
A meritocracia, o orgulho de se matar de trabalhar e outras mentiras implantadas

Por
que um sistema tão vil e perverso ainda está de pé? À primeira vista fica
difícil entender, mas, fazendo uma análise com um mínimo de profundidade,
podemos pontuar algumas das ferramentas utilizadas para manter as coisas
exatamente como estão. Neste pequeno escrito, gostaria de focar minhas
reflexões em cima da mentira, que, junto com o medo, é uma das principais
ferramenta de manutenção do status quo.
Desde
que nascemos (Na verdade, ainda durante a gestação) somos sabotados e
enganados, pois só assim para aderirmos aos valores torpes que nos são impostos
como únicos possíveis. Quando integramos a parcela mais pobre e miserável
então... Para simplificar, vamos contar a partir do nascimento, quando chegamos
ao mundo através de um serviço de saúde precário, posteriormente sendo
encaminhados para escolas que nem ao menos mereceriam esse nome, entre outras
instituições que compõem as engrenagens da grande máquina social. Para os
lançados em situações extremas, a alimentação não existe. O que temos é uma
comida pouca, de baixa qualidade, conseguida aqui e ali, quando tem. Hábitos,
como a leitura, por exemplo, são desestimulados e substituídos pela
artificialidade da tv e da "realidade" virtual (Isso os que tem
melhores condições, pois muitos não tem acesso nem a isso, que já é
insuficiente e não substitui um bom livro).
Aos
poucos, conceitos conformistas são implantados para que nosso adestramento
tenha sucesso. Com a falta de reflexão, questionamento e um raciocínio limitado
estas ideias prontas são facilmente absorvidas.
Ensinam
que, trabalhando bastante, todos tem chances de crescimento financeiro, que o
patrão é um cara bom e necessário, que nos ajuda dando emprego... Devemos até
ser agradecidos. Devemos ser bonzinhos e obedientes, aceitando todas as
arbitrariedades sociais como naturais e nos submetendo sem questionar.
Se
fosse verdade que a quantidade de horas dedicadas ao trabalho e o esforço
desprendido neste fosse o suficiente para mudar positivamente nossa realidade
financeira, os padeiros, professores, pedreiros, entre outros, seriam os mais
ricos da nossa sociedade. Mas o que se vê na prática é o contrário disso.
Quanto mais trabalha, menos remunerado é. O patrão também não é um cara
bonzinho que está te ajudando. Ele precisa de pessoas dispostas a fazer
qualquer coisa por um mínimo de valor possível e trabalhando o máximo que puder
para aumentar os lucros patronais.
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Com
o tempo essas e outras mentiras vão caindo por terra, assim como a existência
do Papai Noel e do Coelhinho da Páscoa. Mas novas mentiras vão surgindo como
avalanches soterrando quem ou o que encontram pela frente. Como a vida nessa
sociedade não faz sentido, a maioria vai desistindo de se debater e aos poucos
aceita a falácia para não cair no grande vazio que a vida é.
Novas
mentiras vão surgindo no decorrer da vida e na fase adulta, muitos aceitam
qualquer coisa que mascare a realidade medonha que nos cerca como uma besta
faminta.
Uma
das farsas mais divulgadas nos últimos tempos é a do empreendedorismo, onde o
trabalhador abre mão de todos os seus direitos na esperança de que consiga
melhor situação financeira. Obviamente mais uma miragem criada para favorecer
quem ganha mais nesse esquema. Mais mentiras, mais frustrações. Temos um verdadeiro
exército de entregadores que, se quebrarem uma perna em suas longas jornadas de
trabalho, onde acidentes acontecem, não terão direito ao tempo necessário e
remunerado para se recuperar. Motoristas de UBER e outros aplicativos sem
conseguir consertar seus carros para continuar a trabalhar quando alguma
manutenção mais cara se faz necessária. E a coisa segue assim. Todo mundo adora
contar histórias para sair bonito na foto, mas o que se vê na prática não tem
nada de bem sucedido. Até porque teríamos de discutir o que seria esse tal de
bem sucedido. Apenas uma tonelada a mais na balança da hipocrisia que nos
manipula para que tudo continue a favorecer os já mais que favorecidos.
Seria
gigantesca a lista com as mentiras implantadas cuidadosamente para nos formar
como robôs programando-a para seguir as regras arbitrárias que nos mantém
exatamente onde eles querem, como ratinhos girando a roda da gaiola. Corre,
corre e não sai do lugar. O horizonte é
um palmo diante do nariz.
A
fábrica ocupada Flasko é um grande exemplo de como a atitude pode denunciar e
jogar por terra estas lavagens cerebrais. Para quem não conhece a história
dessa fábrica, deve correr atrás. Não é difícil encontrar material sobre. Vale
a pena. Melhor que ficar perdendo tempo com as bobagens tão visualizadas hoje
em dia. Digamos que a fábrica foi a falência. Os funcionários continuaram a
produção por conta própria, as contas começaram a ser pagas em dia, melhoraram
as condições de trabalho e a vida de todos os funcionários melhorou. Foi só
tirar os patrões, não ter mais quem tenha a necessidade de gastar com lanchas,
carros importados e outras superficialidades que a coisa melhora.
Velhas
frases repetidas sem nenhum pensamento crítico também são muito eficientes no
reino da hipocrisia. Para citar apenas uma delas, vou lançar "O mundo
sempre foi assim e sempre será". Pois o mundo já foi de várias formas e
continua a mudar a cada dia.
Pensem
e questionem sempre. Repetir o que lhes é dito como papagaios acéfalos não é o
melhor caminho para se libertar destas correntes.
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