ-lo. É um livro para se ter sempre ao lado.




JORGINHO:  Fale para o leitor sobre "Faltou a Banana e Outras HistĂłrias", e sobre o "Quadrinhos Nostalgia", seus Ăşltimos lançamentos.

SILVIO RIBEIRO: Em 2020 comecei a escrever vĂĄrias histĂłrias de terror e fantasia. JĂĄ tinha escrito outras que publiquei nas revistas de quadrinhos. Como nĂŁo estava com tempo e disposição para fazer HQs, peguei estes 25 pequenos contos e publiquei em um livro, que chamei de Faltou a Banana e outras HistĂłrias. Nesta obra tambĂŠm tem algumas ilustraçþes. A Quadrinho Nostalgia veio por insistĂŞncia de alguns fĂŁs, que queriam ver meus trabalhos antigos. Nem os desenhos e nem as histĂłrias concorreriam a algum prĂŞmio, rsrs... Mas sĂŁo um registro da minha histĂłria e, agora, depois de mais de 30 anos, criei coragem para publicĂĄ-las.


JORGINHO:  Como vocĂŞ tem visto o mercado para o artista brasileiro? 

SILVIO RIBEIRO: Muitos artistas mais novos me fazem esta pergunta. A verdade ĂŠ que depende do que vocĂŞ quer desenhar. Como disse antes, um profissional nĂŁo faz apenas o que gosta e, na maioria das vezes, tem que fazer o que nĂŁo quer. Desenhar ĂŠ uma profissĂŁo. Eu fazia meus desenhos profissionais e paralelamente fazia o que gostava. Esta era a forma de conciliar tudo. Existe um mercado enorme no Brasil para desenhistas na publicidade. Teve uma ĂŠpoca em que eu fazia tantas ilustraçþes como freelancer, que ganhava mais com elas do que com o meu trabalho de editor de arte. Cheguei a saturar de virar noite e acabei ficando sĂł com o emprego fixo.

As pessoas em geral pensam que o trabalho para ilustrador estĂĄ em agĂŞncias e editoras. Na verdade, qualquer empresa, de qualquer ramo, pode ser um cliente. Eu fiz trabalhos para siderĂşrgicas, construtoras, supermercados, empresas de petrĂłleo e outras das mais diversas ĂĄreas de atuação. Entretanto, o aspirante a artista nĂŁo pode esquecer que nĂŁo adianta aquela sua tia ou sua mĂŁe dizer que vocĂŞ ĂŠ um artista. É preciso se desenvolver antes de querer ser reconhecido.

Para desenhar quadrinhos no Brasil sabemos que o mercado ĂŠ difĂ­cil. Eu, como sempre tive problemas com chefias, preferi produzir e publicar meus trabalhos de forma independente e, mesmo tendo recebido propostas, nunca quis desenhar quadrinhos para fora do Brasil.



JORGINHO:  Sobre a pandemia, como foi passar por ela? Daria uma boa HQ de terror?

SILVIO RIBEIRO: Faz menos de duas semanas que tive Covid. É uma desgraça para todo mundo, ainda mais com tanta informação errada sendo passada para a população e tanto desrespeito pela vida humana. Ela ainda nĂŁo acabou e certamente daria, nĂŁo uma, mas vĂĄrias histĂłrias de terror. Aproveitei o tempo livre para fazer mais publicaçþes. Este ano que passou foram trĂŞs.


JORGINHO:  Como vocĂŞ tem visto o cenĂĄrio social polĂ­tico pelo qual estamos passando? Quais as tuas esperanças e medos para as prĂłximas eleiçþes?

