
Homo peniquensis
Os
antropólogos ensinam que a civilização surgiu com o fim da vida nômade e a
descoberta da agricultura. Ao ganhar raízes próprias — no caso, emprestadas — a
humanidade garantiu alimento e criou o futuro a longo prazo. De quebra ainda
inventou novos tipos de gente, como os profetas da chuva, os atravessadores de
hortifrutigrangeiros e os apreciadores de quiabo e de jiló. Mas essa nova
qualidade de vida não trouxe só flores:
apesar da segurança de grãos guardados na despensa, surgiram problemas.
Ataques de pragas e insetos passaram a ser rotina, exigindo novas estratégias
de defesa como pomadas, unguentos, terapias de todo tipo e a invenção da
profilaxia — até o cafuné virou pretexto para catar piolho em alguém. Isto sem
falar da luta cotidiana com outros inconvenientes da vida sedentária, como
colchão mofado, brigas de vizinhos, assédio de vendedores de imóveis e a
obrigação de varrer a louça e de lavar a casa – não necessariamente nesta
ordem.
A partir daí vem se repetindo a receita básica
de nosso estilo de vida: trabalhar, dormir, reclamar da bagunça, esquecer itens
da lista de compras na hora do supermercado, comer em horários certos
observando as calorias certas e processar tudo isso. A própria arquitetura das moradas reflete o
modo pelo qual dividimos os tempos das atividades, seja na busca de objetos
perdidos e execução das tarefas de higiene, sono ou correria dos compromissos
de última hora. É curioso notar, por
exemplo, como nas casas antigas brasileiras o corredor lateral prevalecia sobre
os demais cômodos, permitindo – em um trajeto só — exercer o domínio
geográfico-comportamental do lugar. Era muito fácil bisbilhotar a intimidade
dos quartos, que mais pareciam celas de prisioneiros de alta periculosidade, só
faltando a janelinha de observação. Mas banheiro mesmo que é bom, nem pensar. O
que havia era um cercadinho no fundo do quintal, onde ir à noite implicava em
aventura sujeita a encontro com sapos, cobras, almas penadas e outras
assombrações.
Tempos
heroicos, esses, em que reinava soberano o penico, hoje injustamente esquecido.
No meio da precariedade de conforto doméstico o penico era a garantia de
solidariedade incondicional na hora mais difícil, a expressão de uma liberdade
negada em outros espaços, o encontro possível do indivíduo com seu próprio ser.
Cada um tinha o seu, claro, não havia concessão possível para empréstimo nem
uso em condomínio. Quanto à confecção
ele era básico, de desenho singelo e dócil ao uso, apenas se distinguindo uns
dos outros pelo tamanho — os dos adultos e os das crianças — e de algum modo
pela distinção social a ser mantida entre patrões e empregados. Feitos de metal, por vezes revestidos de
ágata e monocromáticos, de raras estampas. Todos eles estrategicamente
guardados debaixo da cama — não por conta de recato ou de pudor, mas para
evitar que um chute involuntário provocasse o tilintar de mau presságio no meio
da noite.
Hoje
em dia o penico é uma espécie de renegado, superado que foi pelo conforto da
água encanada e do aparelho sanitário com válvula de pressão. Em algumas velhas
casas, porém ele sobrevive – como na que foi da minha tia-avó, um verdadeiro
museu (a casa, não a tia). É uma forma de homenagem discreta, acolhido no
quarto de despejo, sem qualquer sinal distintivo nem inscrição para a
posteridade. Após tantos serviços prestados, repousam lá os penicos como velhos
guerreiros, em estado de prontidão. Em seu silêncio coisal falam muito de um
tempo contraditório, misto de distinção social e de isonômica precariedade,
quando as pessoas inauguravam o dia levando-os pelo corredor rumo ao cercadinho
do quintal, cada uma com seu tributo por despachar. Pareciam evocar um rito
imemorial, do qual já não se sabia mais origem nem escatologia.
Lembro
de encontrar minha tia-avó em uma dessas passagens matutinas, sorrindo ao me
ver, sem qualquer constrangimento do utensílio com a prova de serviços
prestados. Tudo isso mudou. Hoje em dia buscamos o anonimato até quando vamos
ao laboratório de análises clínicas, torcendo para que não surja nenhum
conhecido na fila da entrega do material. Longe se vão os tempos da
autenticidade de tantas tradições domésticas, hoje extintas. Mas todo esse esforço não foi em vão! Ao
menos no caso do penico é preciso dizer que ele será, até o fim dos tempos, o
elo de ligação do mundo civilizado com nosso passado ancestral, aquele que
existiu até os assentados da agricultura interromperem a divagação pelos campos
e florestas, quando cada bicho se virava como podia, na hora do aperto.
| Paulo Malburk |
PROPÓSITO DE NÃO SER
A CULTURA E A ARTE!

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