
Eu era uma garota qualquer. Cabelos curtos ondulados, de uma cor meio rosa que deveria ser roxa, mas que ainda não acertei o tonalizante. Pesava mais do que a sociedade acharia "padrão de saúde", leia esse padrão como gordofobia mascarada de saúde. Com os meus vinte e poucos anos, 25 para ser mais exata, solteira, estudante de jornalismo, estagiária. Morava com o meu avô materno, seu Carlo, meu maior tesouro. E nada podia tirar do mesmo rosto um sorriso de gratidão pela vida.
Isso era o que eu pensava até que a máfia entrou na minha vida.
Região Metropolitana, dezembro de 2023.
-- Eu sou o quê, vô?
Pergunto enquanto paraliso ao entrar na sala de casa, encontrando Frederico conversando com o meu Avô Carlo, de uma forma preocupada e urgente, maneira que não tinha visto Fred falar.
Bem que nos conhecemos há pouco mais de uns 4 anos, mas Fred desde então está sempre ao meu lado, é o meu melhor amigo da faculdade, do trabalho, da vida. Como eu poderia ter me enganado tanto assim?
-- Eu sou o quê, vô? - repito a pergunta agora me dirigindo para mais perto deles, que estavam sentados e muito sérios.
-- Lyz, minha querida. Você não deveria estar de plantão hoje no jornal? - Meu avô realmente não sabia desconversar.
-- Vô, não mude de assunto. - falo me sentando junto a eles, mas na poltrona do lado contrário deles. - Repeti o que você afirmou para o Fred. Eu sou o quê?
-- Lyz, precisamos conversar. - começa Fred tentando me acalmar.
-- Conversar? - falo incrédula - E o que fizemos esse tempo todo, Fred? Por quê me mentiu todos esses anos? Achei que fôssemos amigos, mais do amigos na verdade. - eu o observo sem realmente o reconhecer. Quem era aquele homem, afinal?
-- Lyz, eu vou te contar tudo, desde o começo, só não me condena - pede, procurando minhas mãos que estão fechadas em meu colo, em sinal de alerta total. - Ainda sou eu, o seu Fred.
-- Meu Fred. - Puxo minhas mãos e fico em pé, as lágrimas começam a querer descer, enquanto me lembro dos últimos anos ao lado de Fred. - Tudo passou de uma invenção, então? - o olho fixamente. - Nada do que vivemos foi real? Era tudo parte do plano?
-- Eu precisava proteger você, tenta entender, Lyz. - ele vem ao meu encontro, ficando de pé também, coloca as mãos em meus braços, sinto aquele mesmo arrepio de sempre, mas as mentiras estão muito recentes.
-- Me proteger. Ah tá. - Nem tento sair do lugar, porque no fundo é ali que sempre quero estar. - Virei agora personagem de comédia romântica. A mocinha que ganha um guarda costa e ele mente para ficar perto dela. - não sei se estou rindo ou chorando, mas sei que estou com muita raiva. - vai me dizer agora que se apaixonou por mim, e veio aqui contar tudo para o meu avô e pedir minha mão em casamento?!
-- Lyz - ele me olha tão sério que consigo sentir que nem tudo foi mentira, aquele frio na barriga, aquela energia entre nós, não era fingimento. - Você sabe que te amo, e não teria feito tudo isso se não fosse realmente necessário. Você me conhece...
-- Conheço? - Agora consigo sair das suas mãos, e saio andando pela sala. - Eu conhecia um rapaz chamado Fred, que caiu na vida como anjo do céu, se tornou o meu melhor amigo e meu… agora estou descobrindo que é um policial disfarçado.
-- Ainda sou eu, Lyz. - ele parece cansado.
-- Como pôde mentir pra mim? Para minha família? - aponto e olho para o meu Avô.
-- Eu já sabia, Lyz.
-- Mentiu para todo... - paro ao ouvir a voz fraca do meu vô. - você sabia? - não estava conseguindo segurar as lágrimas. - Vô! Você sabia de tudo? Sempre soube dessa história?
-- Ia levar essa história para o meu túmulo se fosse preciso para te proteger. - ele escora os braços em seus joelhos, projetando a cabeça para baixo, envergonhado talvez. - Mas o seu pai não cumpriu a promessa. - Agora ele parecia muito bravo. - Você nunca deveria ter sido envolvida nesses rolos do seu pai. Ele deveria estar morto.
-- E minha mãe? - pergunto chorando.
-- Sua mãe, minha querida. Morreu quando você estava prestes a completar um ano.
-- Até a morte dela tem mentiras no meio. - essa história tá ficando bizarra - Como uma jornalista consegue ser enganada assim? - começo a caminhar rumo a janela da sala, preciso de ar. - Que bela jornalista, eu sou.
-- Lyz, não era seguro saber toda a verdade... - começa o meu avô.
-- Pois bem, vô. Parece que agora não há o que fazer, não é mesmo policial, Frederico? - o fixo de forma sarcástica - Ou tem outro nome?
Fred nem me responde, só sinaliza que não com a cabeça.
-- Quero saber tudo. Toda verdade. - Viro para a janela novamente. - Quero saber como sou a Filha da Máfia.
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| Lisi Olsen Lisi Olsen é uma pedagoga, profissional de letras, contadora de histórias, escritora, pesquisadora, ilustradora, bailarina, nerd e apaixonada por leituras, que usa da palavra e do desenho para expressar os seus devaneios. |



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