ARTE E CULTURA

    Memórias da Delinquência ou A noite começa diferente para cada um

O escritor Fabio da Silva Barbosa está de retorno de um auto exílio. Após um período em Foz do Iguaçu, ele retorna a Porto Alegre/RS para continuar sua luta através da cultura. Fabio nunca se desligou da luta, isso é verdade, pois estava ativo na criação de novas obras literárias e de sua colunas no Coletive, as essenciais: Ponto Cego e Malditos Teclados Bailarinos - Post Mortem  e acaba de lançar seu novo livro "Memórias da Delinquência ou A noite começa diferente para cada um, pela editora Kapivara Kartonera, de Foz do Iguaçu.

Falar sobre Fabio para mim é um tanto dificil, Fabio é um dos maiores amigos que eu tenho e um dos membros mais ativos do ColetiveArts, mas sempre reforço que é um dos maiores escritores do Brasil e com certeza o maior nome do underground brasileiro. Conversar com Fabio sempre é estar frente à frente com uma explosão de ideias e opiniões que nos tiram do senso comum. Falando nisso, esta semana ele inaugura uma nova coluna no Coletive: Reflexões de um Inconformado, e espero que você leitor a prestigie, lendo e refletindo cada palavra.

Com vocês Fabio da Silva Barbosa:

Jorginho: Como o período de "auto exílio" ajudou na retomada do teu processo criativo? 

Fabio da Silva Barbosa: Ele me ajudou a continuar vivo, sobrevivendo a cada dia, respirando mesmo com dificuldade. A convivência com os demais já beirava o impossível. Tudo muito tóxico.  Este período me ajudou a permanecer sobre a terra até as coisas clarearem. Daí pude começar a me reorganizar, refletir sobre certos pontos, pensar e repensar, me reencontrar... Alguns acontecimentos foram me ajudando a renascer. É um processo complexo demais e não foi a primeira vez que tive de me afastar do mundo. Aprendi que, por vezes, isso é necessário  O ser humano é realmente muito difícil.  Ele precisa transpor barreiras, dançar, criar, chorar, gritar... É um animal, ao mesmo tempo que peçonhento, incrível.  Difícil decifrar ou descrever seus processos em poucas palavras.

Jorginho: Memórias da Delinquência ou A Noite Começa, seu novo lançamento chegando, o que ele significa para você e o que o leitor vai encontrar nele?

Fabio da Silva Barbosa: É o registro de uma geração maldita, meninos e meninas rebeldes e inconformados, que não queriam se encaixar, não queriam fazer parte do sistema, não queriam ser mais uma engrenagem. Quando a criança cresce e começa a se deparar com o mundo medonho que destrói todos os seus sonhos, os que não foram completamente destruídos se levantam contra e buscam qualquer saída que os tirem do calabouço social. São rotulados então como delinquentes, desajustados, e as instituições vão encarniçadas para submete-los a todo o custo. Os indomáveis resistem bravamente e normalmente se reúnem em grupos dedicados a expor suas insatisfações e seu ódio contra a terrível máquina de moer. A guerrilha começa.  Esses grupos podem ser observados em várias partes e tem um efeito local, mas passam batidos para a grande maioria. Esse, registrei a existência por ter feito parte dele. Daí, em um belo dia, comecei a escrever uma poesia que saiu originalmente em formato fanzine, com 12 páginas, e agora ganha essa segunda edição pela Capivara Cartonera, que conheci durante minha passagem por Foz, em meio à agitação cultural de resistência que encontrei no lugar.

Jorginho: Vivemos num caos político e social desde sempre, e vc está preparando uma nova coluna para o Coletive  com um título muito forte, o que veremos nela?

Fabio da Silva Barbosa: Essa coluna será um retorno a um formato que não exercito há muito tempo. Alguns textos nesse estilo sairam em meu livro Sobre uma sociedade decadente, que até o momento foi lançado apenas no formato digital, mas estou tentando lançar uma segunda edição impressa. Mas o porquê do retorno a esse formato? Por estarmos vivendo em uma época onde está tudo muito exposto, ninguém disfarça mais, não se tem vergonha de agir da forma mais retrógrada e canalha possivel. E o pior é que a maioria está tão anestesiada que não consegue reagir. Daí foi dando essa vontade de retornar a este formato que vem bem a calhar para os nossos tempos de merda e sangue espirrando para todo o lado. Sei que estes escritos irão desagradar a muitos, mas a ideia não é ser agradável, palatável ou qualquer coisa asssim. A ideia é justamente criar desconforto, sacudir até a criatura acordar, tratamento de choque. 

Jorginho: A explosão de ideias em sua mente sempre foi constante e de uma coerência enorme, eu consigo enxergar todo um fio condutor desde o teu Zine Reboco Caído, até o teu novo lançamento Memórias da Delinquência ou A Noite Começa e tua nova coluna, o que mais a sua mente criativa está bolando para este ano?

Fabio da Silva Barbosa: Sim, é tudo a sequência da mesma caminhada. Embora tenha sempre essa vontade de testar novos formatos, ter novas experiências, a ideia sempre foi usar as formas de expressão como ferramentas de luta, de esclarecimento e passar a mensagem. Tenho muitos projetos em mente, mas você sabe como é fazer as coisas por nós mesmos, com o apoio de alguns loucos que realmente acreditam na caminhada. Tem o ARQUIVOS EXPLÍCITOS que já devia ter saído desde o final do ano passado, mas sofreu atraso devido as barreiras e dificuldades normais enfrentadas por quem nada contra a maré. Dessa forma, prefiro deixar os projetos irem nascendo e divulgo quando acontecer. Mas posso adiantar que tem muita coisa por vir. Aguardem.


