PARA ONDE FOI A EMPATIA DO SER HUMANO?
Ainda estou muito chocada com o que me aconteceu há algumas tardes atrás. Agora sei como se sente um animal no zoológico.
Fui a uma clínica de fisioterapia na cidade de Gravataí para marcar uma sessão. Havia uma longa e íngreme escada, então perguntei à recepcionista se tinha elevador. A menina, muito simpática, apontou para a rua dizendo:
— A senhora sai pela porta e, à sua direita, tem um elevador.
Entrei e apertei o botão do segundo andar. O elevador não se moveu. Eu não sabia que tinha que ficar segurando o botão “travar” para que ele funcionasse. Tenho plena consciência de que eu deveria ter lido tudo, mas confesso que só li a palavra APERTE. A porta travou. Tentei abrir para sair e não abriu. Entrei em pânico. Sou claustrofóbica e estou no espectro autista. A frente do elevador era de vidro e, vendo as pessoas do lado de fora, comecei a gritar pedindo para que alguém abrisse a porta ou chamasse alguém para abrir. Ninguém fazia nada. Ficavam sentados, apáticos, rindo...
O ar começou a faltar (sei que é psicológico, pois eu estava gritando). Eu gritava, dava socos e chutes no vidro enquanto olhava para as pessoas me olhando e... pasmem... filmando o meu desespero... Acredito que hoje eu seja meme em alguma rede social...
A recepcionista do segundo andar desceu as escadas correndo e abriu a porta ao mesmo tempo em que a recepcionista do térreo chegou. A moça do térreo disse que ouviu os gritos e perguntava para as pessoas que estavam sentadas na sala anexa, mas ninguém falava nada. De onde estava, ela não tinha como me ver. A moça do segundo andar pediu desculpas por ter demorado, pois, pela altura dos gritos, ela achou que fosse no andar de cima e correu para lá antes de descer as escadas. Se ela ouviu do segundo andar, não tem como as pessoas do térreo dizerem que não sabiam o que estava acontecendo.
Várias pessoas rindo, filmando e fotografando todo o meu desespero, meu choro, minha tremedeira... Custei a me regular novamente. As mãos machucadas de tanto bater no vidro... a falta de ar... o desespero no olhar, e aquele bando de imbecis me olhando como se eu fosse uma atração de circo... Fui desrespeitada, violada na minha dor, exposta ao ridículo. Estavam assistindo a um show gratuito...
Levei muito tempo apoiada na moça do segundo andar, abraçada a ela, chorando e tremendo, tentando não cair, pois as pernas estavam bambas. Confesso que fiquei com muito ódio de ver que eu era o motivo das risadas daquelas pessoas, mas hoje eu consigo pensar: que pobres pessoas são elas que, não tendo nada melhor para sorrir, acham o sofrimento de alguém engraçado! Que vidas vazias para não serem capazes de ajudar uma pessoa em pânico!
Não é porque sou adulta que não possa sentir medo ou ter crises de pânico. Ser claustrofóbica não foi escolha de vida, nem estar no TEA foi minha opção. Apenas sou quem eu sou. Mas eu sou aquela que ajuda um idoso, um cego, um cadeirante ou uma criança a atravessar a rua. Tento ser útil a quem quer que esteja precisando de apoio. Acompanho surdos em consultas médicas sem receber nenhum centavo pelo trabalho; faço pela felicidade de poder ser útil a alguém. Eu tenho motivos de sobra para sorrir, sou uma pessoa feliz e jamais ficaria olhando alguém em sofrimento sem fazer nada. Eu sou humana.
Aquela gente foi omissa. Não precisavam nem levantar as bundas do lugar; bastava dizer para uma das recepcionistas o que estava acontecendo, mas escolheram me expor ao ridículo, escolheram rir...
Quero agradecer às duas recepcionistas que se solidarizaram com a minha dor. Não vou citar o nome da clínica, embora só tenha elogios às funcionárias. A moça do segundo andar se ofereceu, inclusive, para me acompanhar até minha casa para que eu chegasse em segurança, o que recusei. Chamei um Uber e fui para casa, para minha cama. Eu precisava me regular em silêncio.
Em casa, eu chorei muito. Não só pelo que passei. Não apenas pelo susto. Não só por estar desregulada, precisando ficar quieta dentro da segurança do meu apartamento até a dor passar, mas por ver que o ser humano deixou de “ser humano” para se tornar um bando de zumbis sem alma, sem empatia, sem respeito, capazes de ignorar um pedido de socorro.
Se fossem crianças ou adolescentes, eu poderia dizer que falta educação, que nos dias de hoje não existe mais respeito, que “na minha época” era diferente, como muito se ouve por aí. Mas era um bando de idosos, de adultos, de gente que critica os jovens, mas não é capaz de dar exemplo de nada. Cobram o que não têm para oferecer.
Quando foi, meu Deus, que perdemos a capacidade de amar o próximo?
Está doendo, mas ainda bem que as funcionárias da clínica eram humanas. Pena que aqueles pacientes não mereçam o atendimento que o SUS oferece...
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| Isab-El Cristina |
Isab-El Cristina Soares é poeta, membro do Clube Literário de Gravataí, autora de 6 livros. Graduada em Letras/ Literaturas, pós-graduada em Libras, é Diretora Cultural do ColetiveArts.
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Facebook: Isab-El Cristina Soares
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"Quanto mais arte, menos violência. Quanto mais arte, mais consciência, menos ignorância."
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| Arte:Waldemar Max |
08 ANOS DE VIDA,
SENDO A MAÇÃ DE ALGUNS,
EU SOU A MOSCA QUE POUSOU
EM SUA SOPA, EU SOU A MOSCA
NO SEU PRATO A
ZUMBIZAR!
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2 Comentários
Que situação difícil, mas o pior é a atitude das pessoas. Um abraço e um beijo. - Nestor
ResponderExcluirSim, Nestor. Me senti um animal no zoológico. Triste ver as pessoas agindo assim. Obrigada. Bju
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