
As armas e os barões
Então naquele dia a professora de português começou a leitura, falando do lance de armas na praia não sei que lá. Não entendi direito, tava todo mundo ainda meio agitado depois do recreio e meu colega da carteira ao lado ficava me provocando com o resultado do último jogo do Fortaleza. Muito babaca ele, torcedor de time que nem aparece na série B do campeonato. Nada a ver.
Lembro a professora lendo que esses barões tavam com armas assinaladas e foram se pegar na praia ocidental, em um lugar muito zoeira, chamado Taprobana. Pela cara que ela fez deve ser pra depois da nossa Escola, lá no Conjunto Jereissati III ou ainda mais longe, nas quebradas do Maranguape. Sem falar do motivo da briga, que deve ter sido sinistra, pois saíram mar adentro viajando e comendo comida estragada até um monte de lugar diferente. Isso na época das caravelas, que não tinham motor nem nada, era coisa difícil de navegar pra caralho.
Fiquei pensando como o tal Luís de Camões escreveu tanta coisa se tinha um olho só. Atrevido, o bicho. Mandava calar Alexandre, Trajano e outros caras só pra escutarem o canto dele e as histórias de navegador, essa gente que é um tipo de pescador que não perde tempo pescando e fica sempre preocupado em chegar em outro lugar. Achava até que a professora queria que a gente se sentisse uma dessas tribos conquistadas, sendo obrigados a escutar essa porra toda. Mas que dava pra ver que o Luís era invocado que só, dava. Ele só queria saber do peito lusitano, que era outro valor que se alevantava e tal.
Nessa hora eu ri. Por que é que a gente leva nota baixa quando escreve “alevanta” e ele pode dizer sem problema algum? É só ser famoso que pode falar errado? Vou ter de virar escritor famoso também? Eu até queria formar uma banda de forró- sertanejo com toque coreano, aí eu ia falar do jeito que quisesse e ganhar muuuito dinheiro sem que ninguém disesse um ai. Então a professora me ouviu rindo e fez um psiu bem alto, olhando pra mim com cara feia. Me deu um ódio.
Resultado: peguei essas armas e esses barões da praia ocidental e etcétera, querendo me vingar, pra justamente aprender as táticas deles e impressionar a professora e todo mundo. Fui ler de verdade, nem falei pra turma lá do bairro, desapreci das esquinas. E não é que comecei a viajar no barato, cara? Lá pelo meio achei até uma fala do Luís usando o verbo mangar, esse que a gente usa por aqui e um cara paulista um dia riu achando que não existe, quando eu falei. Descobri que é português castiço, olhaí. E eu pensando esse tempo todo que era só ignorante.
Então fica assim.
Vou seguindo o livro, acompanhando a fala meio enrolada do Luís nessas aventuras dele que agora são também
minhas. Dois meses encarando o livro aberto. Não sei se a paciência acaba, mas vou por aí, batendo nas sílabas feito ondas, volteando os pontos mais
difíceis, contornando dicionários. Quando me acho na calmaria boa depois de
entender uma frase, abro sorriso de enseada. Sigo sem pressa, meu diário de
bordo é minha própria história de leitor. Já fiz redação de nota boa, a
professora leu em sala. Agora é minha vez de dizer que os barões se cuidem, pois
a negada aqui aprendeu a navegar.
| Paulo Malburk |
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| Arte:Waldemar Max |
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