VIAGEM AO PASSADO: CEL. BORDINI (PARTE 1)

No último domingo saiu o texto sobre a Acadêmicos de Niterói, nele eu cito os locais onde morei antes de vir para Gravataí. E foi lendo este texto que o Jorginho me lançou o desafio de visitar estes lugares e escrever sobre eles. Como eu adoro desafios, na segunda- feira, logo pela manhã, eu já estava me preparando psicologicamente para a jornada da “viagem ao passado”. Farei o relato em duas partes para não ficar muito longo, pois a casa da Cel. Bordini requer um capítulo especial.
A primeira parada foi na casa onde nasci, na Cel. Bordini, bairro Floresta, Porto Alegre. Meus avós moraram lá muito antes do meu nascimento. Lá eu vivi até quase meus 13 anos, após a partida da minha avó, quando o proprietário pediu o imóvel. Agora o local abriga uma estética e isso tornou a visita mais fácil, tive coragem de apertar a campainha.
Logo que ouvi o clic do portão se abrindo, meu corpo todo começou a tremer. Mais ou menos 51 anos sem entrar na casa, era muita emoção. As lágrimas rolaram livremente enquanto eu subia aquelas escadas, as mesmas escadas que muitas vezes eu corria, hoje com passos lentos subia olhando cada pedacinho. Quando cheguei na dobra, uma moça sorridente veio me receber e se assustou com minhas lágrimas. Eu chorava e sorria ao mesmo tempo,tentando acalmá-la, gaguejando muito, dizia que estava tudo bem. Outras duas moças vieram ver o que acontecia e com expressão muito assustadas perguntavam o que tinha acontecido.

