
AOS OLHOS QUE ME
ATRAVESSAM
Capítulo I - Aprendizes
Ops! Tropecei aqui... Onde? Aqui nessas onomatopeias. Onde, centopeia? Não criatura, onomatopeia, figura de linguagem usada para expressar sons. Arriiii égua não para de pensa na escola não zoiúda? Ah... mas pra mó de que preciso sabe esse nome firulento? Uai sô, fugiu da escola foi? Foi não uai, só meio que cresci nas exatas, cai fora ocê coesses trem cosquento da dramática normativa! Uiii, tá toda dodoizinha. Tô não uai, tô é chateada com a metodologia de ensino, noiz sabe mais que muito profesô. Sei... sabe mesmo é? Sei uai. Então por que está escrevendo tudo errado as palavras? Uai, cê num disse que as tar de onomatopeia estava por aqui. Disse sim, mas uai... por que está escrevendo errado ao invés de reproduzir um mugido de vaca por exemplo? Tipo o que? Muuuuu.... assim óh.
Para tudo sabichona! Primeiro, que você não fala mineirês, cê nem é de Minas uai. Segundo que, tudo bem você ser das exatas, mas não precisa avacalhar com a gramática. Héle sua toupeira, ornitorrinco, nem ocê é mineira, é meu professor de matemática que ensina a gente dessa forma. Uai, não entendi Mi, nosso professor de matemática não é mineiro. Uai, nem nóiz trem... mas ele não fala uma palavra direito, enrola a língua para explicar tudo, e escreve tudo errado no quadro, logo, estou reproduzindo anotopeicamente no sistema dele. Olha Héle, eu lembro vagamente de onomatopeia, sei que são palavras que imitam ou sugerem os sons que elas representam, e ainda não sei como aquele cara das exatas conseguiu passar em um concurso público.
Héle do céu véi, Jesus! A geração dos meus filhos será um fiasco, será que o professor de história e geografia vão dar conta dos lapsos pandêmicos? Vão escrever ou digitar? Será que o professor de química e física... cala boca Mi, nós nem temos professor de química e de física, é sempre um biólogo que ocupa a vaga destes cargos porque não tem gente formada nesta área no nosso estado inteiro, e o governo pouco se importa em incentivar a formação destes profissionais. Ei... e as onomatopeias Héle? Exatamente, cadê as bichinhas? Mi, elas podem reproduzir uma ampla variedade de sons, incluindo os encontrados na rua, sons de animais e até mesmo sons de palavras ou expressões que não são facilmente definidas com palavras convencionais. Então Héle, ele reproduz que tipo de som, parece mais uma carroça véia com o cérebro enferrujado, só usa o livro didático e só uma única forma de encontrar o resultado, que chato! Então Mi, as onomatopeias são mais comumente associadas a sons naturais ou físicos do que a sons de palavras incompreensíveis kkkkkkkkk...
Cê é mersmo uma besta véia Héle rsss..., espertinha da língua portuguesa e da literatura, meu mundo gira nos catetos das hipotenusas, e tu, entende de matemática Héle? Claro, eu entendo perfeito e adoro matemática, mas não gosto do professor e ele não gosta de mim, então eu finjo que entendo o que ele diz, porque nem você que gosta de matemática entende o que ele diz, por que eu deveria de me esforçar para criar um vínculo com ele na sala de aula? Ele já está a me perseguir, provoca-me com notas rasas. Pois é Héle, noutro dia meu amigo ‘X’ passou na prova do professor de geografia por causa de uma pepita de ouro, e no outro a professora de química, que recém havia chegado de Minas Gerais e foi logo demitida por ter transado com o menino do 1º Ano do Ensino Médio.
Que porra Mi! Justo agora que estava começando a entender um pouco de química, afff... O que está acontecendo com a formação destes profissionais no país Mi? Que formação Héle? Não sei Mi, metodologia, sei lá, será que ensinam ética e leis a eles na faculdade ou só o conteúdo didático dos livros de sala de aula? Mi, creio que são muitos os professores que sabem realmente o que estão fazendo dentro da sala de aula, e são poucos os que não se importam com os alunos e com o futuro da educação brasileira, mas existe aqueles que são tapa buraco. Igual os asfaltos da região toda né Héle, aiii... misericórdia, o que fazer? Falar de professor pode dar problema Mi. Por quê? Porque a realidade das salas de aula e a perseguição dos governos estaduais, limitam a evolução dos mesmos, e nós, como alunas, também não colaboramos. Você mesma, sua peste, fica no celular o tempo todo, jogando ou vendo redes sociais, e deixa a professora a falar com as paredes que eu sei. Aii dodoizinha CDF do caralho! Opa, dodoizinha não, me respeita, quer dizer, respeite-me filhote de cruz credo.
