Jesus Nazareno nasceu dia 24 de dezembro às 23h55. Era o quarto de cinco filhos de uma mãe solteira. Cada criança tinha um pai, mas nenhum era presente.
Maria, a mãe de Jesus, trabalhava em casas de família como diarista e neste Natal uma das patroas pediu para que ela dobrasse o serviço, pagaria uma diária a cada 6 horas trabalhadas mais o adicional noturno. Maria ficou eufórica, poderia comprar o gás e ainda um presentinho simples para cada um dos filhos. Também sabia que poderia levar as sobras da festa para alimentar as crianças, eles adoravam aquelas comidas “chiques”.
O irmão mais velho do Jesus estava preso na FASE por furto qualificado, o segundo irmão também já estava envolvido com traficantes, passava mais tempo na casa do “dono da boca” do que na casa da sua mãe. O terceiro filho não queria mais estudar, mas ainda mantinha um pouco de respeito pela mãe e ainda era muito pequeno para ser “adotado” pelo crime. Jesus era o mais centrado. Gostava de ir à escola, não somente pela merenda que muitas vezes era a única refeição que tinha, mas porque gostava de estudar. Sonhava com um futuro onde poderia alugar um apartamento para a mãe e o irmão. Achava bonito olhar aqueles arranha-céus e ficava imaginando como seria morar lá. O pequeno Emmanuel era quase um bebê e era Jesus quem cuidava dele para a mãe trabalhar. Jesus estuda no turno da manhã e deixava o pequeno irmão dormindo sozinho no barraco, a vizinha do lado sabia que o bebê estava sozinho e ficava de olho. Sempre ia lá logo que o Jesus saia, precisava ver se tudo estava bem, se nenhuma fonte de fogo havia ficado acesa... No final da manhã ele voltava correndo para dar almoço para o pequeno. Os colegas debocham, ele nunca tinha tempo para jogar uma bolinha depois da escola.
Dia 24 chegou e logo pela manhã a mãe já descia o morro, tinha que chegar cedo na casa da patroa. Tinha muita coisa a ser feita para a ceia. A patroa confiava muito nela e este ano seria ela quem faria a ceia, uma grande honra. Antes de sair, Maria acordou o Jesus, passou-lhe algumas instruções, beijou-lhe o rosto, acariciou o pequeno Emmanuel que ainda dormia e saiu, sentia o coração apertado, mas tinha que trabalhar.
Jesus acordou mais tarde, aqueceu na espiriteira o chá de erva-cidreira que a mãe havia deixado pronto, partiu o pãozinho em dois e sentou-se ao lado do irmãozinho para tomar o “café da manhã”. Jesus sabia que o almoço seria apenas polenta e que deveria sobrar para o jantar. A mãe não voltaria para a ceia, só chegaria na madrugada do dia seguinte. Hoje ele seria o “homem da casa” e cuidaria de Emmanuel até o dia seguinte. O irmão do meio, ao perceber que a mãe não estava, “botou o pé no mundo”. Jesus não contava com ele para nada.
As crianças passaram bem até que Emmanuel começou a choramingar de saudade da mãe, isso já no meio da tarde. Jesus tratou de fazer brincadeiras para entretê-lo e depois convenceu o irmão a tirar um cochilo. A noite caiu e Emmanuel começou a ficar agitado. O barraco estava sem luz e Jesus não quis ascender velas, ficou com certo receio de fogo desde que viu um barraco queimar. Comeram a polenta fria e sem molho, era só o que tinha de jantar e Jesus levou Emmanuel até o outro lado do morro de onde podiam ver as luzes da cidade lá embaixo.
Ficaram sentados olhando as luzes até quase meia noite quando Jesus teve a ideia de descerem o morro para olharem as crianças ganhando brinquedos. Ele já sabia como era, mas o irmãozinho, não. Pegou firme a mão do pequeno e caminharam em direção ao asfalto. Passou por uma rua fechada no pé do morro. A vizinhança fazia festa no meio da rua. Via pela janela as mesas fartas de comida e quando o irmãozinho falou que tinha muita comida, Jesus, na intenção de amenizar a fome do garoto disse que aquilo era tudo muito ruim, que ele não gostaria daquela comida.
