NAVALHAS AO VENTO

 UM ADVOGADO SOB UMA 

ÁRVORE EM PINHAL/RS

Na última terça-feira estive visitando os amigos Patrícia Maciel e Jorginho em Capão da Canoa. Uma tarde maravilhosa. Sol, mar e amigos Ê tudo de bom. O papo fluiu e viajou por diversas searas.

Durante o cafĂŠ falamos sobre meu pai, que hoje, dia 12 (dia em que eu escrevi esta coluna), estaria de aniversĂĄrio, completaria 96 anos. O cĂŠu deve estar em festa, ele era muito reservado, muito tĂ­mido, mas gostava de uma festa. Contei ao Jorginho que gostaria muito de adquirir uma casa em BalneĂĄrio Pinhal, mas numa rua especĂ­fica. Em 2014 fui contatada pela prefeitura de Pinhal  com a notĂ­cia de que meu pai seria nome de rua desta cidade. Meu coração aqueceu, explodiu, se encheu de alegria e de orgulho. Meu pai foi lembrado pelo seu trabalho. Isso foi muito impactante. Eu chorei. Ser reconhecido ĂŠ tudo de bom, pena que geralmente ĂŠ depois que a pessoa parte e nĂŁo aproveita a alegria de ser amado.

O Dr. Quirino Ribeiro Soares completou seus estudos depois de velho. Aos 59 anos ele estava na PUC, recebendo o diploma de advogado, realizando seu sonho. Eu estava lĂĄ, orgulhosa do meu pai, com meus filhos ainda pequenos , vendo o avĂ´ brilhar.

Por pouco tempo meu pai trabalhou na profissĂŁo que tanto sonhou. Apenas vinte anos depois ele partia deste planeta, mas partia com um sorriso no rosto. Dentro das dependĂŞncias da Ordem dos Advogados do Brasil, durante as eleiçþes para presidente da OAB no ano de 2009, enquanto contava piada aos colegas, enfartou e partiu. Mas deixou um legado de humildade e muitos amigos. Tantos que nem mesmo eu sabia. Ele sempre dizia que partiria em casa e a OAB era sua casa.

Lembro que muito ele trabalhou sem cobrar. Quando a pessoa nĂŁo podia pagar ele abria mĂŁo dos seus honorĂĄrios, apenas pelo prazer de ajudar. Uma vez ele comentou que em um determinado bairro de Pinhal tinha muita gente que precisava legalizar suas casas, mas nĂŁo tinham quem os orientasse. E foi assim que ele começou a rotina de pegar o Ă´nibus e se dirigir atĂŠ Pinhal para ajudar as pessoas. Ficava sob uma ĂĄrvore numa determinada rua com um grande fluxo de transeuntes. Ali ele abordava as pessoas e se oferecia para ajudar. Lembro dele falando que muitas vezes passou o dia todo em pĂŠ, mas que um dia uma pessoa ofereceu uma cadeira, outra ofereceu uma pequena mesa, ele levava a pequena mĂĄquina de escrever verde e lĂĄ ele fez seu escritĂłrio: numa esquina de uma rua sem asfalto, na sombra de uma ĂĄrvore.

Cinco anos apĂłs a sua morte fui eu quem foi lĂĄ receber a homenagem. Sei que ele estava lĂĄ, sentado numa nuvem, feliz, apertando os lĂĄbios num sorriso discreto, esfregando as mĂŁozinhas.

Meu pai foi um grande homem. Um grande pai, Um grande advogado. Um grande amigo. Meu pai... quanta saudade...

Eu sĂł tenho a agradecer a todos os que indicaram e defenderam a homenagem.

Um advogado sob uma årvore. Um legado de dedicação e amor.



Isab-El Cristina

Isab-El Cristina Soares ĂŠ poeta, membro do Clube LiterĂĄrio de GravataĂ­, autora de 6 livros.  Graduada em Letras/ Literaturas, pĂłs-graduada em Libras, ĂŠ Diretora Cultural do ColetiveArts.

Escute o episĂłdio do podcast Coletive Som gravado com Isab-El , clicando Aqui.

"Quanto mais arte, menos violência. Quanto mais arte, mais consciência, menos ignorância."


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10 ComentĂĄrios

  1. Ele foi grande em tudo,e tem uma filha grandiosa.
    Chorei com texto,imaginando ele de baixo de uma ĂĄrvore com sua mĂĄquina de escrever. Partiu sorrindo,contando piadas. Uma partida feliz.

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  2. Cristina, quando conheci o teu pai lå no apartamento, se não me engano, na descida da Marques do Pombal comentei contigo que ele era a cara do Brizola e, ironicamente, ele detestava o ex-governador. Conversei pouco com ele, mas lembro de uma vez que ele me disse que o que uma mulher busca num homem Ê segurança. Estava me dando uma dica. Pena que não pude ter mais conversas com ele. Muito bonito o teu texto. ParabÊns.

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    1. Oi, Nestor. Sim, a cara do Brizola. Kkkk. Obrigada pelo retorno. Bju

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  3. Recordo-me dele atravessando a rua com sua pastinha em mĂŁos! Que histĂłria inspiradora, Tina!

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    1. Oi, Pri, sou a Tina. Ele ia todo domingo me ver, lembra? Sempre com a inseparĂĄvel pasta de trabalho. Obrigada pelo retorno, amiga.

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  4. Seu pai mostrou ao mundo q podemos mais,muito mais.A homenagem deveria ser sempre antes,concordo.

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