Héle, para de falar que eu tenho que tomar banho. Bora prô treino Mi? A gente se encontra lá. Tu... tu... tu... tu... desligou na minha cara aquela biscate. E agora, terei de narrar sozinha essa parte, gostaria de ter mais tempo para falar de todos os meus professores e como foi da fase da alfabetização até aqui, no 1º ano do Ensino Médio, mas ainda é pouco o tempo para tanta prosa, quem sabe em um próximo livro eu chame a Betina Botox, Cinderela, Vovó Arlinda, Dona Edith e a Irmã Selma para falar sobre estas pautas convosco, só que tem que ser em uma terça-feira gente, pois é um dia cheio de serenidade insana, elas não podem comparecer no momento, visto que são de uma época à frente, ainda irão estrelar algumas coisas engraçadas no cômico-irônico no Brasil, mas agora vou para o treino, pois na idade em que estou é o universo que me resumo, não perco por nada nesse mundo essa sensação de endorfina, grudei paixão por este esporte e me sinto inteira a cada treino, ainda sim, inteira.
Fala aí biscate, por que não foi no treino hoje? Professor deu um treinaço! Suei até dizer chega. Héle do céu, minha menstruação véiooo... veio hoje. Vixi Maria! Nem quero pensar nisso muito, minhas cólicas são destruidoras. Mas me conta Héle, quem estava no treino hoje. Poxa vida! Todo mundo né Mi, menos você, a galera tava em peso, até os mais velhos, e os que já estouraram de idade para os jogos escolares. Cacete mesmo! Isso só acontece comigo, bem no dia que a galera toda aparece, eu não vou, foda! E como foi? Ah Mi, professor sempre pede para corrermos os 15 minutos, assim começou, depois fomos para os exercícios de passe, na sequência fizemos outros exercícios com bola e movimentação acelerada.
Nesse momento as duplas e trios dos outros exercícios mudaram, era aleatório, duas filas e o ‘pau torava’, pique com cruzamento na linha dos nove metros antes do arremesso. Show de bola Héle! Ah que vontade de estar lá. Mas péra Mi, nem te conto, depois de tudo, já estávamos soltando os bofe pra fora, morrendo, 10 minutinhos de descanso e ralaaaaa.... bora pro jogo. Menina, o jogo misto é baum demais da conta uai, é gente que esbarra nos peitos, passa mão aqui e ali, escapa bola bate na cara, leva uns biliscão no fervo do jogo, não se sabe nem de onde vem tanta porrada, mas a correria é foda. Handebol forever!!!
E não tem como não gostar né, a gente joga de tudo nestas quadras, mas na hora de sair para campeonatos, é o handebol, sem dúvida! É Mi, concordo, mas o atletismo também, esse a gente papa algumas medalhas, nós duas somos pontas, velocistas, quero vê alguém alcançar a gente hahahaha. Ei, Alexandre perguntou de ti, e o Frank também, e o Rogério, e o Leandro e o Leonildo também. Eita porraaaa... que eles queriam Héle? Saber da tua irmã é claro! Kkkkk... Ainda falam na maior cara de pau de peroba “Cadê a Michele e aquela irmã gostosa?” kkkkkk... Ahhh filhas das putas, sem noção esse povo. Uai, sem noção nada Mi, eles têm 17, a gente tem 14, acorda né zé mané. Mi deixa eu ir que minha mãe tá esperando pro almoço. Inté!
Agora preciso refletir sobre a voz do narrador, pois sair de um diálogo aberto pautado na escola e gerar um assunto mais difícil, é preciso, de qualquer forma, saber se o narrador entende do que está descrevendo ou narrando, e se ele for onisciente melhor ainda. Pense em um pentelho que se mete e se atravessa na fala de um narrador padrão (1ª ou 3ª pessoa). Psiu, stop! Nada de perguntar o que é isso e aquilo, vai pra internet buscar a resposta, procura seu professor caralho, e larga a porra do chatgpt4, o filho da puta é um dedo duro padronizado. Basta tu saber que vou narrar esta história de forma onisciente, pois nesse formato posso me manifestar na fala do narrador, posso interromper ou intervir na narração, coisa de louco não é mesmo!? Imagina só quando criaram esses tantos de maneiras diferentes de se narrar uma história, emocionante! A variação é um Delivery.
