MULHERES ANTIFEMINISTAS E O VOTO: INCOERÊNCIA
Às vésperas das eleições para presidente ou presidenta, governador ou governadora, senador ou senadora (ou ambos), deputado ou deputada estadual e federal, encontro, novamente, a maior incoerência política das antifeministas: o voto. As feministas, geralmente, costumam ser mulheres (e até homens) muito bem informadas, ligadas na história do nosso país. Já as antifeministas se apegam apenas ao que consideram oposição e demonstram falta de informação.
É comum as pessoas que não se informam verem o feminismo como o contrário de machismo, com todas as agressões que o machismo prega. Mas, na verdade, não é nada disso. O oposto de machismo não é feminismo, é o femismo.
Machismo é um conjunto de crenças, atitudes e comportamentos que promovem a ideia de que os homens são superiores às mulheres, justificando a desigualdade de gênero. Baseia-se na suposição de que traços e papéis associados aos homens têm mais valor do que os associados às mulheres.
Femismo significa uma doutrina ou ideologia que prega a supremacia ou a superioridade da mulher em relação ao homem. É definido como o oposto do machismo, buscando inverter a lógica de poder para colocar a mulher acima do homem.
Feminismo é um movimento político, social e filosófico que luta pela igualdade de direitos, oportunidades e deveres entre mulheres e homens. O feminismo defende a igualdade de gênero, o fim do sexismo, do machismo e da dominação patriarcal na sociedade. Luta contra a desigualdade salarial, a violência de gênero e a falta de representação política.
Agora que a explicação está detalhada para que entendas... Oras, se o feminismo luta contra a falta de representação política, como é que mulheres antifeministas usam o direito ao voto e, pior ainda, concorrem a cargos públicos? Antifeministas não deveriam votar; deveriam se abster deste direito, afinal, a luta foi unicamente delas, das feministas. É coerente aproveitar-se de direitos e levantar bandeira contra? Essa postura apresenta grande contradição.
No site da CONTEE (AQUI), há o seguinte registro histórico: “Há 87 anos, no dia 24 de fevereiro de 1932, as mulheres brasileiras garantiram o direito ao voto. A vitória foi alcançada depois de mais de 50 anos de mobilização do movimento feminista, que se organizou na luta pelos seus direitos políticos e pelo respeito à cidadania das mulheres, antes mesmo da proclamação da República. A bióloga e feminista Bertha Lutz se consolidou como um dos principais nomes na luta pelo sufrágio feminino no Brasil. Com influência do movimento feminista europeu, que ganhou força nas primeiras décadas do século 20, Bertha fundou a Frente Brasileira pelo Progresso Feminino e liderou as articulações pelo direito das mulheres ao voto.”
No mesmo site: “O movimento pelo sufrágio feminino ganha forma e força em 1910, quando a educadora e ativista Leolinda Daltro funda o Partido Republicano Feminino, após ter seu pedido de alistamento eleitoral negado. Baiana nascida no século 19, Leolinda mudou-se para o Rio de Janeiro, onde viveu a maior parte da vida e criou seus cinco filhos separada do marido. ‘Leolinda desempenhou um important papel como precursora do feminismo, além de ter sido uma defensora dos direitos indígenas’, afirmam Ceva e Schumaher.”
No site do TRE-MG (AQUI) encontra-se a seguinte informação: “No Ocidente, o movimento pelo voto feminino teve início na segunda metade do século XIX, impulsionado pelas transformações sociais decorrentes da Revolução Industrial (1780) e pelos ideais libertários da Revolução Francesa (1789). Inspiradas pelos princípios da liberdade e igualdade, as feministas lutaram pela emancipação das mulheres europeias, tendo como pautas a necessidade de educação, o direito à propriedade, ao divórcio e ao voto, dentre outros.”, “Em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, as irmãs Revocata Heloísa de Melo e Julieta de Melo Monteiro fundaram o jornal “O Corimbo”, que teve uma vida surpreendentemente longa - de 1884 a 1944. Em suas páginas desfilaram produções literárias de várias gerações de escritoras e escritores. Os editoriais, geralmente assinados por Revocata, costumavam trazer veementes apelos em favor do voto, da educação superior e da profissionalização feminina. “O Corimbo” foi incansável na mobilização das mulheres e na divulgação dos avanços do sufrágio feminino em outros países, sempre incentivando as brasileiras a fazerem o mesmo. Segundo historiadores, com o tempo o jornal teria se tornado a “caixa de ressonância do feminismo brasileiro”.