SILVIO RIBEIRO: Infelizmente a Direita ĂŠ dona dos principais meios de comunicação. A imagem criada da Esquerda ĂŠ um hippie drogado e comunista que quer a liberação do aborto. Conseguem convencer atĂŠ algumas pessoas da Esquerda, que acabam acreditando nisso. Eu sou de Esquerda, nĂŁo sou comunista, nĂŁo defendo a liberação das drogas e nem o aborto indiscriminado. Esta foi uma forma de destruir a imagem de quem tem consciĂŞncia social. A maioria das pessoas nem sabe o que ĂŠ ser de Direita ou Esquerda. De uma forma bem resumida, a Direita se preocupa com o capital (dinheiro) e a Esquerda tem no seu foco o ser humano. Este tema ĂŠ muito profundo para escrever neste espaço, pois ao contrĂĄrio do que o povo pensa, tudo o que aconteceu em 1964 e depois, em 2016, nĂŁo foi por acaso. Foram esquemas bem montados e planejados fora do Brasil. Para aqueles que se deixam influenciar pela grande mĂ­dia e que foram para as ruas atrĂĄs de um pato amarelo, isto ĂŠ bobagem, “teoria da conspiração”. Mas ĂŠ bastante simples de entender e nada tem a ver com polĂ­tica ou ideologia, e sim com dinheiro. Imagine que vocĂŞ tem um supermercado na sua rua e aĂ­ um sujeito vem e coloca um mercadinho perto do seu. Se ele crescer, alĂŠm de deixar de ser seu cliente, ele vai se tornar seu concorrente, tanto de compradores como de fornecedores. Qual a solução? NĂŁo deixar que ele cresça e chegue a seu nĂ­vel. Para entender melhor isto, basta ver todas as sançþes e as açþes dos Estados Unidos contra a China. SĂł que lĂĄ tem um governo forte. Ao contrĂĄrio do Brasil, onde se tirou um presidente por causa de uma “pedalada fiscal”, que nem crime ĂŠ, pois nĂŁo tira nada dos cofres pĂşblicos. Foi apenas um remanejo de orçamento para atender aos programas sociais. A grande mĂ­dia fez um “escândalo” e mandou o povo para as ruas. AlĂŠm de todo o dia falar em crise. Mas quem nĂŁo queria aquela “crise” onde tĂ­nhamos a menor taxa de desemprego da histĂłria?

Vejo muitas pessoas boas, que se preocupam com o prĂłximo, se dizendo de Direita. Se vocĂŞ ĂŠ um daqueles que vĂŞ alguĂŠm catando resto do lixo para comer e isto toca seu coração, entĂŁo vocĂŞ ĂŠ de Esquerda, mesmo que pense que ĂŠ de Direita. EstĂĄ na hora de vocĂŞ estudar mais e nĂŁo se deixar influenciar pela TV e por estas religiĂľes do mau, que pululam pelo paĂ­s e que sĂł querem dominar sua mente e escravizĂĄ-lo para vocĂŞ continuar sendo uma eterna fonte de dinheiro para elas.

Meu medo ĂŠ que Bolsonaro seja reeleito. Mesmo agora, se ele sair, nĂŁo sei se sobrou algum Brasil para ser reconstruĂ­do. Do desgoverno de FHC ainda sobrou alguma coisa para reconstruir. Esperanças em relação ao nosso paĂ­s eu nĂŁo tenho. Nosso povo engole “Estados Unidos” da manhĂŁ Ă  noite. É sĂł o que vimos e ouvimos nos meios de comunicação o dia inteiro. Golpes no Brasil, golpes em toda a AmĂŠrica Latina, golpe na Ucrânia, destruição da LĂ­bia, do AfeganistĂŁo e do Iraque... Fazem o que querem pelo mundo com a força das armas e da mĂ­dia, mas sĂŁo sempre mostrados pela grande mĂ­dia como herĂłis, salvadores da liberdade e da democracia. NĂŁo posso ter esperança, nĂŁo com este nosso povo que cospe no prato que comeu e que anda por aĂ­ em manifestaçþes com bandeiras de Israel e Estados Unidos. Quem estudou sabe que todo o impĂŠrio cai um dia. É certo que isto vai acontecer, mais cedo ou mais tarde. SĂł espero que os Estados Unidos nĂŁo arrastem o Brasil novamente para uma outra guerra.


JORGINHO:  Quais os teus planos para 2022?

SILVIO RIBEIRO: Eu tenho 60 anos e nĂŁo estou mais pegando trabalhos. Me considero aposentado. Faço uma ou outra colaboração para amigos ou, quando alguĂŠm me pede e estĂĄ disposto a pagar meu preço, faço uma arte comissionada. Escrevi mais 22 contos e talvez este ano publique o segundo volume com histĂłrias de terror e fantasia. Tem um outro projeto em que estou trabalhando, que ĂŠ um livro com minhas artes. SĂŁo diversos trabalhos a lĂĄpis, nanquim, tinta a Ăłleo e tambĂŠm HQs. Nada tem data certa para ser publicado. Tenho que primeiro receber o retorno do investimento que fiz nestas 3 publicaçþes em 2021. Por enquanto os livros estĂŁo vendendo bem. Sempre digo aos amigos, se vocĂŞ tem algo para fazer, entĂŁo faça. NĂŁo adianta ficar esperando eternamente que o mercado e a mentalidade do brasileiro mudem. Eu faço a minha parte e se vai dar certo, vemos depois.


JORGINHO:  Deixe uma mensagem para o leitor do Arte e Cultura.