De certa forma, as ações da humanidade sempre chamaram atenção. Como se comportavam em grupos e individualmente. Péra... voltamos ao meio século de vida só pra conscientizar. Então, o movimento dos peões inseridos na sociedade e soltos, loucos de pedra. Como evoluíram e se identificaram com as culturas em que se ajustam hoje. Nada passava despercebida, nem quando chovia na lua, nem quando o sol chorava; mesmo criada sob regime ferrenho de duas religiões parentes, tinha esse senso meio cético, não que duvidasse, mas que se permitia questionar mesmo no silêncio, isso desde os cinco anos. Cinco anos de quem? Mi, porra garota, achei que você tinha desligado o telefone cacete! Eitaaa... tá baum, tô ino véio, pode voltar a dar uma de cinquentona, sabichona, bonitona, aixiii... mas Báh... fui. Mas péra, fui nada, conta aê esse bagulho, quero ouvir.
Então, como dizia, a personagem principal, a menina da história, era propriamente analítica por conta, observava a conversa dos adultos, como se portavam em suas casas e em reuniões, quanta diferença! Por que o local onde se vive, em certa etapa da vida, infância ou adolescência, tem que ser sempre o mais sério? Legal era posar nos primos, nos amigos então, caracas. Que farra! Mas nem tudo eram rosas sem espinhos, por isso os grupos familiares são diferentes, mesmo inseridos na mesma sociedade e tendo a mesma cultura e religião, os adultos se comportavam de forma não correspondente. O lance é que quase nenhum deles se prepara para encarar a descoberta dos pequenos, talvez, e isso é uma hipótese, por saberem como fora a sua própria, então, deixam a vida correr conforme os padrões.
Héle, ou eu, nunca avançamos na idade como a maioria das meninas de 14 anos, o negócio era jogar handebol e vôlei, fazer atletismo e estudar; isso me rendeu tempo para aproveitar preciosos momentos com os amigos, viagens em ônibus com cantorias desvairadas e descompromissadas com a afinação, “Toda vez que chego em casa, a barata da vizinha tá na minha cama (2x), ele vai dar uma chicotada na barata dela (4x)”, sempre alguém caía na último verso e dava aquela martelada, ou estilingada, mordida, porrada ou cintada na barata dela, era uma farra mesmo. Em 1992 isso não era visto como promíscuo, apenas se cantava, e bem alto por sinal. Chegou até na fase do “sabão cra-cra…” com os Mamonas Assassinas; mas por fim tudo era guardado na memória, os batuqueiros do fundão, os jogadores de truco na poltrona 20, os casais que iam para o fundo se amassarem, os que se pegavam de relance, os que só se olhavam e outros que ficavam morrendo de medo da treinadora, não davam um pio, ficavam com o cú na mão se fossem lá pro fundão. Mas a vontade, ahhhh vontade de chegar até a poltrona 15 pelo menos era muito grande.
Os anos foram passando, última temporada de jogos estaduais, outro treinador, dois busão lotados de atletas dos 14 aos 17 anos. Hormônios saltitantes, tudo era farra do começo ao fim, as músicas atravessavam viagem com alguns resistentes ao sono, outra turma ia dormir, uma outra fazia de conta que ia. Ser da primeira e da última turminha não foi uma má experiência. A primeira vinha munida de natureza artística, samba, pagode, MPB e rock roll, além de cumprirem com suas tarefas diárias como estudar e treinar, alguns faziam muitos extras, praticavam pintura, dança, idiomas entre outros, eram uns TDAH hiperativos do caralho. Esse povo vive pilhado! É muita energia! É muita vida correndo nos vasos sanguíneos de cada um. Já a última turma apaziguava tantos pensamentos frouxos.
