
Diego, o deus
Para os cristãos, Deus é algo inatingível e inviolável. A grande maioria da população professa a sua fé e tem sua religião, enquanto uma pequena parcela não tem crença alguma e não acredita em nenhuma santidade ou no divino.
Em Edson Passos, bairro da Baixada Fluminense do Rio de Janeiro, há anos fica localizado o estádio Giulite Coutinho, de propriedade do America Football Club, popular e tradicional time do Rio. Sua antiga sede ficava na rua Campos Sales, na Tijuca, e o time jogava no Andaraí. Batia de frente com os quatro grandes do Rio e tinha uma torcida atuante, que enchia o estádio. Mas, infelizmente, devido às más administrações e infortúnios da vida, o clube decaiu e os tempos de outrora já não eram mais os mesmos. A sede na Tijuca ficou largada e o estádio no Andaraí virou shopping. Ao menos, construíram um estádio modesto no também modesto bairro de Edson Passos.
O fundo do poço nunca foi tão real. O clube, sem perspectiva de crescimento e sem ver a luz no fim do túnel, vivia em dificuldades. A torcida envelhecida agora era pequena, com apenas algum frescor da juventude. Alguns torcedores famosos tentavam ajudar o clube de alguma forma, mas a dificuldade de reerguer o time era imensa.
Um grande figurão, abastado de grana e apaixonado por futebol — principalmente o antigo —, resolveu tirar o clube da lama e levantar o tradicional America. Reorganizou as contas, pagou as dívidas, arranjou patrocinadores, a antiga sede ficou revitalizada e, enfim, o clube estava nos trilhos. Essa atitude levou alguns anos para colher frutos, não foi de imediato, pois era preciso tempo. Com bons olheiros espalhados por aí, bons garotos foram para o time juvenil e poderiam render esportivamente e financeiramente. Numa dessas observações por aí, conseguiram descobrir uma joia a ser lapidada: Diego, um garoto esguio, sadio, um verdadeiro moleque. O olheiro que o descobriu num dos últimos campos de várzea da cidade viu que o garoto tinha futuro e tratou de levar o menino para fazer teste no America. Ao chegar, Diego impressionou a todos, e trataram logo de assinar o contrato com o futuro craque, que há anos não surgia no clube.
O menino foi bem lapidado, cuidado como merece, e o clube o projetava para o futuro como a grande estrela do renascimento do America.
Passados os anos na base, era hora e momento de estrear no time profissional. O clube já estava estruturado e foi montado um time que nutria esperança na briosa torcida, que carregava a equipe nas costas e jogava junto. O time surpreendeu no campeonato estadual e incomodou os grandes clubes. Causou surpresa, foi elogiado pela imprensa e pelos fãs de futebol. Ficou em quinto no Campeonato Carioca depois de muitos anos penando na segunda divisão do estadual. O primeiro objetivo foi alcançado, que foi mostrar que o time ressurgiu das cinzas. Agora era hora de continuar o vigoroso trabalho.
No ano seguinte, com a mesma base do ano anterior, time entrosado e reforços pontuais, o America estava pronto para brilhar. E o grande nome da companhia era o jovem Diego. Com fome de bola e louco para mostrar que tinha jeito para ser um grande jogador, o garoto comandou com maestria o time no Campeonato Carioca. Se no ano anterior o time era surpresa, nesse ano era realidade e os bons tempos voltaram. Com um futebol envolvente, o America estava com o diabo no corpo e foi rumo à grande final do estadual no mítico Maracanã. Jogando contra o Flamengo e sua gigante torcida, o time foi aguerrido e talentoso. A torcida brotou do chão, os mortos saíram de suas tumbas e todos estavam jogando junto com o time em uma final em que o clube não chegava há anos. Eis que no fim do jogo, num lance de craque, Diego marca o gol do título, é carregado pela torcida e coroado o craque do campeonato.
| Daniel Filósofo |
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| Arte:Waldemar Max |
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