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As meninas da estética Gaia são umas queridas, me receberam muito bem. As proprietárias Stefani e Amanda me deixaram a vontade e eu visitei cada centímetro daquele lugar. As pernas tremiam muito e fui conduzida para a recepção da estética, onde outrora era o quarto da minha avó. Procurei o armário embutido com os olhos e encontrei um espelho, ao abrir vi o mesmo “piso” do armário, geladinho, onde muitas vezes forrei com um acolchoadinho e fiquei ali, deitada, lendo, tendo a cachorrinha Sarita como companhia. As prateleiras ainda são as mesmas, a mesma madeira. Mas estava tão pequeno... eu lembrava de um armário grande... Da sacada onde minha avó ficava tomando chimarrão e me cuidando na saída da escola eu vi o prédio da escola Daltro Filho, hoje abandonado, quase em ruínas. Um lindo prédio que poderia abrigar um local cultural, ali, abandonado. Foi muito dolorido ver a negligência do poder público diante daquele prédio. A sala, que na minha memória era imensa, é uma sala de ótimo tamanho, logo na subida da escada. Comentei com a Amanda que a memória da gente prega peças. Na minha lembrança tudo era maior, mais espaçoso. Meu padrinho, o Dodô, ao ouvir meu relato, comentou que uma ervilha, aos olhos de um bebê, é do tamanho de uma bola de golfe, já minha madrinha, Tânia, compartilha comigo a lembrança de uma casa imensa. Uma brincadeira da nossa Imaginação.
Lembrei do meu tio Neri cuidando de mim, me levando para a escola, me ajudando nas tarefas escolares... da Neide que fazia o melhor ovo frito do planeta (aliás só fazia para mim). Lembrei do Dodô, da Susi, Tia Hélia, Tia Uca, Tânia, Tony, da minha bisavó Olímpia...
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| Bisavó Olimpia |
Lembrei do dia que meu avô partiu e eu fiquei na casa da Dona Noemi e do Seu Pacheco até o corpo chegar, pois seria velado na sala da casa (comum na época). Quando a Neide foi me buscar para que eu pudesse me despedir dele, a Iara, filha da Noemi e Pacheco, proprietária da Floricultura Borboleta, deu um buquê de rosas vermelhas, preferidas do vô, para colocar no caixão. Essa foi a primeira perda da minha vida, mesmo não entendendo nada eu sabia que nunca mais o veria. Quinze dias depois eu comemorava 7 anos junto com a Simone, 5 anos, na casa dela. A Iara pediu para a vó para que deixasse eu comemorar na casa dela, já que não tinha clima para fazer festa na minha casa. A Simone era do dia 14 e eu dia 16. Lembrei do pior dia da minha infância, quando minha avó partiu. Aos 12 anos eu me sentia órfã. Minha avó era mais do que avó, era minha mãe... A dor era quase física... Agora eu entendia o que era perder quem a gente ama...
As janelas são as mesmas, o mesmo madeiramento, as mesmas persianas... a porta da frente ainda com as mesmas fechaduras, os mesmos ferrolhos e trincos. A conservação da arquitetura, dos detalhes, é impressionante. Na cozinha eu senti os cheiros da minha infância, como se a vó estivesse lá, naquele momento. Senti cheiro de café com leite e pão quente, cheiro de milho sendo cozido com sal e senti o gosto do quibebe. A tarde estava quente, mas eu tinha a sensação de que ao olhar para os vidros da janela da cozinha eu veria o vapor do fogão condensando no vidro onde eu desenhava corações para minha avó. Olhei rapidamente para o lado na esperança de ver a janela embaçada... mas não estava lá. Não tinha nada no fogão... aliás, nem o fogão estava lá... Senti o cheiro da fábrica de cigarros Souza Cruz que ficava na rua dos fundos, um cheiro adocicado, gostoso... mas era tudo lembrança..
O pátio onde tantos churrascos abrigou debaixo da goiabeira, já não existe mais a goiabeira, mas o espaço onde ficava a mesa cheia de “quitutes” da Dona Continha continua lá, como se a espera de uma nova festa, de nova comemoração de ano novo, data do aniversário do meu avô. No lugar do galinheiro agora existe uma edícula, ainda bem... Eu morria de medo das galinhas, elas corriam atrás de mim para bicar os sinais que tenho nas pernas. Por isso eu tenho tanto medo de galinha até hoje. Naquele pátio também tivemos pato, tatu e coelho, além dos cães Dog e Leci.
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| Canto da goiabeira |
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| Canto onde aconteciam as festas |
Na hora de ir embora eu pude observar com mais calma a escada da frente. Os degraus, bem como os azulejos da casa e o piso da cozinha e da copa foram pintados, mas são os mesmos. Eu descia correndo a escadaria e quando faltavam cinco degraus eu pulava. O quinto degrau é mais largo, era ali que eu dava aula para minhas amiguinhas, principalmente para a Simone e Paula.
Na escada do lado de fora da porta eu lembrei da foto que tenho com a Simona, minha priminha. Ela, bem pequena, eu já maiorzinha e emburrada... foi naquele dia que descobri que a MINHA avó também era avó dela... Como assim? Eu teria que dividir minha avó com ela? Mas foi só naquele dia que tive ciúmes, eu amo minhas priminhas. Depois ainda tive que dividir com a Sônia, irmã dela... afff... kkk. Detalhe: minha amiga era a Simone, minha prima era Simona, não confundam.
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| Com Simona |
Ainda teria muito o que contar, mas ficaria um texto muito longo. Naquela casa vivi os melhores e piores dias da minha vida. Mas sempre cercada de muito, muito, muito amor. Não teve nenhum pedacinho daquela casa que eu não sentisse a presença dos meus padrinhos Dodô e Tânia, das tias Hélia e Uca, do Neri, da vó, do vô... Do meu pai que mesmo separado da minha mãe nunca ficou mais de três dias sem me ver. Que me acompanhou por todos os lugares onde eu estive, que fez da minha vida o motivo da sua... que me cuidou até seus 80 anos quando partiu...
Meu Deus... como foi bom voltar lá...! Como foi bom lembrar do quanto eu amo essa família e do quanto eu sou amada. Ainda essa semana minha madrinha me fez chorar, após ler meu texto sobre o Carnaval ela mandou mensagem dizendo que tem muito orgulho de mim... eu queria estar perto dela e lhe dar um grande cheiro, um grande abraço, um grande carinho, a Tânia mora em Santa Catarina e eu sinto muita saudade. Meu tio Neri que me disse que me ama e eu chorei como criança no telefone, ele mora em São Paulo e eu queria estar com ele pois sei o quanto ele está sozinho lá.

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| Antiga sala da casa |
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| Em cima salão do avô, embaixo atualmente. |
Essa cambada de doidos chamados Família Gama é parte do que eu sou e eu sou o resultado de todo o amor que recebi deles quando criança. Eles preencheram qualquer vazio que eu tenha sentido. Mesmo aqueles que não citei aqui, mas que fazem parte da minha vida, eu amo vocês.
Meu carinho especial a Stefani e Amanda, proprietárias da Estética Gaia, que me permitiram fazer essa viagem tão linda, minha eterna gratidão.
Jorginho, obrigada pela dica. Graças a ti eu vivi isso. Eu revivi toda a alegria de ser criança e reencontrei a Tina que estava perdida em algum lugar dentro de mim. A menina guerreira que nunca se deixou abater mesmo diante de alguns percalços. A Isab-El de hoje tem orgulho da Tina criança que morou na Cel. Bordini. Resta saber se a Tina criança tem orgulho da mulher que me tornei.
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| Com os padrinhos Paulo (Dodô) e Tânia |
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| os mesmos ferrolhos, a mesma porta, o mesmo azuleijo |
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| Aqui ficava a cozinha, onde minha avó passava a maior parte do tempo |
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| De mão dada com meu pai |
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| Gamarada, amo todos vocês! |
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| Isab-El Cristina |
EM SUA SOPA, EU SOU A MOSCA
NO SEU PRATO A
ZUMBIZAR!


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1 Comentários
Achei lindo muitas lembranças minhas tbm 😍
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