No busão ainda tudo escuro, não se via muita coisa, mas a abelhudice falava mais alto e os ouvidos se apuravam. No banco do lado, poltrona 16, ela estava sozinha de propósito, esperando a hora que Alex se cansaria de cantar; já se passava das duas da madrugada. Pensei que Nanda estava dormindo de fato, porém quando o assento do seu lado foi preenchido ela se virou, mandou Alex calar a boca, estava falando alto demais, e se deitou em seu colo por sugestão dele. Não parecia tão brava agora. O pretexto era esse mesmo, independente da hora, algo nela a impedia de dormir de fato, seus pensamentos já estavam afogados em babas dos beijos dele antes de sua chegada, dos sedentos desejos do toque, de viver algo esperado, fantasiado. E foi assim, que percebi a premeditação, ela sabia que Alex sentaria ali uma hora, uma hora iria rolar, tinha que ser ali, naquele momento da viagem.
Nessa deitou sua cabeça no peito de Alex, eles falavam sussurrando no escuro, via-se somente sombras se movimentando quando o beijo apareceu, os estalos aceleravam com a respiração enquanto a música rasgava no fundão do ônibus. Volta e meia um clarão se infiltrava pela janela, as mãos de Nanda já estavam por baixo da camiseta de Alex, enquanto ele parecia o Drácula. Sugava- lhe o pescoço, a boca, a orelha, deixava tudo babado, percorria todos estes lugares freneticamente. Os gemidos de Nanda não eram percebidos pelos desatentos, mas deixava claro que era isso que tanto esperava. Sua voz trêmula a cada amasso, a cada passo que a mão dele escorregava por seu corpo ela correspondia com entonações diferentes.
Mais um clarão vindo de fora, o peito esquerdo de Nanda já estava em posse, o sutiã estava visivelmente desabotoado, a blusa levantada, e a boca de Alex indo em direção ao pequenino bico; naquele momento o clarão acabou, mesmo que os olhos estivessem arregalados para ver, somente as sombras e a voz de ambos se identificavam para o observador. O ritmo acelerava, as vozes se excediam, as sombras mudavam de lugar, a cabeça de Alex levantava, subia, ele se erguia como se fosse debruçar-se sobre ela. De repente ele a abraça de costas, simulando que aconteceria uma possível soneca debaixo do cobertor. E os bocós da turma dormindo nos bancos da frente.
A mente já rezava por mais um clarão, aprender coisas consideradas proibidas causa estresse mental, mais do que ter curiosidade aguçada, desperta o frisson do proveito das ações a sua volta, excitação moderada, uma emoção demasiadamente audaciosa, um alvoroço despontando no corpo, entusiasmo. Um sentimento repentino que o momento proporcionara; o medo misturado com a excitação, pois entendia o que estava prestes a acontecer, tudo fluía na imaginação; os barulhos que as bocas faziam ao se atracarem, mesmo não sabendo muito como se fazia aquilo acontecer, os gemidos dela quando ele a tocava com vontade, os dele quando ela o provocava esfregando sua mão sob o short jeans.
Arrepio na pele, calafrio na alma; um frio que despontava no secar dos lábios, o interesse por alguém se sentar ao lado e te tocar a boca, sufocar-te com a língua; as crises de imaginação aumentavam. Queria ser Charles Xavier do filme “X-Men”, saber de tudo, escutar as nuances mais baixas do pensamento, deliciar-me com os feromônios pairados no ar, fechar os olhos e ter um orgasmo sinestésico múltiplo alimentado pelos desejos mais pecaminosos que emanavam da segunda turma, aqueles que sempre estavam à espera de um encontro selvagem, não cantavam muito e jogavam porra nenhuma. Não que os outros não tivessem seus momentos de flertes e pegação, mas as prioridades eram outras. Ainda no escuro, mais movimentos das sombras que se atracavam, os músicos esgotados, cada um caía para um lado e apagavam, dava para ouvir os roncos do treinador de longe, ambiente propício para mais crimes acontecerem, logo as poltronas 23, 28, 34, e 38 enlaçavam barulhos dos quais já havia ouvido dos residentes da poltrona 16.
Vai “Xavier”! Aboleta-se em mim por favor… Jean Grey? Mística? Mímico? Morfo? Psylocke? Cablo? Stacy X? Xorn? Alguém… pleaseeee! Não conseguia dormir, os ouvidos pulsavam eletrizados, as narinas podiam sentir a substância secretada das partes íntimas de alguém; então era assim…. Minha professora de Biologia tinha razão, esse é um sinal, um comunicador entre os animais, nesse caso animais racionais, é… em parte. Mas ela tinha razão total, como tal essência era extremamente atraente, irresistível ao ponto de tolher a razão. Esse tal de cio é foda! Enfim, vários clarões pela frente, os olhos cerrados, ouvidos escancarados, a mão de Ale dentro do short de Nanda enquanto ele engolia sua boca escandalosamente, ela rebolava sutilmente para que Alex sentisse seu desejo latente; houve um momento que ambos se olhavam ardentemente, sem piscar, seus olhos cerravam e fechavam enquanto seus corpos se comunicavam. Os clarões da rua tramavam com minha mente.
