
O curioso incidente do cachorro no meio da noite
The curious incident of the dog in the night-time, do autor inglês Mark Haddon, é um maravilhoso romance juvenil, em que um adolescente investiga o assassinato do cachorro da sua vizinha e acaba descobrindo verdades incômodas sobre sua família e o mundo. O protagonista e narrador da história é Christopher, um menino de quinze anos no espectro autista. É através dos seus registros escritos sobre o caso do cachorro Wellington que vamos conhecendo os personagens, o entorno de Christopher, sua relação com o pai — desde a morte da mãe anos antes, pai solo —, e também seu jeito de enxergar o mundo: Christopher sabe de memória todas as capitais do mundo, além dos números primos até 7057; adora padrões e animais; possui uma memória fotográfica; tem dificuldades para compreender piadas, metáforas ou o comportamento humano; sente medo de multidões, pessoas ou lugares desconhecidos; detesta as cores amarelo e marrom; é extremamente sensível aos estímulos e, por isso, odeia ser tocado. Como se tudo isso fosse pouco para criar um protagonista complexo e adorável, ele ainda é patologicamente incapaz de mentir e um gênio matemático. O título do livro em português é O estranho caso do cachorro morto e recomendo muito a leitura.
Outro caso, bem menos curioso e bem menos estranho — a não ser que usemos os adjetivos como ironia —, é aquele que tomou as redes e as ruas nos últimos dias e semanas. Nele há um cachorro de rua torturado e morto, um grupo de adolescentes de famílias ricas e influentes, um porteiro que viu e filmou, uma juíza amiga da família, um delegado que seria ex-aluno do advogado de defesa, denúncias de coação de testemunhas por parte de pais e tio de um dos adolescentes, o porteiro que de repente não teria visto nem filmado nada, a polícia que diz não ter provas. Não precisa ser um gênio matemático para somar um mais um.
Dizem que a comoção e indignação que a violência contra o Orelha causou Brasil afora foi capaz de juntar esquerda e direita, o que seria uma boa notícia: significaria que ainda existem causas em comum, causas que são caras à sociedade brasileira, causas que vão além do político de estimação de um lado ou do outro. Causas como justiça e humanidade. Talvez fôssemos mais felizes como sociedade se focássemos mais nas causas e lutássemos juntos para alcançá-las em vez de apoiar tal coisa porque a proposta vem do Fulano ou desaprovar tal iniciativa porque é coisa do governo do Beltrano ou varrer para baixo do tapete o escândalo do Ciclano porque é do partido xis. Talvez, após publicar esta crônica, eu vá apanhar dos dois lados. Talvez eu seja simplesmente ingênua. Talvez nem houvesse de fato essa junção da sociedade pelo Orelha. Já vejo comentários nas redes querendo desarticular, desmerecendo as manifestações que exigem justiça. Talvez não exista causa comum, só um monte de lutas individuais e cada um acha que a sua luta merece estar na frente da luta dos outros. E enquanto brigamos entre nós sobre a ordem na fila das lutas, reina a impunidade.
Mas não é só sobre o Orelha. Não é só sobre o Orelha porque ele é apenas a famosa ponta do iceberg. A pequena ponta que ficou dolorosamente visível, como amostra do que tem escondido embaixo: uma banalização da violência entre jovens, violência pela violência, violência com o único fim de causar sofrimento, violência por diversão, violência compartilhada e incentivada nas redes sociais, violências pelas quais, na maioria dos casos, não há responsabilização. Não precisa ser filósofo, psicólogo ou especialista em lógica quântica para entender que a falta de uma resposta adequada dos pais, da sociedade ou do Estado é um convite para continuar.
E talvez a próxima violência não seja mais contra um animal. Talvez seja contra uma criança, um outro adolescente, uma pessoa com deficiência, uma pessoa idosa, uma pessoa de outra cor, de outro gênero, de outra etnia, de outra religião, de outro país, de outro grupo social, de outra orientação sexual ou política, de outra opinião, de outras formas de enxergar o mundo; contra um morador de rua, uma mulher voltando pra casa sozinha, um indígena dormindo num ponto de ônibus; contra qualquer pessoa considerada inferior. Nada que não tenha acontecido já.
Estudos mostram que existe um elo entre a violência contra animais e contra pessoas. Que quem foi cruel com animais na juventude tende a ser violento com pessoas na idade adulta. Que em casos de violência doméstica, sexual e contra crianças, uma grande parcela dos agressores tem histórico de violência contra animais.
É por isso que as lutas contra a violência estão interligadas. E é por isso que não é só sobre o Orelha. Mas se fosse, também já bastaria.
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| Yvonne Miller Foto: Thaís Vieira |


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