
Hoje eu vou falar de um tema polêmico: o livro didático. Sou professora, formada em Letras e trabalhei alguns anos na área antes de “cair” na Educação Infantil (um dia me explico melhor). Uma das minhas regras básicas sempre foi: jamais darei uma aula a qual eu odiaria assistir enquanto aluna. Inclusive, fui uma aluna muito difícil, vivia no famoso SOE ou de castigo na biblioteca (o melhor castigo do mundo!).
O que eu mais odiava na escola era o “bendito” livro didático, que sempre trazia um texto chato, nada a ver com o meu mundo (falando das aulas de português), com exercícios mais chatos ainda, como preencher lacuna, marcar “verdadeiro” ou “falso” e responder questionário com cópias do texto. Minha alma sangra só de lembrar! Imaginem eu, com 12 anos, colecionando as figurinhas dos Pokemon, pensando em chegar em casa para brincar com minhas bonecas ou jogar no 64, tendo de ler um texto sobre aborto (sim, aborto!) e opinar sobre isso também! Tudo que eu conhecia sobre aborto era o que passava na Maria do Bairro e nas Chiquititas! Nem Cavaleiros dos Zodíacos pode me ajudar nisso! Claro que eu tinha três ou quatro colegas com vida sexual na minha sala de 34 alunos, porém o resto de nós só pensava no lanche do recreio e onde seria o nosso “ferrolho”, caso outra turma já ocupasse nosso espaço no pátio.
Enfim, nunca que os livros didáticos forçados pelos governos fizeram algum sentido para nós (alunos e professores)! Foi com essa certeza que levei meu trabalho como professora de português. Mesmo nas turmas de Ensino Médio, eu sempre trouxe textos relacionados com os perfis das turmas, organizava jogos, trabalhos de pesquisa, teatros, brincadeiras e filmes que pudessem expor a nossa língua e desafiar os alunos a explorá-la.
Pois nesse ano, no município o qual presto serviços, crianças de 4, 5 e 6 anos estão sendo “forçadas” a realizar exercícios nos tais livros didáticos. É doloroso de ver! Pra mim fica claro que é o encaixotamento didático exercendo sua função! Agora vamos nos perguntar o que podemos esperar dessa pressa em aprisionar e encaixotar as crianças desde cedo. Do que o governo tanto tem medo?
Com a caixinha didática desde o “prézinho” a decepção com a escola já inicia mais cedo, o automatismo é bem exercitado, os ignorantes passam a mandar mais dentro das escolas sem precisar entrar um dia sequer numa delas e a sociedade se aprimora na sua submissão e cegueira plena.
Pronto, falei! Agora podem me queimar na fogueira como bruxa.
Miriam Coelho é artista das imagens e das palavras



4 Comentários
Você será queimada na fogueira com bruxa!!! Kkkkk ... Excelente! É isso mesmo. E a qualidade de muitos destes materiais, feitos por conteudistas, deixam a desejar.
ResponderExcluirConcordo contigo sobre o livro didático, no minha educação foram raros os professores que usaram o livro didático, lembro apenas de dois, um extremamente preguiçoso, que deu várias matérias e não tinha formação nenhuma. E o outro usava apenas como referência e fonte de pesquisa para nós, não usava só um mas vários, nas aulas de ciências iniciou pesquisas com nós, eu sempre fazia a pesquisa externa dos animais, quando tinha que abrir eu ia no banheiro e lá ficava chorando de pena. Comparavamos os animais com os diversos livros didáticos, já que era escola do estado e infelizmente não tinha recursos a livros melhores como ele mesmo dizia.
ResponderExcluirNossa! Vocês tinham de matar os animais e abrir!? Tensooo! Eu não teria coragem também! Usar o livro didático como uma das fontes de pesquisa é dar a este material uma função mais digna. Contudo usá-lo em aula todos os dias e obrigar os alunas a seguir aquele roteiro chato é igual a matar aula!
ExcluirPoxa ... me livrei disso, nunca tive que abrir bichinho nenhum!!!! kkkk ... é um bom texto este da Miriam, vale a pena refletir. Aliás, tudo que refere educação e sistemas de ensino merecem atenção! É assunto dinâmico, precisa de constante evolução e debates!
ResponderExcluir