“Jerônima fundou, juntamente com Bertha Lutz e Maria Eugênia de Mendonça, a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, em 1920 e, em 14 de agosto de 1934, lançou, ao lado de suas companheiras, um manifesto à nação - o Manifesto feminista. A Federação organizou, em 1922, na capital carioca, o primeiro Congresso Internacional Feminista, que contou com a presença de Carrie Chapman Catt, a principal líder sufragista americana. Em 1947, Jerônima, Bertha Lutz e Maria Eugênia fundaram, no Rio de Janeiro, o Conselho Nacional das Mulheres, uma organização cultural, não governamental, que teve por objetivo a defesa da condição da mulher.
Em 14 de dezembro de 1918, logo após o fim da Primeira Guerra Mundial, Bertha Lutz escreveu um artigo para a ‘Revista da Semana’ que teve enorme repercussão na sociedade, trazendo os seguintes termos: ‘Tudo quanto está sucedendo estava previsto. As predecessoras vão começar aprendendo a ser a expressão fiel e sincera de um regime social e político da igualdade humana. A mulher que não pudera conseguir ser compreendida na Declaração dos Direitos do Homem proclamados pela Revolução Francesa, a grande paria e dolorosa escrava, que usa braceletes de ouro em memória das algemas de ferro, foi libertada pela guerra e sentada ao lado do homem no trono da terra. As mulheres russas, finlandesas, dinamarquesas, norueguesas, suecas, alemãs e inglesas – quer dizer, uns cento e vinte milhões de mulheres na velha Europa – já partilham ou brevemente partilharão do governo, não só contribuindo com seu voto para a eleição dos legisladores, como podendo ser elas próprias eleitas para o exercício do poder legislativo. (...) Todos os dias se leem nos jornais e revistas do Rio apreciações deprimentes para a mulher. Não há, talvez, cidade do mundo onde se respeite menos a mulher. (...) O que deve consolar a brasileira é que os homens que essas coisas escrevem são piores do que a pior das mulheres. E são esses os seus mais severos juízes...! Que importa que alguns jornalistas satíricos nos continuem a considerar os “animais de cabelos compridos e ideias curtas”, quando o chefe da mais poderosa república do mundo (...) proclama que a “contribuição das mulheres para o grande resultado da guerra está fora dos limites da gratidão”, (...) A homenagem mínima que lhes podemos prestar é torná-las iguais aos homens no que respeita aos direitos’.
Bertha Lutz fomentou durante toda uma década muitas negociações com políticos e instituições em busca de apoio para a luta pelo direito ao voto. Em 1932 conseguiu - ao lado de outras ativistas - que o então presidente Getúlio Vargas assinasse o direito ao voto feminino.”
Então, tu que adoras levantar o dedo contra as feministas, criticar as pautas do movimento ou usar termos pejorativos, convém refletir antes de comparecer às urnas. Não sejas incoerente. Tu que és contra o feminismo, considera a contradição de utilizar os benefícios que a mobilização histórica conquistou. Abdicar da participação política para manter uma postura restrita ao ambiente doméstico seria a consequência lógica dessa visão.
Existe orgulho em defender os direitos das mulheres e continuar o projeto de pioneiras como a escritora e poeta Nísia Floresta, que escreveu o livro ‘Direitos das mulheres e injustiça dos homens’ em 1832, considerado a primeira obra da América Latina a defender a emancipação feminina.
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| Isab-El Cristina |
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| Arte:Waldemar Max |
EM SUA SOPA, EU SOU A MOSCA
NO SEU PRATO A
ZUMBIZAR!

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