DANIEL FILÓSOFO

 O homem que falava demais

Tem gente que tem a língua maior que a boca. É uma expressão antiga, mas ainda atual e cabível em qualquer situação. O ditado popular não ficou datado.
Carlos Alberto é um desses. Por mais que seja um rapaz "jovem há mais tempo", alguns costumes não se perderam conforme os anos passaram. Há coisas que não mudam. Uma delas é o seu hábito de falar demais e, em muitas ocasiões, na hora mais inapropriada.
Morador do Leme, ali no posto, no início da orla, Carlota é daqueles cariocas típicos, mas sem ser um personagem caricato ou estereotipado. Tem personalidade e jeito próprio de ser. Carlota, como é conhecido pelos íntimos, possui uma língua ferina, sem filtro; não pensa, muitas das vezes, antes de falar. Na maior parte do tempo, solta as palavras sem maldade ou intenção de atingir alguém. Em outras, porém, fala de caso pensado, criando confusões e alimentando intrigas.
Certa vez na praia, no quiosque onde a turma parava depois do futebol de areia, soltou a seguinte pérola: a mulher de Jorginho estava saindo com um desembargador que morava na Rua Prado Júnior. Afirmou que já observava a movimentação há tempos e que só contou quando teve certeza. A fofoca causou uma enorme celeuma entre a rapaziada, e foi ali que a credibilidade de Carlota começou a ruir.
A derrocada de um homem começa pelos detalhes. Os amigos se afastaram, a confiança quebrou e a amizade já não era a mesma de antes. Carlos Alberto foi ficando só. Já não era convidado para as atividades da turma. O isolamento o tornou uma pessoa deprimida e solitária. Com o passar dos anos, a mente adoeceu na solidão; a mulher o deixou e os filhos já não o visitavam.
Numa noite dessas, em que a tristeza bate forte e as lembranças voltam como um filme para nos assombrar, Carlos Alberto cedeu ao desespero e à decepção. Abriu a gaveta perto da cama, sacou o seu revólver .38 cano longo — guardado há anos, da época em que frequentava o clube de tiro —, apontou-o contra a cabeça e deu um fim ao seu sofrimento.

Daniel Filósofo

Daniel Filósofo é cronista, jornalista, profundo conhecedor de rock'n'roll, torcedor do Fluminense e radialista. Também escreve a coluna "A música segundo o Filósofo".

Daniel também é o responsável pelo projeto Rock Roll Old School Webrádio pelo RadiosNet, confira AQUI

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