SILVIO RIBEIRO: Aprendi uma coisa muito importante a um grande custo. Tudo pode dar dinheiro, ou nĂŁo. Dizem que algumas profissĂľes sĂŁo melhores do que outras. Eu comecei no caminho errado e demorou um bom tempo para o destino me colocar nos trilhos. Uma pessoa sĂł serĂĄ feliz, irĂĄ se desenvolver e terĂĄ sucesso, se fizer o que gosta. EntĂŁo, nĂŁo importa a profissĂŁo que vocĂŞ escolher, mas tenha certeza que ĂŠ o que vocĂŞ realmente quer fazer na sua vida.


CONTATOS

SILVIO RIBEIRO


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Livraria Londres, no Bom Fim, em Porto Alegre
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"E aqui deixo um conselho para quem estĂĄ começando: tenha seus Ă­dolos, aprenda com eles, mas nunca tente imitĂĄ-los, pois o mĂĄximo que vocĂŞ vai conseguir ĂŠ ser uma cĂłpia mal feita de alguĂŠm. Vejo muitos desenhistas, inclusive profissionais, que foram por este caminho e desistiram de seu prĂłprio traço."
- Silvio Ribeiro


Jorginho

Jorginho ĂŠ Pedagogo, FilĂłsofo, ilustrador com trabalhos publicados no Brasil e exterior, ĂŠ agitador cultural, um dos membros fundadores do ColetiveArts, editor do site Coletive em Movimento, produtor do podcast Coletive Som - A voz da arte, jĂĄ foi curador de exposiçþes fĂ­sicas e virtuais, organizou eventos geeks/nerds, ĂŠ apaixonado por quadrinhos, literatura, rock n' rool e cinema. É ativista pela Doação de ÓrgĂŁos e luta contra a Alienação Parental.


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espalhe cultura!



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12 ComentĂĄrios

  1. Obrigado pelo apoio Jorginho. Excelente entrevista, suas questþes me permitiram expor minhas ideias de uma forma, que tenho certeza, ajudarå o leitor a conhecer melhor a vida de um artista e suas ligaçþes com a arte e com o mundo. Abraço

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  2. Muito legal a entrevista, o Sílvio Ê, com certeza, um dos mestres dos nossos quadrinhos e merece todo destaque nos seus trabalhos, que são inspiração para muitos quadrinhistas nacionais. ParabÊns pela bela entrevista.

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  3. GRANDE ARTISTA BRASILEIRO , COM SEUS BELOS TRABALHOS , PRECISA SER MAIS VALORIZADO PELO PRÓPRIO POVO BRASILEIRO E GOVERNO , EM RESUMO TENHO A HONRA DE CONHECÊ LO .

    UM SALVE Á ESSE GRANDE ARTISTA .

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  4. Ótima entrevista. Excelente trabalho!

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  5. O Silvio ĂŠ um grande artista, foi um privilĂŠgio fazer a matĂŠria

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  6. O Silvio Ê um artista comoleto no desenho e pintura, alÊm de saber muito sobre criação e produção de materiais gråficos impressos. E um cara generoso com os amigos e sempre incentiva os novos artistas. Seus livros e HQs são de excelente qualidade. Cursos completos de desenho que não deixam nada a desejar. Sou muito grato por todo incentivo que sempre recebi dele desde que nos conhecemos. Cara sempre disposto a ajudar. Espero que o sucesso e reconhecimento da dua obra aumente a cada dia meu amigo. Vida longa e muita arte. Abraço!

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  7. Achei a entrevista muito interessante. Tenho alguns exemplares dos livros, incluindo o "Silvio Ribeiro- Coletânea", o qual o próprio autor me mandou pelo correio. Mas nos conhecemos pessoalmente, mesmo, só anos depois num "Mutação". Um sujeito gentil e um artista de talento colossal numa pessoa só

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  8. Baita matĂŠria. Silvio Ribeiro ĂŠ um dos grandes artistas grĂĄficos do Brasil. AlĂŠm de exĂ­mio contador de histĂłrias. Seu Ăşltimo livro de contos ĂŠ sensacional.

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  9. Como se pode perceber, trata-se de um artista de enorme potencial, onde seu trabalho se expande num leque de opçþes...quadrinhos, ilustraçþes, arte gråfica, arte comissionada, pintura a óleo e acrílica...mas de uma forma especial, os quadrinhos. Pela sua bagagem de conhecimento ele se dispþe a ensinar os iniciantes nessa arte, atravÊs de seus livros que abordam de maneira minuciosa o passo a passo do desenho.

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  10. ParabÊns ao Coletive por essa magnífica entrevista com o Mestre do Quadrinho Nacional Sílvio Ribeiro. Sílvio Ê uma pessoa fantåstica e coloca muito bem suas palavras em cada entrevista, com sinceridade e inteligência. Uma verdadeira aula sobre o mundo dos quadrinhos e das ilustraçþes. Sinto-me gratificado por ter a parceria do Sílvio na Tchezine. Excelente entrevista!

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