ISSO DÁ UMA CRÔNICA

 Novata no bairro

Foi numa manhã ensolarada de inverno que ela chegou. Eu sei porque eu estava lá. Passeava com Chico pela estrada entre os pastos quando a vi na outra calçada, caminhando em direção à vila. Capa preta sobre os ombros, um lenço branco cobrindo-lhe pescoço e peito, com ares de quem chega num lugar pela primeira vez. Quando chegamos à mesma altura, lançou um olhar receoso pro Chico — o tamanho dele basta para assustar quem não o conhece —, mas ele não deu sinal de querer atravessar a rua para importuná-la, e então ela continuou seu caminho. Faltava pouco pra Santa Luzia, dali já dava para ver a pontezinha sobre o rio e a padaria na esquina.

Confesso que já tinha esquecido o incidente, quando, no dia seguinte, a vi batendo perna pela vila. E no próximo também. E depois. E depois. Parecia que veio pra ficar: agora estava sempre ali — em frente à igreja, no portão de  alguma vizinha, acompanhando um grupinho de crianças no caminho à escola. No entanto, seu ar de forasteira errante permanecia, mesmo passados os primeiros dias. E deve ter sido seu olhar meigo e fugitivo, seu jeito de não saber onde se enfiar, que fez com que me reconhecesse nela — também já fui forasteira errante em terras desconhecidas.

Já a população local a recebeu com sentimentos mistos; alguns com indiferença, outros com olhares hostis, poucos com palavras carinhosas. Motoristas de carros e entregadores por aplicativo buzinavam para ela em tom de desprezo, e lhe era impossível passar na frente duma casa sem ser acometida por insultos latidos. Mais de uma vez vi um cachorro de rua ou uma vizinha indignada botando ela pra correr. Mas as crianças, sobretudo as meninas, gostavam de brincar com ela. Também fez amizade com as funcionárias da padaria — eram elas, mais a senhora que trabalha na peixaria, que no fim do expediente se compadeciam e lhe facilitavam uma água ou um pão dormido.

Já vai pra três meses que chegou na vila. A estação mudou, o frio passou, e ela continua aqui. Já sabe onde é benquista e em que portas bater quando a fome aperta demais. Sabe em qual varanda tem um cantinho seco pra dormir e que só está autorizada a entrar de noite ou quando chove. Então ela vem e dá um jeito de abrir o portão. É espertinha que só.

Todos os dias acompanha o Chico no passeio. Corre atrás da bolinha ou chispa tão ligeira pelos pastos que é bonito de ver. Vai ao encontro das vacas, se abaixa na frente delas, abana o rabo, late, chamando pra brincar. Sua última paixão são os quero-quero — gosta de brincadeira com emoção. Mais de um carro já teve que frear por sua falta de noção. É um milagre — se não proteção divina — que ainda não lhe aconteceu nada. De bom humor e sem imaginar do  que acabou de escapar, pula nas valas pra se refrescar e lavar o pelo empoeirado.

Conforme ela foi ficando no bairro, foi ganhando nomes. Parece que em cada casa tem no mínimo um. Eu a chamo de Novata, Larissa, de Doidinha. Na padaria é conhecida como Mila, e recentemente soube de uma vizinha que as crianças a batizaram de Mel. Também já ouvi a chamarem de Caramela, Capa Preta e Luzia. Outro dia, estava eu conversando com uma menina e a pessoa simplesmente mudou o nome da cadela três vezes em menos de cinco minutos: foi de Frufru pra Princesa e de Princesa pra Margarete. E ela atende a qualquer um.

Se o que lhe sobram são nomes, o que lhe falta é um lar. Até agora, ninguém quis pegar. Tem até quem em teoria gostaria, mas ainda não rolou: ou o pai não deixa, ou falta espaço, ou já tem outros três. Mas dizem que no início era a palavra, e que as palavras têm poder. Então estou pensando em começar a chamá-la de Abençoada. Pois aqui o povo é religioso — vai que cola.


Yvonne Miller
Foto: 
Thaís Vieira

Yvonne Miller: berlinense de nascença, brasileira de alma, mestre em linguísticaescritora migrantecontista e cronistaobservadora de bichinhos, autora do livro “Deus Criou Primeiro um Tatu – Crônicas da Mata” (Aboio, 2022), estado civil: preocupada.

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