Jorginho: Como você está vendo este ano de eleições e a ameaça constante do fascismo

Fabio da Silva Barbosa: Como sempre vi. O fascismo é algo para ser combatido sem trégua ou medo. Não tem como passar a mão na cabeça, ignorar ou vir com aquele papo furado de liberdade de opinião. Ser fascista ou postura que o valha não é mera questão de opinião. E uma coisa que sempre digo: quem é a favor da liberdade, não dá espaço para quem é contra a liberdade. Então, não existe liberdade de ser fascista, nazista ou qualquer outra coisa do tipo. Isso não deve e não pode ser tolerado por quem é a favor da liberdade. Em resumo: quem é a favor da liberdade, luta constantemente contra qualquer forma de autoritarismo, contra qualquer ataque à liberdade. Não dá espaço para os inimigos da liberdade. Não pode haver tolerância para os intolerantes ou respeito com a falta de respeito. Quanto às eleições, acho que cada um deve agir de acordo com sua consciência e postura política. É um assunto profundo e que irei explorar entre as pautas dessa nova coluna. Fiquem de olho.

Jorginho: O neo nazismo, o neo fascismo, o neo pentecostalismo, estes "neos" e "ismos", este "Deus, pátria e família" que infestam o ar por aí atrofiando mentes, na sua opinião qual é a alternativa para lutarmos contra isso?

Fabio da Silva Barbosa: Lutar a cada momento sem paz e sem descanso. A luta tem de ser como respirar. Tudo que você faz tem que ser com a cabeça na luta. Temos de usar nossas habilidades e os espaços por onde passamos. Tudo tem que ser voltado para este objetivo. Quem deseja viver uma vida tranquila, não deve brincar de revolução. A ação direta é para quem tem estômago de chegar até às últimas consequências.

Jorginho: Você é um delinquente, ou a noite começou de novo? 

Fabio da Silva Barbosa: Fui um delinquente juvenil e atualmente um delinquente senil. Quanto à noite... ela nunca acaba para criaturas como eu.

Jorginho: Deixe seu recado para o leitor do Arte e Cultura

Fabio da Silva Barbosa: Não use a maturidade como desculpa para se acomodar. Não existe outra forma de mudarmos essa realidade revoltante que vivemos a não ser por nós mesmos. A mudança não vem de cima. Os de cima não querem mudanças. Pelo contrário. Eles querem que tudo fique exatamente como está.  Mas antes de pensar em participar da mudança mundial, pense em mudar você mesmo, se olhe no espelho e reconheça por onde começar. Suas falas devem andar de mãos dadas com suas atitudes.

Memórias da Delinquência ou A Noite Começa Diferente para Cada Um...

Memórias da Delinquência ou A Noite Começa Diferente para Cada Um... foi lançado originalmente entre 2012 e 2013, ou pelo menos é o que imagino. A verdade é que não tenho muita certeza de quando foi.  Saiu em formato zine impresso e também digital. Não foi muito divulgado e teve pouca circulação. Remexendo em meus papéis e tentando imaginar por onde começaria a lançar as segundas edições de trabalhos antigos, pensei em Mano Zeu, que conheci em minha passagem por Foz do Iguaçu e na sua Kapivara Kartonera. O passo seguinte seria finalmente decidir por onde começar.  Foi então que dei de cara com a primeira edição de Memórias da Delinquência. Tinha tudo a ver uma versão cartonera. Sem falar que traria de volta um trabalho que não teve tantas chances de ser apresentado e que é o registro de uma geração que passou despercebida pelas pessoas em geral, mas, por onde passavam, por aí, chocavam e tiravam o cidadão comum da zona de conforto. Jovens rebeldes, inconformados e dispostos a tudo, menos se enquadrar na opção tida como única possível.  Eles queriam ir além e destruir toda estrutura que mantém o maldito status quo de pé, barbarizar a civilização, atacar a podre moral e os desprezíveis bons costumes. Era uma turma como várias que povoam e enfeitam as margens.  A diferença  é que essa foi registrada. É o simbolo de uma rapaziada que brota em todos os lugares, coberta de insatisfação e que não quer seguir o caminhos impostos por sua família e demais pilares sociais. Eles não querem fazer parte. Uma juventude que risca o fósforo e coloca fogo na gasolina, acendendo o fogo do questionamento, rompendo todos os limites e  cuspindo nos padrões conservadores e hipócritas que mantém essa estrutura mais que carcomida de pé.  Uma geração anterior à existência de celulares, redes sociais, internet...  uma geração que não ficava de cabeça baixa, vivendo a ilusão fria das telas. A única tela que prendia as pessoas na alienação e ilusão eram os malditos aparelhos de televisão, completamente execrados por essa turma.

Para conhecer a segunda edição deste trabalho que leva a assinatura de Fabio da Silva Barbosa, o mesmo do zine Reboco Caído, entre em contato com a editora que abraçou o projeto ou fale direto com o escritor.


Contato com a editora:


Contato com o autor:

"Fui um delinquente juvenil e atualmente um delinquente senil. Quanto à noite... ela nunca acaba para criaturas como eu."
- Fabio da Silva Barbosa


Jorginho

Jorginho é PedagogoFilósofo, graduando em Artes, com pós graduação em Artes na Educação Infantil, ilustrador com trabalhos publicados no Brasil e exterior, é agitador cultural, um dos membros fundadores do ColetiveArts, editor do site Coletive em Movimento, produtor do podcast Coletive Som - A voz da arte, já foi curador de exposições físicas e virtuais, organizou eventos geeks/nerds, é apaixonado por quadrinhos, literatura, rock n' rol e cinema. É ativista pela Doação de Órgãos e luta contra a Alienação Parental.

"Quanto mais arte, menos violência. Quanto mais arte, mais consciência, menos ignorância."

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CRIANDO MUNDOS!



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