DEAMBULÂNCIAS

 Ládoladodelá

Esta semana os astronautas da missão Artemis regressaram a nosso planeta, depois de orbitarem a lua, e aí a palavra aterrissar nunca foi tão bem empregada. Foram cerca de treze dias indo e vindo, à custa de várias e várias voltas orbitais, sempre dando a impressão de quase irem para o lado errado. Uma grande proeza, considerando que a presença humana na lua data de mais de cinquenta anos; até já se tinha esquecido de como fazer, o que deu força a crenças de uma terra redondamente plana, nem adianta tentar dizer o contrário. Essa viagem é das mais complicadas, exige planejamento longo e detalhado, pois nem a estrada é de traço contínuo, nem a lua fica paradinha no espaço, aguardando a chegada dos visitantes. Tudo se move e por isso a pontaria tem de ser muito boa.

Dá pra ficar tonto com os detalhes exigidos para o roteiro, pois tanto a lua como a terra executam uma dança de elipses variadas, fazendo passes de abre-alas e de mestre-sala no carnaval do espaço, acompanhando o bloco da galáxia. O cenário inclui esvoaçar de pedras gigantes, asteroides tão obscuros que nem nome têm, mas letras combinadas com números. Certamente deve ser estratégia de marketing para manter fama de maus e nos obrigarem a ficar vigiando o espaço sideral o tempo todo. Nada da familiaridade dos nomes de deuses gregos e das entidades da mitologia, reservados para astros maiores e de maior previsibilidade. No caso deles (asteroides) a vocação para a marginalidade já está lá, aparece na sonoridade da partícula “óide”, a sugerir imitação barata, indigna de confiança e da qual é bom manter distância. São bólidos espaciais, a passar com velocidades loucas e distâncias perigosamente próximas, saindo do meio do breu mais radical, feito um gigantesco caminhão desgovernado e sem luz.

Como se não bastassem essas fortes emoções, nessa viagem os astronautas ainda tiveram que improvisar o conserto da privada espacial. Sem poderem contar com quintal, penico, posto de gasolina nem arbusto de estrada como alternativa, devem ter passado momentos de aflição. Felizmente a urgência foi resolvida, pois são profissionais treinados para todo tipo de missão, nem precisaram ligar para seu Raimundo Faz Tudo, que aliás naquela semana tinha saído de férias. Assim tiveram tempo de se preparar para a reentrada na atmosfera, achando o ângulo certo para não quicar fora da órbita nem serem torrados pela fricção do planeta, algo mais difícil de fazer que trafegar na Via Dutra em véspera de feriado.

O mais importante de tudo foi saber que eles viram o outro lado da lua, um outro ainda inédito, visto a uma distância inédita de órbita. Esse lado do lado de lá que Caetano Veloso já anunciava no carnaval baiano, mas que os astronautas tiveram que gastar bilhões de dólares e correr riscos imensos em cima de um foguete, só para ver de perto. E os bobos nem desconfiaram que não adianta tentar resolver essa questão, pois, sempre que a gente se muda, a distância muda também com a gente, e o outro lado passa agora a ser onde a gente antes estava e vice-versa. Acho que chamam isso dialética. Mas tenho de admitir que só de ver o azulão lindo do planeta já valeu. Tudo tem outro lado.


Paulo Malburk

Paulo Albuquerque, nome literário Paulo Malburk. Já foi filatélico e normativista, hoje é nefelibata e caçador do poético. Crônicas, mini-contos, contos e quase alguma coisa mais. Selecionado em coletâneas nacionais.


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