ISSO DÁ UMA CRÔNICA

 Pequeno passado

Lisboa vem namorar-me, lá vou eu

Pelas ruas do passado a correr”

(Mariza, Minh’Alma)


Há catorze anos, morei em Lisboa por cinco meses. Não sei o que me surpreende mais desse fato: que já faz tanto tempo ou que a estadia durou tão  pouco. Cinco meses é pouco e catorze anos é muito tempo para qualquer coisa que possa acontecer na nossa vida. Mas tem vivências que não se medem em dias, meses ou anos e, sim, em intensidade. E no fim das contas, o tempo pequeno em Lisboa foi tão pleno que a cidade conquistou para sempre um lugar especial no meu coração.

Na escala do voo entre Berlim e Floripa, ao sair do aeroporto e descer as escadas do metrô, ainda não sabia aonde a viagem ia me levar. Iria de novo, como fiz na vinda, pegar a linha vermelha até Alameda e de lá a verde, sair em  Rossio, perambular pelo calçadão da Baixa até a praça do Comércio, sentar um pouco à beira do Tejo para observar as gaivotas e, antes de voltar pro aeroporto, dar um pulo na Casa Brasileira, pedir a salada de frutas (a mesma que comia ali sempre durante aqueles poucos meses) ou talvez um pastel de nata e uma bica?

Não, bastou um olhar sobre o mapa com as quatro linhas de cores diferentes para decidir que desta vez faria diferente. Em vez do rolê turístico, revisitaria o bairro onde morei naquela época, catorze anos atrás. O prédio com a fachada coberta de azulejos, no número 27 da rua Ferreira Lapa, de onde eu, quase   todos os dias, saía a pé em direção ao Instituto Goethe. Na minha memória surgem ruas estreitas e coloridas no caminho, um céu azul, o ar já quentinho   com cheiro de verão, as vozes de Mariza, Mayra Andrade e Sara Tavares no fone de ouvido. Ou então indo pro lado oposto, em direção a boca do metrô. Aquela que ficava ao lado de um prédio abandonado, cuja fachada havia servido de tela pra arte urbana. Como era mesmo o nome da estação? Ficava na linha amarela, disso eu lembro... Ah, Picoas, isso mesmo!

Foi lá onde desci. Depois não sei o que aconteceu, se escolhi a saída errada ou se foram apenas os catorze anos entre minha última lembrança e o presente momento, só sei que não reconheci nada ali, nem mesmo vi aquele prédio todo pintado. Comecei a andar. Padarias, restaurantes, pequenas lojas, um quiosque bonitinho num parque (tinha um parque aqui?). Em algum momento vou ver qualquer coisa e na minha cabeça vai fazer bling e aí eu vou lembrar, pensei. Mas nada. Dobrei uma esquina (sabia que tinha que dobrar alguma esquina) e continuei descendo pela rua que se estendeu à minha frente. Seria essa a mesma que vim subindo tantas vezes voltando de noite do Bairro Alto, do Chiado ou da Alfama? Já achava que tinha me perdido – tudo era tão anônimo e desconhecido! –, quando, seguindo um instinto, dobrei outra esquina e de repente me encontrei. Estava na frente do meu prédio, Ferreira Lapa, 27.

A porta de madeira entre os azulejos estava aberta e um homem (o zelador?) tentava atravessar a estreita abertura com uma lixeira quase grande demais, enquanto outro senhor falava alguma coisa para ele da penumbra da escadaria. Por um segundo senti o impulso de cumprimentar meus antigos vizinhos (dos quais eu não lembro, nem eles de mim), de dizer Bom dia! Morei aqui há catorze anos! e ver o que acontece. Mas controlei-me a tempo e engoli as palavras antes de cruzarem meus lábios. Ainda levantei a cabeça em busca da janela do meu quarto (na verdade, era uma porta que dava para uma minúscula sacada onde mal cabiam uns vasos de flores). Continuei andando e olhando pra cima. Logo, ainda sem a certeza de ter achado ou não a janela, o número 27, minha casa e os vizinhos ficaram para trás e acomodaram-se novamente no passado.

Subi pela calçada, dobrei esquinas, procurando sempre as ruas menores, as travessas mais estreitas, de preferência calçadas com paralelepípedos, agraciadas com escadarias ou enfeitadas com varais de roupa nas alturas. Essas são as mais charmosas. E enquanto me entregava aos meus passos, ao céu azul, ao ar quente com cheiro de verão, a voz da Mariza cantava no meu peito: “Lisboa vem namorar-me, lá vou eu pelas ruas do passado a correr...”. E quando já pensava que o passeio não ia dar em lugar algum, que devia tomar as rédeas e procurar a estação de metrô mais próxima para voltar ao aeroporto, o avistei: o Instituto Goethe. Sem saber, sem planejar, sem procurar meus passos haviam me trazido de volta ao lugar onde, durante poucos meses, muitos anos atrás, fui uma estagiária imensamente feliz.

Rua do Passadico*, dizia uma placa no meio desse caminho por onde andei. Pequeno passado. E, nesse momento, nada fez mais sentido.


Lisboa, junho de 2025


*Mais tarde, refazendo o caminho no google maps, vi que o nome verdadeiro é Rua do Passadiço. Mas a placa dizia Passadico. Juro.


Yvonne Miller
Foto: 
Thaís Vieira

Yvonne Miller: berlinense de nascença, brasileira de alma, mestre em linguísticaescritora migrantecontista e cronistaobservadora de bichinhos, autora do livro “Deus Criou Primeiro um Tatu – Crônicas da Mata” (Aboio, 2022), estado civil: preocupada.

"Quanto mais arte, menos violência. Quanto mais arte, mais consciência, menos ignorância."

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