
Para minha tia e minha sobrinha
Quando era criança e morava na Alemanha, eu tinha uma tia francesa. Na verdade, era tão (ou tão pouco) francesa quanto suas duas irmãs – minha mãe e minha outra tia. No entanto, podia faltar francesidade de sangue e de passaporte; francesidade afetiva era o que não faltava..
Todas as três tinham frequentado o Colégio Francês em Berlim, participado de intercâmbios escolares no país vizinho, trocavam cartas com amigas por correspondência e eram fluentes naquela língua excêntrica que se fala pelo nariz e na qual água se diz ô, mas se escreve eau. Minha vó – ela mesma professora de francês – aprovava e apoiava tudo aquilo avec plaisir. Mas minha tia foi além. Depois do ensino médio e de aprender o ofício de entalhadora, nada a segurava em Berlim: mudou-se pra Bordeaux (leia-se Bordô) e começou a cursar tradução.
Morava lá quando eu era pequena, e nos primeiros anos da minha vida as visitas da tia francesa eram tão raras quanto desejadas. É que quando ela vinha era uma festa. Uma figura fascinante, essa minha tia: eu nunca havia visto tamanha trança de cabelo dourado, e, ainda por cima, tinha mãos mágicas. Com elas pintava quadros de aquarela, esculpia figuras de madeira, fazia olaria, tocava violão e escrevia letras para acompanhá-lo. O cavalo de balanço que ela talhou pra mim enfeita até hoje a sala dos meus pais. Mas o mais fascinante não era a trança cheia e comprida nem os presentes ou sua habilidade artística. Eu morria era de orgulho de ter uma tia que morava em outro país. Que tinha feito da vontade realidade: bater asas, levantar voo, ser livre e ir atrás da sua felicidade. De alguma forma, já naquela época intuía que isso requeria paixão e coragem.
Anos mais tarde, quando voltou pra Berlim de vez, com o coração rompido, as asas cortadas e uma sementinha francesa no ventre, cortou a trança. Não jogou fora: arranjou-a em forma de clave num quadro com fundo preto e pregou na parede. A melodia da liberdade agora vivia presa, esmagada atrás do vidro. Eu a olhava com um misto de fascinação e incompreensão, como se olha uma peça arqueológica num museu.
Já faz muito tempo tudo isso. Meu primo – na época uma sementinha francesa no ventre dela – este ano fez 31 anos. E eu, que na mesma época tinha nove, agora fiz 40. Foi para comemorar o aniversário redondo que vim pra Berlim. Fazia tempo que não vinha. Há oito anos, quando bati asas e pousei no Brasil, minha sobrinha tinha apenas seis meses de vida. Depois, na minha próxima e última visita, ela ainda nem tinha dois. Quando, uns meses atrás, falei pra minha família que estava com as passagens compradas, ela se empolgou. Não queria mais ir pra escola, com medo de perder minha visita. Contou pra Deus e pro mundo que a tia brasileira ia chegar.
Não sei desenhar, fazer cavalos de madeira e muito menos tocar violão. Mas vira e mexe escrevo uma crônica pensando nela.
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| Yvonne Miller Foto: Thaís Vieira |


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