O INÍCIO DO FIM
Eu era jovem. Acreditava que tudo o que ele reclamava era por amor. Logo no início ele implicou com meu short. Dizia que era muito curto, que eu estava me oferecendo. Que era uma vergonha para ele. Me fez comprar uns vestidos de pessoa mais velha, de senhora. - Sou assim porque te amo. Tenho ciúmes de ti.- dizia ele.
Ora... eu ia nas nuvens... se ele tem ciúmes é porque me ama... Eu me sentia importante. Logo passou a rasgar minhas roupas, me obrigando a usar só as que ele aprovava. Meu cabelo eu não podia mais usar solto, afinal meu cabelo era feio, eu era feia, gorda e burra...
Um dia eu estava me arrumando para uma festa, éramos padrinhos de casamento do primo dele. Passei um lápis, baton e sombra discretos. Já na porta da casa ele passou a mão molhada na minha cara, borrando tudo. -Parece uma palhaça com a cara pintada deste jeito. – gritava ele. Chorei muito, mas ele pediu desculpas, disse que estava cansado e nervoso. Lavei o rosto e saímos. Fui de cara lavada e roupa brega. Mas eu sabia, era ciúmes. Ele me amava... Parei de estudar. Todo dia tinha um escândalo. Ele ia na escola, me via conversando com os colegas e quando eu chegava em casa ele me chamava de vagabunda, puta, oferecida. Depois chorava e dizia que me amava. Depois de cada escândalo era uma joia, uma flor, bombons... Um dia implicou com minha amiga. Disse que ela era “sapatão” (palavras dele). A outra era vagabunda. A outra era viciada... e assim me afastou de todas as amigas, da família, dos meus pais, irmãos... Ele me queria só para ele e isso, de certa forma, me envaidecia... Falava que precisava cuidar da família.
Logo vieram os filhos e com eles os empurrões, as ameaças de um tapa, um soco... Me chamava de feia, gorda, que não tinha mais tesão por mim. Com duas crianças pequenas eu tinha muito trabalho e muitas vezes eu não queria transar, mas ele me pegava a força, me machucava e depois dizia que era só “para esvaziar o saco”.
Elogiava as mulheres bonitas. Falava que a fulana andava sempre arrumada, cheirosa, com o cabelo arrumado e que eu vivia como uma molambenta, fedendo a alho e cabelo de vassoura. Mas não deixava eu me arrumar...

Comecei a fazer artesanato. Eu queria juntar um dinheirinho que fosse meu. Queria arrumar meu cabelo, comprar um perfume... Passava o dia todo fechada em casa com as crianças, fazendo artesanato. Ele reclamava de tudo, mas pegava todo o dinheiro que eu ganhava. Um dia fui nas Americanas comprar uma loção pós banho, pois perfume era muito caro. Foi aí que ele passou a não comprar mais alimento para nós e eu tive que bancar a alimentação das crianças. Os empurrões ficaram mais fortes. Uma vez caí e bati a cabeça. Fiquei desacordada por algum tempo. Acordei com ele assustado, chorando ao meu lado. Pediu perdão e eu fui pegar meus documentos para ir para UPA, eu tinha um grande corte no rosto, um galo na cabeça e um braço quebrado. Meus documentos não estavam mais no lugar de sempre, estavam com ele, no escritório dele, no cofre dele. Quando perguntei ele disse que era para eu não ir a lugar nenhum.
Meu pai não me reconheceu. Eu estava velha, assustada e ele gritava comigo toda hora. Justifiquei para meu pai que ele estava nervoso, que não era sempre assim... eu sabia que era mentira, mas tinha vergonha, afinal a culpa era minha... eu não era uma boa esposa... Meu irmão veio me visitar. Ele se emburrou e foi para o quarto. Quando meu irmão foi embora eu levei um tapa na cara porque meu irmão me chamou de “meu amor”. Na sua loucura disse que eu estava transando com meu irmão. A vizinhança toda ouviu ele gritar que eu era vagabunda que estava transando com meu irmão e que ele era a vítima, o corno.
Com vários hematomas peguei meu filho no colo e o outro pela mão e fui na Delegacia da Mulher. Mas no outro dia, depois de ouvir ele pedir perdão e jurar que não faria mais, que seria outro homem, que me amava, retirei a queixa. Eu ainda acreditava no amor dele... Ele levou as crianças para a casa da mãe dele para que tivéssemos uma noite de amor. E eu acreditei...
Após vários socos no rosto enquanto era violentada, já quase desfalecida, senti o cano da arma na minha boca... E toda a dor sumiu...
Eu não havia percebido os sinais desde o início... O início do meu fim...
![]() |
| Isab-El Cristina |
EM SUA SOPA, EU SOU A MOSCA
NO SEU PRATO A
ZUMBIZAR!




0 Comentários