
Falando de sax
Tudo era apenas uma brincadeira, que foi crescendo, crescendo. E de repente eu me vi totalmente seu, como na canção do Peninha. Isso causado por um cupido aprendiz de sax, brandindo a clave de sol em exercício de escalas e de pequenos trechos de músicas brasileiras, tocando em algum lugar da vizinhança. De seu posto desconhecido atirava lirismo na realidade cotidiana; às vezes sumia em intervalos de pausa, como tática de guerrilha para se manter longe de ouvidos perscutadores. Quando depois pensava que havia partido, não: retomava a respiração de metal, a vizinhança era de novo comunhão de fé na beleza, me sentia participando de uma conspiração feita de arte.
Esses pedaços quebrados de música foram invadindo espaços e se tornando íntimos. Entravam pela sala, espalhavam-se pelos vãos da casa, misturavam-se à agua do chuveiro durante o banho, ao tempero da comida, extinguindo constrangimentos. Um dia, sem considerar a plateia, o som parou, e continuou parado, em intervalo que durou semanas. Foi aí que notei o quanto estávamos acostumados com aquela companhia, amizade à distância, sem necessidade de palavras, feita de pura aceitação. Foram dias à deriva, sem notícia de colchetes nem semi-breves, consolados apenas pelo canto dos pássaros, ofertando som a capela na escala dos fios de postes.
O que fazer? Como acudir aquela fonte, apurar o que poderia estar errado, dar ânimo à/ao executante? O vácuo da ignorância acerca de qualquer mínima informação tornava o silêncio ainda mais desconcertante: não havia meios para dizer que éramos seus fãs e fazíamos questão de voltar ouvir as lições, que acreditávamos em seu potencial, não desanime! A vida sem música seria uma loucura mais que nietzscheana, éramos loucos e agora sabíamos o quanto éramos, bendito o vosso ócio criativo! Por favor, precisamos de mais notas! A resposta veio em estrondos de escapamento de motos aceleradas passando na rua, à moda de Mad Max e o império da grosseria.
Não sei se partira daqui contente, se houve alguém lhe florindo o caminho, por que razão quis voltar. Talvez a ausência se devesse apenas a uma crise de garganta, sem viés de crítica. Então ele voltou. Recomeçou timidamente a soprar, sons inseguros e interrompidos, recordando os tempos das primeiras lições. Seria um recuo cauteloso para ganhar forças, como é típico dos convalescentes? Não importa, tudo estava em seu lugar, graças a Deus (e a Benito de Paula).
Enfim as notas voltaram a preencher os nossos dias. Quem sabe a falta tenha servido para ressaltar a importância coadjuvante do silêncio, essa atuação leve mas decisiva do ar que tudo carrega, misturando histórias de vidas passadas, sopros extintos que tornaram possível o som. Ou seja motivo para escutar os aplausos silenciados ao saxofonista, ecoando dentro de nós. Precisamos falar do que nos toca. Falemos de sax.
| Paulo Malburk |
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| Arte:Waldemar Max |
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