
A CULPA MATERNA
São duas horas da manhã, o sono não a vence, o quarto de hospital tem mais três camas, mas só aquela moça franzina permanece acordada. Ela teme morrer, a garota de cabelos loiros e magreza acentuada fez um aborto.
Carla tem três bocas para alimentar em casa, vive de programas do governo, os mesmos que não permitem que ela faça uma ligadura, pois segundo eles apenas o homem tem direito a vasectomia. Ela deve pedir que o seu marido o faça.
Mas a moça não tem marido, como em tantas outras famílias o pai abortou seus filhos primeiro e deu no pé, deixando as crianças que ela cria com afinco e dedicação, mesmo com a vida degradante que leva.
“Eu não sou um monstro” ela repete mentalmente para si mesma pela milésima vez, o pensamento não surte efeito algum já que todos dizem o contrário, ou a olham com a superioridade de quem fez escolhas melhores na vida.
Na noite passada, ela fora internada, enfiara uma agulha de tricô em seu útero. Tentara os chás, socara sua própria barriga, até mesmo tentara colocar cloro no útero, pois disseram que a amiga de uma vizinha tinha conseguido se livrar da gravidez assim. Carla não tinha dinheiro para os remédios que ouvira falar, então com um grito de desespero mutilou seu próprio útero, a dor lancinante em seu corpo não era nada comparada a dor de sua alma, e o alívio por finalmente ter conseguido, logo foi substituído por medo.
O sangue empapava os lençóis e toalhas que ela preparara, apenas teve tempo de ligar para a emergência antes de perder a consciência. Acordou horas depois já medicada, a enfermeira que a examinava lhe dirigia um olhar de escárnio, o julgamento era evidente sem nenhuma palavra.
Os modos bruscos com que era tratada também não deixavam dúvidas do que os profissionais de saúde pensavam do que ela havia feito.
Quando o médico finalmente veio a atender, disse de forma brusca que ela conseguiu o que queria o bebê estava morto, e ela perfurada, não voltaria a engravidar. A garota suspirou fechando os olhos.
Ninguém realmente sabia o que ela queria, e nem se importavam em entender. O aborto era proibido por lei no Brasil, liberado apenas em casos especiais, pessoas argumentavam que se esse crime fosse legalizado as mulheres abortariam o tempo todo, apenas como uma banalidade, ninguém pensava nas pessoas como Carla.
Quando contara a sua mãe que estava grávida novamente, a mulher fora categórica :
— Abriu as pernas agora cria.
Ninguém entende que ela não dorme direito há mais de dez anos, ninguém percebe que ela se tornou um farrapo humano que trabalha e sobrevive apenas, como um zumbi que infelizmente ainda vive. Ninguém a vê quando ela chora escondida na casa de dois cômodos e um banheiro, por mal ter o que dar para os garotos comerem.
Paulo queria ser jogador de Futebol, queria ter dinheiro para ajudar a mãe, é o que ele diz quando a abraça e a conforta.
Carla pensa que terá sorte se ele for um homem bom não se envolvendo com drogas. João e Pedro são pequenos demais para perceber o que se passa na realidade, mas ela sofre pelos dois que também terão perspectivas duras de vida.
A paciente foi liberada quatro dias depois, com uma receita enorme de remédios que ela não comprará. Se comprar faltará dinheiro para alimentar os meninos, também não poderá fazer o repouso que foi pedido pelo médico, ela precisa fazer suas faxinas.
Seu pai e sua mãe vem buscá-la de carro, mal conversam com ela, não há o que ser dito, os dois são evangélicos e acham que ela irá para o inferno por isso. Ela também acha, mas não quer pensar nisso agora, tudo que ela quer é chegar em casa e tentar esquecer os olhares de decepção nos olhos de seus progenitores.
Quando o carro estaciona na frente de sua casa, seus pais vão embora, sem ao menos perguntar se precisa de algo. Assim são os cristãos de hoje em dia, preocupados em ajudar o próximo, mas não os tão próximos como seus filhos que não seguiram o caminho de Deus.
Carla entra em casa e recebe um abraço apertado dos seus três moleques. A única coisa que realmente importa para ela. Uma mãe que ama seus três filhos, mas sente como se fosse uma assassina do quarto.
Os dias passam e ela volta para sua rotina incansável, quando deita em seu quarto ela chora, ás vezes de dor no corpo, as vezes de dor no coração, mas nunca chora alto, porque não quer preocupar os meninos.
As faxinas ficaram cada vez mais escassas, todos no bairro sabiam o que ela fez, olhares de desprezo faziam parte de sua rotina agora, em cidades pequenas isso era comum, infelizmente.
Restava apenas a garota que sobrevivera a um aborto não tão clandestino, erguer a cabeça e tentar.
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Texto: Tathiane Rodrigues de Souza
"Quanto mais arte, menos violência. Quanto mais arte, mais consciência, menos ignorância." |



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