A professora se viu novamente diante de um sonho de infância: o sonho de ter um vestido de prenda. Eu me vi nos olhos da minha aluna. Ela fitava as meninas com seus vestidos e sorria enquanto dizia:
— Eu também tenho vestido. E nem precisa ser igual a esses.
Concordei. Ela me olhou com uma cumplicidade que talvez nem soubesse explicar. Mas eu sabia. De alguma maneira, conhecia aquele olhar. Combinei que tentaria conseguir um vestido para ela entre a sexta-feira e o sábado, dia da nossa apresentação. E foi então que percebi: eu não estava procurando apenas o vestido de uma menina de sete anos. Estava procurando também o vestido da menina que um dia eu fui.
Depois do trabalho, seguirei rumo a uma missão muito especial: encontrar o vestido de prenda para minha pequena Ayo. E, nesse caminho de volta ao passado, visitei novamente a minha própria infância. Vi aquela menina sorrindo, rodopiando e dançando com o vestido que só existia em sua imaginação. Hoje, adulta, eu posso comprá-lo. Durante tantos anos, nunca comprei uma roupa de prenda nova para mim; quando comprei, foi de segunda mão. Mas nesta sexta-feira serão duas: uma pequena, para uma menina de sete anos, e outra grande, para a mulher que um dia teve exatamente o mesmo sonho.
Talvez seja também por isso que me aproximei da docência. Ser professora, para mim, sempre teve alguma coisa a ver com transformar sonhos em possibilidades. Hoje fiz lenços vermelhos e preparei flores para os cabelos das crianças. Quero que cada uma encontre uma maneira de participar e de se sentir pertencente. Não quero deixar ninguém de fora. Sei que a vida carrega uma dessas coisas terríveis chamadas desigualdade! E sempre haverá alguém para dizer: “Mas as crianças precisam aprender a lidar com a frustração”, como se ser pobre, desejar e não ter acesso às mesmas oportunidades fosse simplesmente uma questão de aprender a se frustrar. Não é. Eu conheço o lugar de quem precisou imaginar aquilo que não podia ter.
Mas também sei que a falta pode nos ensinar a criar caminhos. Muitos dos “nãos” e dos percalços que atravessei fizeram com que eu aprendesse a inventar possibilidades onde pareciam existir apenas limites. Talvez, se não fossem eles, uma janela tão humana e sincera jamais tivesse se aberto como um portal em minha vida. Hoje compreendo melhor a menina que fui. E é através dessa janela que sigo lançando sementes, acreditando que muitos sonhos ainda poderão se realizar na vida daqueles que, por enquanto, possuem apenas as janelas da imaginação.
Nesta sexta-feira, comprarei dois vestidos. Um será para uma menina de sete anos. O outro, para uma menina que esperou muitos anos para finalmente poder vestir o seu sonho. Pode parecer tarde, mas sempre é tempo de realizar sonhos.
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| Josiane Prestes |
Josiane Prestes é escritora, compositora , cantora, professora alfabetizadora, pedagoga, especialista em Gestão e Orientação Educacional e multiartista de Gravataí (RS). Assessora pedagógica na SMED Gravataí, atua em defesa da educação pública de qualidade, equidade e valorização das relações étnico-raciais (ERER). Autora de A Janela de Ayo (2025), integra o Coletivo de Escritores Negros e participa das obras Meu Corpo Negro e Dois Olhares de Mulher. Filha, mãe, esposa e ativista dos direitos humanos, transforma arte, ancestralidade e educação em caminhos de resistência, pertencimento e transformação social.
Facebook: Josiane Prestes
Instagram: @josiane_prestes
"Quanto mais arte, menos violência. Quanto mais arte, mais consciência, menos ignorância."
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| Arte:Waldemar Max |
OITO ANOS DE VIDA,
NOSSO MUITO OBRIGADO POR
ESTAREM NOS ACOMPANHANDO DURANTE
ESTA PEQUENA
JORNADA"


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