
Eu nunca fui ao Beto Carreiro
Eu nunca fui ao Beto Carreiro World, que é um imenso parque temático localizado em Santa Catarina, parque esse erguido a partir do sonho do caubói brasileiro que dá nome ao mesmo.
Também nunca tive vontade de conhecer o mesmo, de girar em suas xícaras ou de descer em sua big montanha russa (até porque eu vomitaria e provavelmente desmaiaria em ambas). A única experiência que cheguei a ter com o parque foi em 1995, quando minha irmã finalmente terminou o primeiro grau que agora é chamado de ensino fundamental.
Estávamos em um caos financeiro, mas ela queria porque queria a tal viagem junto com seus colegas, uma viagem de formatura, um rito de passagem. Dois anos antes eu já tinha visto meus pais enlouquecerem para dar uma festa de quinze anos para ela, e conseguiram com muito sacrifício e ajuda de amigos e parentes, uma verdadeira epopéia, traumatizante por assim dizer, mas... lá estavamos nós em uma nova "jornada".
Agora era de fato uma nova saga, meu pai oscilava em bicos nas obras de alvenaria, eu desempregado e em idade de alistamento militar e minha mãe segurava as pontas sabe-se lá como. O fato é que minha mãe e meu pai compraram a briga dela e começaram a batalha, a mim coube rezar e torcer, sim eu rezava muito (era um espírita carola). Queria muito que minha irmã realizasse aquele sonho, e meus pais conseguiram novamente com a ajuda de muitos pagar a tal viagem.
Na noite da partida fui com minha mãe levar ela até a escola, todos estávamos felizes, quando vi as pessoas embarcando, observei que outros parentes estavam junto e uma menina (muito bonita e que trocávamos olhares na época ) me perguntou se eu iria junto, falei que não, pois a viagem pelo que eu sabia era só dos alunos. Ela falou que não, que parentes poderiam ir junto desde que pagassem.
Eu me senti confuso, aliás muito confuso, eu não queria ir junto, mas mesmo assim perguntei para minha irmã se isso era verdade, e, se era, por que ela não me falou, ela que tinha visto tudo e estava com a cara fechada sentenciou em tom ríspido:
- Eu não falei porque poderia ser que tu quisesse ir junto, a mãe não ia ter dinheiro e daí eu não poderia ir.
Ela embarcou no ônibus e eu voltei para casa ferido de certa forma, perguntei para a minha mãe se ela sabia e ela negou, e me repreendeu por perguntar.
Quando minha irmã voltou de viagem cheia de histórias para contar, eu não escutei nenhuma, aliás, não era para mim que ela contava mesmo.
Gozado que isso sempre foi uma constante em nossa relação destrambelhada, e isso sempre me incomodou, mas não se tem o que fazer. Não sou vitimista, prezado leitor, mas é assim que as coisas são.
Certa feita, anos mais tarde, havia uma cobra pequena em um camping em que eu estava acampado, não gosto de matar bicho nenhum, ia deixar ela ali seguir o seu rumo, mas de repente me lembrei do "Beto Carreiro World, peguei um galho e a recolhi, levando para longe de onde estávamos, devolvendo ela para a natureza. Também não foi muito longe assim, mas a larguei com todo o respeito e carinho, afinal, era apenas uma cobrinha.
Hoje, quando olhamos os destinos de nossas viagens, ou apenas sonhamos com elas, o parque temático nunca está ou estará em meus planos, afinal, é como falei: xícaras que rodopiam e montanhas russas me dão vertigens.
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| Arte: Miriam Coelho |
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