NAVALHAS AO VENTO

 JOGADORES E TORCEDORES DE SALTO ALTO

Há muito eu não via um jogo tão gostoso como os que aconteceram no dia 25 de junho durante a Copa do Mundo.

Não é segredo para ninguém que amo futebol e acompanho todos os jogos das copas, não apenas os jogos do Brasil, como também sou colorada e, desde os tempos do Falcão (1973, eu tinha 11 anos) que roo as unhas em dia de jogo.

Minha paixão por Copas do Mundo começou lá atrás, lembro muito vagamente, apenas alguns flashs, mas em 1966 (eu com apenas 4 anos), via meu avô Gama sofrendo em frente a tv, torcendo pela seleção, enrolado na bandeira do Brasil. Em 1970 (eu já com 8 anos), meu avô não estava mais entre nós para, em 21 de junho, ver o Brasil conquistar seu tricampeonato mundial de futebol ao vencer a Itália por 4x1, no México, trazendo definitivamente a taça Jules Rimet para casa. Lembro da vó Conceição triste porque o vô não estava conosco para ver Pelé, Jairzinho, Gérson, Rivelino e Tostão brilhando com passes perfeitos e muita garra, agora com tv em cores. O capitão Carlos Alberto Torres fechou, com chave de ouro, num dos gols mais bonitos da história, o quarto gol da partida e nem era necessário lutar tanto após a certeza da vitória.

Ultimamente vejo jogos mornos. Depois de um gol a equipe se fecha e não existe mais a emoção de uma partida bem disputada, apenas um lado fechado e o outro tentando furar a bolha. Além de “jogadores estrelas” que só o que sabem fazer de bom é brilhar “com a bunda”, pois já não são mais o que eram antes da fama.

No dia 25 de junho tivemos 2 jogos fantásticos, Equador x Alemanha e Turquia X EUA. No primeiro, a Alemanha abriu o placar fazendo 1x0, mas o Equador não baixou a cabeça, meteu pressão e minutos depois já empatava o jogo. Mesmo sabendo que a Alemanha era a favorita, o Equador não reduziu a carga, foi para cima e venceu.

Já no jogo Turquia e EUA foi ainda mais bonito por se tratar dos donos da casa. Mesmo já fora da copa a Turquia entregou um espetáculo para o público. Jogaram com raça e muito amor pela pátria deles. Logo nos primeiros minutos os EUA abriam o placar, prometendo uma “lavada” de gols, um verdadeiro “olé”, como diriam os mexicanos. Mas a Turquia não baixaria a cabeça e poucos minutos depois empatava o jogo. Na sequência, com um gol muito bonito (só não coloco o nome dos jogadores porque não saberia nem como falar, muito menos como escrever), vira o jogo e lacra 2x1. Mas os donos da casa, claro, correram atrás do prejuízo e empataram novamente. E foi aí que vimos dois times lutar com todas as armas que tinham. Visivelmente cansados, lógico, mesmo o mais preparado fisicamente também se cansa, eles não diminuíram, pelo contrário, aumentaram a expectativa da vitória. E olha que a Turquia poderia ganhar ou perder que o resultado seria o mesmo: estava se despedindo da copa. Não precisavam se desgastar, bastava aceitar algo do tipo 7x1, lembram? Mas, não. Isso se chama dignidade e nos últimos segundos dos sete minutos de acréscimo, a Turquia foi lá e lacrou. Saíram da disputa, mas com o orgulho de ter vencido os Yankees por 3x2. Nenhum jogador turco fez cena, nenhum ficou de mimimi porque é a estrela do time... simplesmente jogaram, mesmo que o jogo não valesse classificação.

Daí fiquei lembrando os jogos do Brasil. Brasil 1x1 Marrocos foi um jogo sofrível. Brasil 3x0 Haiti foi bem melhor, mas ainda sem emoção. Brasil 3x0 Escócia estava muito melhor tecnicamente. O time mais entrosado. Em todas as partidas o Vini Jr deu show de bola. Ao final do jogo o treinador Carlo Ancelotti, possivelmente para agradar os patrocinadores, coloca o “Neycai” em campo. O risco era alguém pegar o controle remoto para ajustar o volume da televisão e isso causasse a queda do jogador. A instrução é ninguém se mexer, pois se esbarrar na tv ele cai em campo. Na entrada de “Neycai” também entraram Endrick e Alex Sandro.  Neymar só serviu para cobrar escanteio, a estrela do jogo foi Vini Jr do início ao final. Então porque todo essa idolatria a um jogador que precisa entrar em campo embalado em plástico bolha? O cara já não joga faz tempo. Um dia ele foi ótimo jogador, mas o tempo dele já passou e o povo ainda o vê como o “salvador da pátria”, pelamor.Vini Jr não perdeu nenhuma chance, marcou em todos os jogos que disputou na fase

de grupos da Copa 2026. No Google se lê: “O atacante se tornou um dos poucos jogadores brasileiros a balançar as redes em todas as partidas iniciais de um mundial, feito que iguala estatísticas de campeões como Ronaldo e Rivaldo em 2002”. No site (leia AQUI)  encontramos: Em Copas do Mundo, o aproveitamento de Vini Jr. é de 5 gols em 7 jogos disputados . “Somando suas passagens pelo Mundial do Catar (2022) e a edição de 2026, ele possui uma média de 0,71 gol por partida, um índice superior aos seus melhores números pelo Real Madrid... Tem sido peça central do ataque brasileiro, sendo diretamente envolvido em grande parte dos gols da Seleção nas edições recentes.”

Com 9 anos a menos, Vini Jr está se destacando sem o protagonismo exagerado que envolve Neymar que foi convocado apenas como peça decorativa, ou, no máximo, para agradar patrocinadores e fãs desatualizados. Tanto que só deu as caras em campo no final do último jogo. Lula até brincou citando uma postagem que viu nas redes sociais de que Neymar seria o único jogador de futebol que jogava em home-office, o que causou muitas discussões até agora, mas isso é para outro texto. Aliás, Neymar passou a ser uma figura mais política do que jogador de futebol.

Espero, de coração, que os brasileiros consigam tirar as vendas fanáticas dos olhos e olhem os demais jogadores em campo. Temos um brilhante goleiro, Alisson, que fez defesas maravilhosas. Atacantes como Vini Jr, Endrick, Gabriel Martinelli, Matheus Cunha, Rayan... , mas toda glória recai a um jogador ultrapassado que, a única coisa que sabe fazer é cair em campo.

Mas, confesso que ver a camiseta amarela ainda me causa náuseas. Prefiro a camiseta azul ou qualquer outra cor. Vai demorar muito até que eu desvincule a camiseta da seleção com o gado que se apossou dela.



Isab-El Cristina

Isab-El Cristina Soares é poeta, membro do Clube Literário de Gravataí, autora de 6 livros.  Graduada em Letras/ Literaturas, pós-graduada em Libras, é Diretora Cultural do ColetiveArts.

Escute o episódio do podcast Coletive Som gravado com Isab-El , clicando Aqui.

"Quanto mais arte, menos violência. Quanto mais arte, mais consciência, menos ignorância."


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