Eternamente João e Teresa

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Outro dia alguém me perguntou por que falo mais do meu pai do que da minha mãe. Acho que falo mais porque vivi mais com ele. Porque meu tempo com ela foi mais curto. Contudo, foram 20 anos. Há crianças por aí que vivem sem mãe, outras nem a conheceram. E há também as que ficaram órfãs cedo demais. Então não reclamo.

Já com meu pai foram 39 anos. 39 anos de amor, companheirismo e união. Sim, eu era a filhinha do papai. E por ter medo de perdê-lo, eu decorava suas histórias, seu jeito de falar, as brincadeiras, a malícia de vida e a sua inteligência.
Meu pai era analfabeto, frequentou a escola por apenas 2 anos. E, em dois anos, enlouqueceu a professora. Ele me contou que sempre chegava atrasado, pois ele e minha tia Iná (Gasparina) caminhavam quase 15 km para chegar à escola.
Pelo caminho, passavam por uma venda e, todos os dias, meu pai mentia para o dono que estava de aniversário. Ele fazia isso para ganhar doces. E não, gente, não era chocolate. Era doce de abóbora, melado, caldo de cana e, às vezes, bala de mel.
Tinha por lá uns meninos maiores, filhos dos donos de fazenda, que implicavam com eles. Juntos, eles tacavam pedras nos meninos. Atiçavam bois bravos neles. E sempre saíam correndo e chegavam atrasados na escola.
Na escola, a arte do meu pai continuava. Um dia, ele se escondeu da professora atrás da porta e, quando ela o achou, ele correu e foi para debaixo do vestido dela. Mordeu as coxas da professora. Ela, furiosa, o expulsou da sala.
Ele, bravo, buscou um bode que era, segundo ele, muito "atentado". Ele soltou o animal na sala de aula, fazendo todos correrem. Depois disso, meu avô o tirou da escola e o levou para a roça. Deu-lhe um cigarro de palheiro e um copo de cachaça. E assim ele começou a trabalhar. Oito anos meu pai tinha.
Apesar de não ter aprendido a ler, meu pai foi o homem mais inteligente que conheci. Fazia contas de cabeça, conhecia ciência, geografia, história, filosofia e era muito religioso. Meu pai era incomum, era à frente do seu tempo.
Se tornou um velho tropeiro cansado. Mas antes foi guri, piá dos mais atentados. Foi homem bonito, disputado. Sempre gostou de um trago. Trouxe de Santa Maria tristezas, alegrias e muita saudade.
Contando isso a vocês, chego a ouvir sua voz outra vez. Rindo, feliz, lembrando do bode, dos bois e do dono da venda. Brincando, dizendo que o par de coxas da professora era a coisa mais linda.
É engraçado, eu sempre soube que contaria estas histórias um dia. Mas nunca disse para ele que um livro faria. Mas acho que ele sabia.
DIOVANA RODRIGUES

Me chamo Diovana Rodrigues, tenho 42 anos e sou mãe de três filhos. Trabalho com segurança privada e escrevo desde a adolescência; a escrita sempre foi o meu refúgio.Sou autora dos livros Autópsia, Rosa Negra, Confrontando a Saudade e Diário de uma Amante (formato virtual), além de ter participado de diversas coletâneas literárias. Quando iniciei no clube literário, eu tinha um livreto chamado Janeiro sem Sol para divulgar os meus versos. Hoje, sou autora de muitas poesias — a maioria nascida como forma de desabafo. Uma delas, inclusive, deu origem ao meu livro virtual Diário de uma Amante, que tem seus contos eróticos divulgados todas as sextas-feiras pelo ColetiveArts. Como poetisa, já conquistei alguns concursos e homenagens, o que me traz imensa felicidade. Minha caminhada literária começou cedo e sigo escrevendo com amor. Sei que nada é fácil, mas também não é impossível. Este é um trabalho diferente, pois aqui quero eternizar as lembranças dos meus pais. Eles foram, e esteticamente continuam sendo, mais do que tudo para mim. Talvez eu escreva por eles, porque sempre fantasiei o mundo ao meu redor. Escrevo para homenageá-los, pois sei o quanto tinham orgulho de mim. É por isso que sigo lutando, buscando evoluir e crescer como pessoa: porque preciso honrar a memória deles.


"Quanto mais arte, menos violência. Quanto mais arte, mais consciência, menos ignorância."

08 ANOS DE VIDA DEDICADOS 
À ARTE E CULTURA!


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