
Não é porque aboliram o tronco e o chicote que a escravidão acabou

Estive revendo o filme A Escravidão Moderna e comecei a lembrar de livros como O Direito a Preguiça e A Desobediência Civil. A história de vida de cada autor e de cada livro começou a girar na minha mente. Lembrei também de filmes como Quanto Vale ou é por Quilo?... E por aí fui com minha mania de um pensamento puxar outro, de uma ideia levar a outra... até que comecei a escrever e foi nascendo mais esta.
Embora ainda nos assustemos com casos de escravidão a moda antiga ocorrendo em nossos tempos, onde trabalhadores são mantidos em cárcere, forçados a trabalhar e não recebem um centavo (Pelo contrário, muitas vezes saem devendo - Quando saem - O velho truque da caderneta, entre outros), o modelo que é utilizado em larga escala hoje em dia, se traveste de emprego e existem filas enormes para ser escravo, explorado por patrões parasitas que se escondem atrás de discursos que estão muito longe da prática, da realidade. "Trabalhe bastante e seu patrão ficará rico", dizia a frase rabiscada na porta do banheiro público. O desabafo sincero de alguém enquanto jogava um barro na louça, uma frase que lembrou durante o momento. Provavelmente um trabalhador das redondezas buscando abrigo.
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Mas qual a diferença entre trabalho e emprego? O que estas palavras representam?
Trabalho é uma palavra que tem origem no latim. Tripalium, ou tripalus, era um instrumento de tortura composto por três estacas de madeira, usado para castigar escravos ou presos. Inicialmente, o verbo derivado, tripaliare, significava "torturar" ou "sofrer". Com o tempo, o termo passou a descrever atividades físicas exaustivas e hoje denomina esforço produtivo em geral.
Emprego seria o ato ou efeito de empregar. Atribuir uma colocação ou função a alguém, fazendo com que essa pessoa trabalhe. Também pode ser sinônimo de trabalho. Função ou cargo que alguém ocupa. Prática ou aplicação de alguma coisa. Lugar onde se trabalha. Pesquisei estes significados em diferentes dicionários e todos iam pelo mesmo caminho.
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Qual
a maior forma de expressão dessa escravidão hoje?
Fica difícil escolher uma entre tantas formas de escravidão. Até porque escravidão é escravidão. Não existe mais escravidão ou menos escravidão. Talvez possamos citar a escala 6x1 como a maior expressão do egoísmo e ambição patronal. O sujeito trabalha nove horas por dia (Uma hora é de almoço, mas o cara fica preso a voltar logo a trabalhar. Nessa hora não faz mais que o necessário para se manter de pé pelo resto da jornada - Comer o mais rápido possível para conseguir descansar nos minutos que sobrarem). Normalmente resume sua vida a ir trabalhar, voltar esgotado e dormir até a hora de voltar a trabalhar. Sem falar no tempo que perde no transporte público que, normalmente, quanto mais se vai para a periferia, mais escasso e sucateado será. Isso fará ainda mais baixa a qualidade de vida, com um tempo ínfimo para se dedicar as atividades prazerosas, ao ócio e a sua vida pessoal.
Mas e o dia de folga?
O dia de folga, sendo apenas uma vez por semana, mal dá para a pessoa descansar, pois estará completamente esgotada pela carga horária brutal. Dois dias na semana já é muito pouco para quem tem o couro arrancado nos outros cinco. Apresento a seguir o depoimento de uma trabalhadora que limpa um restaurante extremamente burguês, com várias filiais em shoppings e outros centros de consumo.
"Trabalho
sozinha no meu turno e tenho de manter os dois andares da loja impecáveis. Fora a limpeza geral, faço a separação do
lixo e a organização dos espaços, ainda dou conta de toda a louça suja do
lugar. Outro dia pediram para limpar várias máquinas por dentro. Nunca tinha
feito isso. Meu horário de sair era para ser as 22h, mas não saio antes das
23h. Normalmente bem depois disso. Só posso ir embora quando a loja está pronta
para abrir no dia seguinte. Tem vezes que o último cliente não vai embora
nunca. Dia desses fiz tudo acelerada para conseguir sair o mais perto do meu
horário possível, pois tinha um compromisso importante. Quando pensei que tinha
acabado tudo, deu um problema na hidráulica e subiu água de tudo que era lado.
Alagou todo o restaurante. Que vontade de chorar. No único dia de folga que
tenho, um dia que eles escolhem, só quero dormir. Passo o dia de cama. Quando
não estou dormindo, estou trabalhando. Não tenho vida. Tem vezes que fico sem
forças para tomar um banho ou comer quando chego em casa."
Além de trabalhar na pior das escalas existentes, ela ainda tem sua carteira assinada como serviços gerais. Essa denominação permite que o patrão a coloque para trabalhar em várias funções diferentes, dificultando o processado por desvio ou acúmulo de função. Isso demonstra que o patrão não tem o menor respeito pelo funcionário e que busca meios de suga-lo o máximo possível impunemente. Por debaixo do sorriso cortês se esconde um demônio sedento por lucro a todo custo. Mesmo que tenha de se aproveitar de outros seres humanos através da exploração de seu trabalho, criando uma prisão através de ameaças, como o desemprego, a fome e a falta de recursos financeiros, por exemplo.
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Como mudar essa situação?
Várias
lutas trabalhistas estão em andamento. É importante se informar sobre e
participar ativamente. Continuemos com o exemplo da maldita escala 6x1 para
ilustrarmos melhor essas lutas, como se dão e seus entraves.
De
acordo com o jornal A Voz dos Trabalhadores, número um, de dezembro de dois mil
e vinte e cinco, cerca de trinta e três milhões de brasileiros (Cerca de um
terço do total de empregados no país) só tem direito a um dia da semana para
descansar de uma jornada de trabalho desumana e a maioria da população é
favorável ao fim desse tipo de escravidão, mas setenta por cento dos deputados
é contra o que deixa claro os interesses de quem são prioritários para os
eleitos.
Os
empresários e os políticos que os servem dizem que o fim dessa escala seria um
desastre para o país, mesma fala que usaram na época da criação do décimo
terceiro, como demonstra a capa do jornal O Globo da época. Os latifundiários também fizeram previsões
catastróficas quando se falou no fim da escravidão.
Todas as conquistas trabalhistas vieram através de muita luta, protestos e mobilizações. Nada foi dado de mão beijada. Nunca um rico aceitou ficar menos rico para dividir um pouco do que tem de sobra. Ele quer cada vez mais, ter helicóptero, lancha, carro do ano (um para cada membro da família), mas quando se fala em compartilhar... Aí começam os discursos, a choradeira e o blábláblá...
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"Os
ricos farão de tudo pelos pobres, menos descer de suas costas"
- Tolstói


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