Puta que pariu! Não gostava nem um pouco das aulas de Biologia, cada nome difícil de decorar pra cacete! Ainda faltei à aula de reprodução… Merda! Cala boca Mi, deixa eu narrar porraaa... Ok ok, cê estressa não. Bom, será que a professora explicou sobre “tara”, ahhhh… caracas, agora já era, vou ter que aprender na prática, calorrrr moço do céuuuu! “Oh my God!”, o que é isso? Veio dos fundos, olha o capeta inticando afff… Entre os clarões e a escuridão, avistava a porta do banheiro nos fundos do ônibus, mais um tempinho, levantei de fininho como quem que só vai usar o banheiro. Mal enxergava o caminho, ia tateando os bancos pelo corredor com os ouvidos bem atentos, quando de súbito um clarão. Boquiaberta.... Seria a expressão que definiria o que vi, se Manuel Bandeira estivesse nesse busão diria: - Isso que é Libertinagem! E se ele estivesse mesmo, seria sua ouvinte por toda viagem.
Enfim, a porta do banheiro emperrada, fiquei esperando um tempinho e de repente algo caiu lá dentro, ops… ou caíram. Pensei, encostar o ouvido é crime? Meu pensamento rachou na gargalhada sozinho, mais crime que se acomete nessa viagem, ouvir!? Crime!? De jeito nenhum! Encosta o ouvido aí. Caramba! Cadê a “Lince Negra” pra se apossar do meu corpo essa hora!? O povo tá virado no “Jiraya” lá dentro, é só cotovelo que bate nessa porta. Enquanto os residentes das poltronas 34 e na outra, 38, de onde estava podia observar bem agora, estavam se atracando direto, preciso saber o truque de ficar meia hora sem respirar. Mas báh! Ganho a competição de mergulho ano que vem com certeza! Só a criatividade era capaz de simular tal ocasião; de ligeiro veio um clarão das luzes de um posto na BR; de relance parecia um menino e outro, ou uma menina na boca da outra; eita trem! Era muita informação para uma aprendiz de observâncias da vida.
Os olhos viam o que tinham que ver, não nutria nenhuma repulsa pela combinação das línguas do mesmo sexo, pelo contrário, parecia delicioso, ainda mais que na época todo mundo curtia “Legião Urbana”, “e eu gosto de meninos e meninas”. Ai, ai, aiiii... aiiiiii…. Pensei comigo, se aparecer um morto nesse banheiro vou tacar uma bolada na careca do treinador. O bom dessa história é que cada hematoma no corpo, quando se está em temporada de jogos, é facilmente explicável. Uma paulistinha na coxa, vários arranhões nas costas, peito e braço, aquele roxo esverdeado no pescoço, era bolada de tudo quanto é lado. Handebol é assim, esporte de contato bruto, mas quem explica um chupão no pescoço? Hehe.
Depois dos últimos gemidos no banheiro era hora de voltar. Nada de sono e nem de insônia, a curiosidade acoplada em descobrir a verdade minuciosa do processo do toque na pele era alucinante, parecia ter tomado cinco litros de energético. Mas, no meio do caminho parei... chocada com a confusão na poltrona 26, eles nem se quer se esconderam debaixo do cobertor, ôh trem cosquento, que animais báh! Fiquei por ali, fui andando devagar, logo veio a imagem de um outro clarão na estrada, ela cujo nome desconheço e de sainha, rapariga, tomou o porre naquela noite, era um sobe e desce do colo de um fulano que não identifiquei no momento, quando o clarão vem os olhos pra quê focar na cara, só um puta fofoqueiro ficaria atento a quem estava por ali, mas Yo No, queria saber do fim daquele vucovuco.
