

Fantasma, o espírito-que-anda, personagem criado por Lee Falk, está completando hoje 90 anos de publicação. O ColetiveArts, junto com o grupo Fantasma, o Espírito-Que-Anda e com o canal Fantasma Brasil, estão festejando o aniversário deste herói que é imortal.
E continuando a nossa programação, fomos conversar com um dos maiores talentos dos quadrinhos mundiais, o ilustrador brasileiro, Wendell Cavalcanti, confira como foi.

Jorginho: Quem é o Wendell Cavalcanti? Como você se define?
Wendell Cavalcanti: Sou um cara extremamente comum que tem sorte de trabalhar com o que gosta, mesmo com os altos e baixos da profissão, pois os altos e baixos dos outros empregos eram imensamente piores. Alguém que conseguiu aprender um pouco nesses anos de trabalho e que sabe que tem ainda uma estrada loooonga de aprendizado pela frente. Alguém que conhece as próprias limitações e sabe que tem uma batalha diária contra elas, que se cansa às vezes, mas continua, talvez por birra.


Jorginho: Como a literatura e os quadrinhos entraram em sua vida?
Wendell Cavalcanti: Os quadrinhos foram apresentados a mim por meu pai desde muito cedo. Lembro bem dos quadrinhos infantis como Brasinha, Gasparzinho, Turma da Bolota, Brotoeja, Turma do Lambe-Lambe, de Daniel Azulay, Super Mouse, Zorro, Cavaleiro Solitário, Tarzan... Tudo da Disney (era louco por esse universo, principalmente quando eu achava o Zorro na publicação) e Turma da Mônica. Curioso como lembro claramente desses primeiros quadrinhos. Os títulos nunca me fugiram da memória, apesar dessa memória estar cada vez pior. Mas, junto com esses mais infantis, vinham também Batman e os títulos da Ebal, Homem-Aranha, Tex e, claro, O Fantasma. O gosto pela Literatura chegou um pouco depois quando, na escola em que eu estudava, a biblioteca foi aberta uma vez (sempre vivia fechada, talvez por falta de funcionário, não sei) e entrei de curioso... Fui olhando as prateleiras e tateando até que parei na lombada de As Aventuras de Xisto e depois desse fui achando a coleção Vagalume... Nessa época sempre procurava mais por aventura.
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| Páginas de Adventures of Dragon's Leg |
Jorginho: Quais os quadrinhos que marcaram a sua infância?
Wendell Cavalcanti: Foram muitos, mas com certeza os que marcaram de verdade foram Batman, O Fantasma e Tex (só depois de um tempinho fui conhecer Ken Parker na casa de um tio e me apaixonei por esse personagem). Eu não colecionava grande parte dos quadrinhos que eram lançados na época. Ia juntando tudo que meu pai comprava e no fim do mês levava os que eu não queria mais para o sebo pra trocar. Os que eu mantinha como coleção eram esses três que mencionei acima.


Jorginho: Quando a arte de desenhar surgiu em sua vida?
Wendell Cavalcanti: Desde muito pequeno, como todo mundo, desenhava. Sabemos que em um momento muitos param de desenhar (vejo isso com meu filho agora. Desenhava muito e teve um momento que ele parou) e tudo bem. O que me fez não pensar em parar era que eu gostava muito de aventuras. Passava minhas tardes assistindo Sessão da Tarde e quando passava um filme de aventura tal como O Gavião e a Flecha, o Gavião dos Mares, os filmes de Sinbad, O Zorro, com Frank Langella... Eu pirava. Então eu procurava essa sensação nos filmes, quadrinhos, livros... e quis fazer quadrinhos de aventura. Óbvio, era uma colagem de tudo que eu consumia. Copiava nomes, copiava sequências, copiava a história, enfim... Daí continuei a desenhar... Tinha momentos em minha vida que estava em algum emprego que me tirava toda a energia e eu deixava o lápis e papel de lado um pouco. Trabalhei em recepção de hotelaria muitos anos e era extremamente cansativo, mas tinha dias em que não havia nada pra fazer. Então eu me encostava no balcão e rabiscava e fazia sketches... Nunca parei totalmente.
Jorginho: Quais as suas maiores influências?
Wendell Cavalcanti: Vige, é uma lista longa e diversa que vai de Shazan e Xerife, passando por seriados dos anos 40, filmes como Scaramouche e Pimpinela Escarlate, Zorro, filmes independentes como O Balconista ou O Agente da Estação, literatura sci-fi como Farenheit 451 ou 1984, partindo pra Duna... Artistas como Mozart Couto, Jayme Cortez, Nicolosi, George Pérez, Michael Golden, Sean Murphy, Sean Phillips... trilhas sonoras como de Sete Homens e um Destino, Planeta dos Macacos... Ah, é uma salada sem fim.
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Jorginho: Dos seus trabalhos antes do Fantasma, quais os que mais te marcaram?
Wendell Cavalcanti: Sempre trabalhei com autores independentes. Fiz muita coisa que não saiu da gaveta, mas fiz outras tantas que ganharam as prateleiras e as mesas das convenções de quadrinhos nos EUA. Tenho carinho enorme por todos esses trabalhos que fiz anteriormente (ainda que alguns tenham me dado dor de cabeça, também sinto carinho por esses), me ajudaram a aprender a fazer uma página na prática. Gosto muito dos primeiros, The Undertaker’s Daughter, com Eric Palicki no roteiro. Gosto de The Invisible Scarlet O’Neil, que foi uma repaginada de um personagem dos anos 40, da Famous Funnies. Adventures Of Paula Peril, para o Studio Atlantis. Fiz ainda, pra Moonstone, a Domino Lady... Porém, destaco um deles: BlackAcre, em 2013, da Image. Foi o primeiro trabalho pra uma editora grande, uma série que durou 12 números e que me levou ao Fantasma.

