Reflexões de um Inconformado - Pensamentos Incendiários

 Enquanto isso, no país onde todos dizem que não existe racismo...

Dois jovens entram no mercado para fazer compras, como todos que estavam transitando por ali. Ao entrarem, o segurança avisa no radinho que dois suspeitos estavam caminhando para um determinado setor. Códigos foram passados e os dois começaram a ser perseguidos pelos seguranças que se revesavam. Como haviam escutado a informação passada pelo primeiro que os viu acessar o espaço e perceberam que estavam a todo momento sendo observados, questionaram para o segurança que estava próximo no momento se estava acontecendo alguma coisa. Este respondeu que estava apenas fazendo seu trabalho. 

Enquanto circulava entre as prateleiras procurando promoções, percebi a situação.  Eram dois jovens como todos os outros, sem nenhuma atitude que pudesse levantar qualquer tipo de suspeita. Não podia ser outro ponto, a não ser que os dois eram negros e os seguranças um bando de racistas.

Eles não quiseram criar caso e continuaram a fazer suas compras.  Distraído com a pesquisa de preços, tentando fazer o pouco dinheiro que tinha render ao máximo, os perdi de vista.

Quase chegando minha vez no caixa, pude avista-los na fila ao lado. Um tentava acalmar o outro, dizendo que não devia se aborrecer por isso, que não valia a pena. Ao passarem com suas compras, pagar e se encaminharem para a saída, foram abordados por três seguranças que anunciaram a necessidade de irem com eles para serem revistados.  Os rapazes se indignaram e protestaram, dizendo que, se quizessem revista-los, teriam de fazer isso ali mesmo, na frente de todo mundo e que não iriam com eles para lugares onde não teriam testemunhas de qualquer coisa que fizessem. 

Os seguranças quizeram engrossar e os dois afirmaram que aquilo não podia ser outra coisa, se não um caso de racismo. Vieram outros seguranças. Um dos rapazes pegou o telefone e disse que ia ligar para a polícia. Alguns clientes que acompanhavam a situação se aproximaram. O falatório tomou conta do lugar.

Como era um mercado grande, que faz parte de uma rede enorme, a polícia não tardou a chegar. Ao descerem do carro, os policias militares olharam os dois rapazes de cima a baixo. Eles tentaram falar, mas os policiais determinaram, da forma mais truculenta do mundo, que seria melhor ficarem quietos. "Vamos ouvir os seguranças e já voltamos para falar com vocês".  Um dos policiais ficou vigiando os dois, enquanto os outros três se aproximaram dos seguranças, cumprimentando de forma amistosa. Os dois rapazes tentaram falar com o policial que ficou tonando conta deles, mas este perguntou se não tinham ouvido a orientação de permanecerem quietos até que os seguranças terminassem de contar a versão deles do que aconteceu.

Após terminarem de ouvir os seguranças com toda a atenção e de forma amistosa, voltaram com ar carrancudo para os dois que haviam os chamado. Ouviram a versão dos fatos deles sem demonstrar muito interesse. Fizeram a revista deles ali mesmo e nada encontraram, além do que tinham pago e constava na nota fiscal.

O resumo da história foi que os policiaisfizeram o registro da queixa dos rapazes que denunciavam o racismo sofrido, mas também registraram a denúncia dos seguranças que alegaram se setirem coagidos pela reação dos jovens. Ou seja, segundo eles, o correto seria terem passado por tal situação sem reagir. Ambos tentaram questionar, assim como alguns dos presentes, mas não tiveram a menor aberrura para tanto. Me ofereci como testemunha, mas até hoje a coisa não andou. 

No dia vinte de novenbro do ano passado, uma matéria  do site do Centro Brasileiro de Estudos da Saúde trás as seguinteas questões:

"Os dados mais recentes revelam o que o cotidiano já denuncia. A Síntese de Indicadores Sociais do IBGE (2024) mostra que pessoas pretas e pardas seguem entre as mais afetadas pela insegurança alimentar, pela falta de moradia adequada, pela 

precarização do trabalho e pela baixa renda.  Portanto, condições que moldam, de forma decisiva, o processo saúde-doença."

"A Fiocruz (2024) aponta que eliminar as desigualdades raciais poderia reduzir em mais de 60% as mortes neonatais entre crianças negras."

Na matéria da Nexo, com data de dezenove de novembro de dois mil e vinte e cinco, assinada por Mariana Souza, os seguintes dados são levantados:

"Mesmo sendo mais numerosos, pretos e pardos ainda acessam menos os serviços públicos essenciais e são mais afetados por desigualdades raciais e sociais. Em comparação à população branca (43,5%), negros são os que morrem mais cedo, ficam mais expostos aos efeitos das mudanças do clima, passam menos tempo no ensino superior e possuem menor renda.

No dia dezoito de agosto de dois mil e vinte e cinco, o veículo de comunicação da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro da CUT (Contraf-CUT), estampava a seguinte manchete:

"Negros seguem como principais vítimas da violência no Brasil, mostra Anuário de Segurança 2025".

No site da Fundação Carlos Chagas, dia dez de julho de dois mil e vinte e cinco, a manchete estampada era "Raça e gênero na educação: somente 50% das pessoas pretas concluíram o ensino básico no Brasil, segundo IBGE"

No dia vinte e seis de agosto, também do ano passado, Erick Andriolo divulgava o resultado de uma pesquisa no site da Fiocruz, cujo o destaque era para o fato de que "jovens negros são as principais vítimas de morte por violência".

Os dados estão por toda a parte. Se as pessoas usassem a internet para se informar, ao invés de gastar tanto tempo com banalidades, nada disso  seria surpresa. A menis que tenhamos consciência dos problenas que nos afetam, não conseguiremos transformar essa realidade terrível. Mas cuidado com as fontes.  Procurem sempre locais de pesquisas confiáveis, que se baseiam em estudos e dados concretos. Evitem locais que se guiam por achismos, mera opinião ou conservadorismos que impedem de ver a realidade.

Para saber mais:








O escritor Fabio da Silva Barbosa, um dos membros mais antigos e ativos do ColetiveArts  (foi dele a coluna Malditos Teclados Bailarinos).Dono de um olhar cirúrgico, Fabio é um verdadeiro cronista do underground, caminha pelos becos e bares da vida, que depois transforma em textos que são verdadeiras pedradas nas janelas dos "donos da moral e dos bons costumes". Também é dele um dos maiores fanzines do Brasil, o seminal Reboco Caído.



"Quanto mais arte, menos violência. Quanto mais arte, mais consciência, menos ignorância."

COLETIVEARTS, DIA 21/05, O COLETIVE
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