Que porra, está começando a amanhecer, tenho que regressar ao meu destino, sentar-me novamente na poltrona, pois já é umas cinco e meia da madrugada, quase amanhecendo, os barulhos foram diminuindo, as sombras se dissipando, a escuridão sumindo, os movimentos exaltados iam sossegando, a respiração ofegante voltando ao compasso natural. Era como se nada tivesse acontecido, o que de fato para quem dormia, não aconteceu mesmo. Finalmente, o silêncio imperava nessa nave, somente 5km para chegar ao destino e ainda se ouvia absurdamente o estrondo roncador abominável do careca das neves – vulgo treinador. E eu, aqui nessa poltrona sozinha, não pisquei o cú de tantas coisas novas que vivenciei, eitaaa que a experiência não foi ruim.
Alguns minutos de paz, o sol já despontava no horizonte, atravessava as janelas e tocava a face dos ditos atletas juvenis; nesse momento tive vários flashbacks, observava a calmaria da ocasião, a exuberância da natureza de passagem, o Motóra tomando Coca-Cola ao volante, a chegada à cidade; momento ímpar este em que todos despertam como se tivessem setenta auréolas em suas cabeças. Todos santos nessa espaçonave, sem dúvida, imagina!? Não aconteceu nada demais aos olhos dos adultos presentes. Observar também é parte do aprender, ninguém escapa das ocorrências da vida; ela te chama e você vai; vai ver, observar, sentir e provar, conhecer, adquirir suas próprias experiências e histórias, isso é só o começo. Puta que pariu! Não beijei na boca, não esbarrei com ninguém naquele busão, um medo da treinadora Kayoko de gelar o cú, maior medo era dela contar a minha mãe que fiz isso ou aquilo, caralhoooooo... O que uma mãe não faz a consciência de um filho mesmo estando ausente do processo todo. E também né, o que uma garota de quinze anos, seca igual um varapau, atrairia em um garoto de dezessete? Nothing!
Virgem dos quinze aos dezessete, nada mal! Agora, sem experiência é que não mesmo, cruzes... deixa eu viver sem medo. Onde eu tava que não vi isso tudo Héle? Hahaha... você dormiu do lado da treinadora kkkk... se fudeu! E você tava do meu lado biscate. Quem se fudeu CDF do cão? Não fala comigo deste jeito Mi, eu não faço besteira, sou certinha, certinha até demais, chego a ser chata afff... consciência do cão. Se não fosse essa tal de consciência tinha me esbaldado como toda gente nessa nave, além de jogar uma bombinha no banheira pra ver os canibais saírem correndo pelados. Uiaaa sua capeta! Capeta nada Mi, minha mente que não sossega, é claro que eu mesma não jogaria bombinha nenhuma, nem tentaria passar pasta de dente na testa do treinador, nem amarraria o tênis da treinadora Kayoko na poltrona, nem olharia para olharia para alguém com desejos, mas minha mente faz tudo isso e me carrega para um espaço-tempo do qual ninguém habita. Héle, cê tá bem?
É... eu tô, e tô ainda com aquela consciência do cão.
CONTINUA NA PRÓXIMA QUARTA...
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| Andréia Kmita |
Andréia Kmita é natural de Campo Mourão - Paraná (25/04/1977), região Sul do Brasil, migrou com a família de ascendência italiana e ucraniana para o Norte do país. Docente na Educação Básica (Ensino Médio) na SEDUC/MT desde 1992. Graduada em "Letras"(1999/FADAF). Mestre em Literatura e Crítica Literária (2018/PUCSP). Pós-graduada em “Psicologia e Coach” (2020/Faculdade Metropolitana de Ribeirão Preto - SP). Em 2021 cursou “Terapia Cognitivo-Comportamental: Princípios Teóricos e Epistemológicos” e “Introdução a Psicanálise Freudiana” no Portal de Psicologia (in)Formação. Fez parte de grupos de pesquisa na PUC-SP sobre poesia e crítica literária em 2015 e 2016. Integrou o grupo de pesquisa da Profa. Dra. Telê Ancona Lopez USP (FFLCH) 2015/2016/2017 sobre o “Trabalho do Crítico”. Atuou como Coordenadora Pedagógica na escola especializada em Educação no Sistema Prisional de Mato Grosso de 2019 a 2020, onde escreveu documentos de suma importância para o Estado de Mato Grosso no segmento educacional PPL (Privados de Liberdade). Em 2021, iniciou o Doutoramento na FLUC (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra) em Línguas Modernas: Culturas, Literatura e Tradução. É Poetisa, escreve contos e roteiros de curtas, escritora de projetos políticos educacionais e culturais.
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