Jorginho: Como surgiu a oportunidade de desenhar o Fantasma? O que significa para você desenhar o personagem?
Wendell Cavalcanti: Eu já tinha contado essa história em algum momento...Quando terminei BlackAcre, um cara que acompanhou a série entrou em contato comigo querendo algumas comissions e depois sugeriu fazer algum projeto juntos. Eu nunca recuso trabalho. O nome dele é Tor Dollhouse, um australiano. Conversávamos com frequência e numa dessas falávamos dos personagens favoritos de cada um. Quando mencionei o Fantasma ele teve a ideia de prepararmos uma proposta e levar pra Frew. Bom, como ele morava lá, achei que ficaria mais fácil o contato, ainda que isso pudesse ter sido feito por e-mail. Mas ele foi direto falar com o editor da época, Glenn Ford. Infelizmente a proposta não foi aprovada, mas um tempinho depois, Glenn entrou em contato perguntando se eu estaria disponível pra trabalhar em um roteiro. Aceitei na hora, óbvio.
O roteiro era REQUIEM, escrito por Pidde Andersson, sobre o 17º Fantasma, se não me engano, situado na I Grande Guerra. Foi lançada num Anual do Fantasma, em 2019. Acabei fazendo a capa dupla dessa edição também, o que me deixou A) com um orgulho da porra e B) com um cagaço imensurável antes de começar. Já vendi muitas páginas do Fantasma, mas essa capa eu mantenho comigo. Trabalhar no Fantasma, desenhando o personagem é, de fato, a realização de um sonho. Eu desenhava vários Fantasmas nas folhas do caderno. Desenhava posters nas folhas onde deveria escrever as matérias das aulas... Jamais imaginei que fosse chegar a esse ponto. Nem em sonho. Ter feito só essa história e a capa já teria sido bom demais, teria sido “O” sonho realizado e pronto. Mas aí Glenn me chamou pra trabalhar com Julie Ditrich numa continuação de uma história clássica. O título da continuação é “The Adventures of the Dragon’s Leg” com o retorno da Princesa Sin. Ainda terminando essa, Glenn me ofereceu um roteiro de 8 páginas, escrito por Andrew Constant – “Welcome Aboard” – com o Fantasma pirata. Voltei a trabalhar com Julie após essa curta, em outra continuação de outra história clássica, “The Return of the Golden Circle” e, logo após, trabalhei mais uma vez com Julie em “Simulacra” – Essa sai esse ano, acho. Passei de “nem em sonho” pra “desenhei o Fantasma em cinco histórias publicadas”. REQUIEM foi publicada na Austrália, Suécia e Alemanha. Por mim tá ótimo.
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| The Return of the Golden Circle |
Jorginho: Quais artistas e roteiristas que trabalham ou trabalharam com o personagem você mais admira?
Wendell Cavalcanti: Bom, Lee Falk escreveu a maioria das histórias, né? Então, provavelmente as histórias que eu gosto foram escritas por ele. Mas na era moderna, curti muito a série da Globo, com a dupla Mark Verheiden e Luke McDonnel. Nunca li as tiras escritas por Tony De Paul, mas acredito que sejam legais. Agora, do artista do traço posso falar com propriedade... Sem dúvida Ray Moore é dos meus preferidos, com aquele clima noir que ele imprimia em cada painel. De Wilson McCoy nunca Gostei. Sy Barry, claro, está na minha lista, com aquele traço limpo, clássico (inclusive venho comprando o Omnibus da fase de Barry unicamente por ser ele, apesar de ser mais republicação). Adoro o Fantasma de Luke MacDonnel, na fase DC. Um Fantasma compacto, bruto, tem um charme dos anos 90. Paul Ryan tem um traço lindo, desenha um Fantasma elegante.
Jorginho: Na sua opinião a que se deve a longevidade do personagem?