Viam as crianças brincando com os presentes novos, recém ganhos. Na rua seguinte a visão era ainda mais perturbadora: as famílias eram mais ricas, as ceias eram maiores e os brinquedos das crianças eram melhores.
Jesus começou a sentir sono, mas Emmanuel estava encantado com as luzes, as risadas e as comidas e queria continuar desbravando aquele mundo novo.
As crianças caminharam por muito tempo até que Jesus percebeu que não sabia onde estava, não sabia para que lado era sua casa. Lembrou de não pedir ajuda, pois a mãe sempre dizia que poderia tirá-los dela se achassem que ela não era capaz de cuidar deles. Emmanuel começou a sentir o cansaço e queria colo, também estava com fome e sede. Os fogos de artifício rasgaram os céus... era muita alegria para todos, menos para eles. Emmanuel estava cansado e Jesus estava perdido, mas não falou, não podia assustar o irmãozinho.
Chegaram a uma grande avenida, do outro lado da rua havia um posto de gasolina e Jesus viu um rapaz jogar no lixo a metade de um sanduíche e uma garrafa de Coca-Cola pela metade. Sentou Emmanuel num banco e disse: - Mano, fica aqui, vou ali pegar aquele sanduíche. Não vou te levar junto porque se eu precisar correr tu vai me atrapalhar...
- Não vai embora, tenho medo de ficar sozinho... quero a mamãe...
Jesus beijou a cabecinha do irmão e insistiu:
- Vou buscar um pão bem gostoso para ti... não te assusta, já volto.
Passava poucos minutos da meia-noite, já era dia 25 de dezembro. Jesus olhou para ambos os lados, ele sempre conferia para atravessar a rua, quando estava no meio da via um carro dobrou em alta velocidade e o atingiu em cheio, jogando o pequeno corpo no ar, como se fosse uma pandorga, aterrissando com violência no asfalto ainda quente pelo sol da tarde. O motorista, bêbedo, apenas olhou pelo retrovisor e seguiu seu rumo. Era menor de idade, não poderia parar o carro, não tinha carteira. Havia pego escondido o carro da mãe e precisava chegar logo em casa.
Na casa onde a Maria cozinhava a patroa reclama: - Aquele guri irresponsável pegou meu carro de novo. Hoje ele ficará de castigo, não darei o IPhone que ele quer...
Maria sente algo estranho, mas não sabe explicar... Na Avenida Emmanuel chora sentado na calçada, o corpo de Jesus foi jogado atrás da lixeira e ficara oculto. Uma mulher que lá passava perguntou ao garoto: - O que houve, criança? Porque está chorando?
- Jesus morreu... – gritava o pequeno...
- Não seja bobo, guri, Jesus nasceu... – saiu rindo, sem ao menos ouvir a criança...
Enquanto todos brindavam o Natal com muita comilança e presentes, Jesus jazia morto numa avenida qualquer e ninguém se importava com isso. Apenas o irmãozinho que não sabia para onde ir.
Jesus já morreu faz tempo. Hoje o Natal é só a festa, a comida e os presentes. Na verdade, Jesus é o menos importante neste dia.
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| Isab-El Cristina |
EM SUA SOPA, EU SOU A MOSCA
NO SEU PRATO A
ZUMBIZAR!


4 Comentários
Cristina, que texto forte e necessário. Já disse Dom Helder: "quando dou comida aos pobres sou chamado de santo, quando questiono a origem da pobreza, sou chamado de comunista".
ResponderExcluirOi, Nestor. Obrigada pelo retorno. Dom Hélder sempre teve razão.
ExcluirBah que texto pesado!!! É mesmo para refletirmos sobre que Jesus estamos festejando...
ResponderExcluirOi, Tânia, obrigada pelo retorno. Feliz ano novo, miga.
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