EU E O CARNAVAL: DOS BAMBAS DA ORGIA, PASSANDO PELO TUIUTI, ACADÊMICOS DE GRAVATAÍ, CHEGANDO A NITERÓI

Aos 13 anos de idade, após a
partida da minha avó, mudei da rua Cel. Bordini para a Rua Gal. Couto de
Magalhães, ambas em Porto Alegre. Era a primeira vez que morava em apartamento
e foi aí que me apaixonei por esse tipo de residência. Lá encontrei uma vizinha
que se tornou nossa amiga e me apresentou a alegria do carnaval.
A Iara, Alvorino e seus três
filhos lindíssimos, duas meninas e um menino, se tornaram uma extensão da minha
família. Eram apaixonados pela Escola de Samba Bambas da Orgia em Porto Alegre
e Portela no Rio de Janeiro. Em 1980, com o enredo “Magia e esplendor de quatro
décadas de glória: 40 anos de Bambas” eu já era apaixonada pelos Bambas e comemoramos
o primeiro lugar da escola. Em 1995 eu já morava em Gravataí, mas comemorei muito
quando soube que a azul e branco era vice-campeã do carnaval com o enredo
“Festa de Batuque”.
Moradora apaixonada por Gravataí eu não poderia deixar de sair na Acadêmicos de Gravataí e por três anos estive na avenida, uma pela extinta FUNDARC e duas com minha mãe, a última em 2015. A partir desta data voltei a acompanhar os desfiles apenas pela TV, tanto os do RJ como os de Porto Alegre. Os amores as vezes mudam de endereço e meu coração deixou de bater forte pela Portela e em 2018 os elementos políticos que a Paraíso do Tuiuti levaram para a avenida me tiraram o fôlego. Eu sempre disse que arte é para incomodar, para fazer pensar, para instigar... Falar de pônei cor-de-rosa não é arte e “batatinha quando nasce” já foi escrita há muito tempo. Arte que não “tira a casquinha da ferida”, não serve para nada e deixa de ser arte para ser um texto qualquer. Da mesma forma que falamos que muitas músicas são apenas “barulho”, sem letra, sem poesia, os sambas enredo também seguem esta linha. É função do samba enredo contar uma história e essa história pode ser instigante ou passar desapercebida pelo público. Jack Vasconcelos levou para a avenida um samba cheio de simbologia. No verso “meu Deus, Meu Deus/ se eu chorar não leve a mal/ pela luz do candeeiro/ liberte o cativeiro social” ele retratava a situação política que o Brasil atravessava e levou o Temer como um vampiro com a faixa presencial que atingiu seu objetivo, tanto que o próprio Temer impediu o uso da faixa no desfile das campeãs. A escola também criticou a reforma trabalhista, denunciou a escravidão mental, mostrou as mãos dos trabalhadores acorrentadas e enormes mãos segurando os fios de fantoches, sugerindo manipulação da população. No site Google “O desfile da Paraíso do Tuiuti em 2018, com o enredo “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão/”, desenvolvido pelo carnavalesco Jack Vasconcelos, é considerado um dos mais políticos da história recente do Carnaval carioca. A escola conquistou o vice-campeonato com uma crítica contundente às desigualdades sociais e trabalhistas do Brasil.”
Mas este ano eu me apaixonei.
Sim, confesso. Me apaixonei pela Acadêmicos de Niterói. Permanecendo nas cores
azul e branco, me rendi aos encantos desta escola e dos argumentos do
carnavalesco Martins que levou para a avenida um desfile muito mais ousado do
que o da Tuiuti de 2018. Martins foi escrachado, foi debochado, foi direto. A
Niterói foi ousada em demonstrar a realidade do Brasil dos últimos tempos. E a
Globo não mostrou a arquibancada cantando o samba, emocionada, vibrando ao som
da bateria que dava um show de apresentação. Aliás, a escola estava impecável.
Não havia uma fantasia, uma alegoria, um acorde fora do tom.
E não foi só a Globo. Desde
antes do desfile a escola já sabia que sofreria sanções. No dia seguinte ao
desfile a agremiação veio a público através das redes sociais. No perfil da
escola no Facebook podemos conferir uma nota oficial que denuncia que “Durante
todo o processo carnavalesco, a nossa agremiação foi perseguida. Sofremos
ataques políticos, enfrentamos setores conservadores e, de forma ainda mais
grave, lidamos com perseguições vindas de gestores do próprio Carnaval Carioca.
Houve tentativas de interferência direta na nossa autonomia artística, com
pedidos de mudança de enredo, questionamentos sobre a letra do samba e outras
ações que buscaram nos enquadrar e nos silenciar.” E o texto segue.
A escola esperava um
julgamento justo, transparente e técnico, que respeitassem o que foi
apresentado para o público, porém não foi o que aconteceu. Logo na primeira
nota, 9,8, já era visível o “pé na garganta” da escola, a censura em forma de
punição. O apelo do público nas redes sociais foi tão forte que a Liesa (Liga Independente
das Escolas de Samba do Rio de Janeiro) veio a público nesta quinta-feira
(19/02) para justificar as notas baixas. Com apenas duas notas 10, ambas no quesito
samba enredo, a Liesa alegou “falta de criatividade”. Oras, se naquele desfile faltou
criatividade, sobrou relevância histórica, coragem e arte. Sim, porque conforme
já escrevi acima, arte serve para denunciar. A maior prova do sucesso da
Niterói é justamente a ira invejosa e histérica do gado nas redes sociais. A
composição ensina muito, a letra conta a história do maior líder político que o
país já viu juntamente com fatos reais vividos pelos brasileiros e que a
extrema-direita tenta jogar para debaixo do tapete, menção aos retrocessos em
políticas públicas, a crise social agravada na pandemia, os brasileiros comendo
ossos, falta de vacinas contra a Covid-19.
Mas a Acadêmicos de Niterói
saiu vitoriosa. Ela não veio para a avenida para ganhar o primeiro lugar. Isso
não a tornaria inesquecível, afinal todo ano uma escola fica em primeiro lugar.
Isso não torna nenhuma escola única. Mas ter a coragem que a Niterói teve, não
é para qualquer grupo. Acadêmicos de Niterói, uma escola nova, criada em 2023,
disputando com nomes consagrados, referências no carnaval carioca, fadada ao
rebaixamento por ser um “bebê” entre dinossauros, ousou erguer a cabeça e
tatuou seu nome nos anais da história. Nunca se falou tanto em uma escola como
se falou nestes últimos dias. Mesmo quem está criticando a escola, está falando
nela. Nas redes sociais só existe um assunto. O samba “chiclete” grudou na
nossa mente e é impossível não cantarolar o dia inteiro.
Parabéns, Niterói. Vocês
vieram para fazer história. E fizeram. Não vieram pelo título, vieram para se
tornarem lenda igual ao homenageado. Vocês conquistaram o meu coração e da
mesma forma muitas outras pessoas já se declararam torcedores da Niterói a
partir deste ano. Continuarei torcendo pela azul e branco, mas não mais pela
águia, não por traição a águia, mas por falta de atitude da mesma que há muito apresenta
enredos mornos que não fazem meu coração vibrar.
Não quero depreciar a escola
campeã de 2026 no Rio de Janeiro, mas não lembro mais quem foi. Mas nunca
esquecerei a escola que foi corajosa o suficiente para ir contra o sistema, se
bancar diante de ameaças e ganhar o respeito do povo brasileiro.
Sou Acadêmicos de Niterói
desde pequenininha...
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| Isab-El Cristina |
EM SUA SOPA, EU SOU A MOSCA
NO SEU PRATO A
ZUMBIZAR!


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