Wendell Cavalcanti: Sinceramente não sei responder essa pergunta... O Fantasma me atraía pelo mistério de ser um personagem no meio da selva (Assim como Tarzan), pela linhagem centenária de Fantasma (é uma família muito perturbada, isso eu acho interessante). Mas isso é o que me faz gostar dele... Não sei quanto a outros leitores, o que os faz gostar tanto e manter essa longevidade. Tivemos muitas transformações nos quadrinhos. Personagens foram deixando a ingenuidade pra trás e ficando mais “realistas”, sombrios, violentos... Essa fase violenta foi sendo deixada pra trás pra entrarem em outra fase e assim vem acontecendo há anos. O Fantasma continuou praticamente o mesmo durante todo esse tempo, se tornando um personagem de um nicho que já é de um meio bem “nichado”... Houve uma ou outra tentativa pontual de torná-lo sombrio, violento... Parece que não deu certo. Mas ele está aí, sendo publicado ininterruptamente na Austrália há mais de 77 anos. Mas são anos de republicações... Bom, a Moonstone publicava uma leva nova de histórias, a Egmont publica histórias novas, a Frew lança algumas novas junto com republicações e assim vão indo. A Mad Cave voltou a lançar o Fantasma recentemente. Espero que dê certo, que dure mais tempo.
Jorginho: Quais os seus próximos projetos profissionais?
Wendell Cavalcanti: Estou trabalhando em alguns projetos... Na continuação de ATLANTIS WASN’T BUILT FOR TOURISTS, Graphic Novel em que trabalhei com Eric Palicki, lançada em 2024 em um volume, em uma campanha no Kickstarter, depois publicada pela Scout Comics em quatro números. Em uma minissérie do AIRBOY – HEROES FROM ABOVE (personagem dos anos 1940) em dois números para a Moonstone Books. Em um pitch para um título de Terror chamado “HOUSE OF THE SMILING DEAD”, com Julie Ditrich. Além desses, preciso terminar meus próprios projetos, que iniciei com meu parceiro no crime, Jamal Singh: BOCA DO LIXO – PORNÓGRAFOS, terceiro volume da série Boca do Lixo e o segundo volume de CAJUN, O BOM FRANJOU, um western inspirado nos spaghetti westerns. Além de um terceiro projeto com Jamal, que por enquanto não podemos falar nada, pois ainda não temos certeza de como estão os acordos pra publicação. É muito difícil trabalhar neles, pois boa parte do meu tempo tenho de cumprir os prazos dos contratos.
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| Página ínédita em história a ser publicada este ano: Fantasma:Simulacra |
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Wendell Cavalcanti: Como dizia Bilu: “Busquem conhecimento.”E leiam mais HQ’s.
Wendell Cavalcanti
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1936 - 2026 ![]() Fantasma 90 anos é um evento do ColetiveArts em parceria com o grupo Fantasma - o espírito que anda (face) e com o canal Fantasma Brasil (YouTube) |
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Jorginho é Pedagogo, Filósofo, graduando em Artes, com pós graduação em Artes na Educação Infantil, ilustrador com trabalhos publicados no Brasil e exterior, é agitador cultural, um dos membros fundadores do ColetiveArts, editor do site Coletive em Movimento, produtor do podcast Coletive Som - A voz da arte, já foi curador de exposições físicas e virtuais, organizou eventos geeks/nerds, é apaixonado por quadrinhos, literatura, rock n' rol e cinema. É ativista pela Doação de Órgãos e luta contra a Alienação Parental. "Quanto mais arte, menos violência. Quanto mais arte, mais consciência, menos ignorância." DIRETO DA COLETIVE CAVERNA! COLETIVEARTS, 07 ANOS DE VIDA, CONTANDO HISTÓRIAS, CRIANDO MUNDOS! O COLETIVE AMA O FANTASMA! |


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