Eternamente João e Teresa

 

A Velha Olaria

Vocês sabem fabricar tijolos? Eu sei!

Meu sustento e a minha criação vieram das olarias em que meu pai trabalhou. Todas eram praticamente a mesma, pois só trocavam o CNPJ. Nunca tive vergonha do meu pai; pelo contrário, sempre tive uma admiração gigante por ele. Conhecido como "João Farinha de Milho" por conta da pobreza da família, com o tempo ele se tornou o "João da Olaria", pois muitas pessoas dos bairros próximos trabalharam lá e foram ensinadas por ele.

Quando eu tinha dez anos, a olaria trocou novamente de nome e máquinas modernas foram compradas. Os tijolos teriam pouca fabricação e as cerâmicas ganhariam o mercado. Assim, tudo foi mudando. Meu pai, que era analfabeto, tinha dificuldade com as máquinas novas; então, eu ficava com ele na olaria à noite para ajudar.

Meu pai conhecia o processo como ninguém. Do barro à abertura do forno, ele sabia tudo. A máquina chamada maromba transformava o barro em pequenas cerâmicas ou tijolos. A argila ganhava formato e depois era levada para corredores com muitas prateleiras. Ali, as peças ficavam secando por uma semana. Depois, eram colocadas nos fornos e então começava a queima.

A primeira queima meu pai chamava de "levante", pois começava de forma lenta e com pouca lenha. Depois vinha o "esquente", quando o fogo aumentava, subindo o calor e mudando a posição da lenha. Por último, vinha o "arroxo", momento em que a lenha era colocada de cima para baixo, dando cor e terminando a queima. No processo final, os fornos chegavam a temperaturas altíssimas.

Esse era o meu serviço: anotar os números das queimas para o meu pai. De hora em hora, eu fazia essa marcação. Meu pai cuidava sempre de três ou quatro fornos, cada um em um estágio diferente. O tempo de uma queima variava de quatro a sete dias. Depois, os fornos eram abertos e os produtos seguiam para a venda.

Meu pai ficava ali naquela olaria a noite inteira. Sentado diante do fogo, com a cuia na mão e uma espingarda ao lado para sua proteção. Ficava ali me contando histórias — dessas que hoje conto a vocês. Durante a noite, a mãe aparecia para levar comida para o pai e me buscar. Ela olhava a espingarda, conferia se estava carregada e logo saíamos. Antes de ir, ela se afastava um pouco e perguntava:

— Tá com tua faca aí?

Sem dizer nada, ele só apontava para a cintura. A olaria era grande, cheia de galpões, e dava medo à noite. Muitas vezes ela foi usada como esconderijo de ladrões; por isso, meu pai trabalhava armado. Mas ficar ali sentada com ele, ouvindo as histórias da infância dele, era muito bom.

Quando meu pai se aposentou, ele seguiu trabalhando na olaria, e só parou mesmo quando foi decretada a falência do lugar. Meu pai morreu falando da saudade de trabalhar, de como era bom. E sempre que via tijolos, comentava se tinham sido bem feitos ou não.

Tijolo por tijolo, meu velho pai construiu a história dele e a nossa. Daquela olaria saiu o meu sustento e os meus estudos. Hoje, entro na olaria e choro; são muitas as lembranças. Choro de alegria porque tive a honra de ser filha de quem fui. Com meu pai, aprendi que o simples é tudo e que a sabedoria é o maior luxo.


DIOVANA RODRIGUES

Me chamo Diovana Rodrigues, tenho 42 anos e sou mãe de três filhos. Trabalho com segurança privada e escrevo desde a adolescência; a escrita sempre foi o meu refúgio.Sou autora dos livros Autópsia, Rosa Negra, Confrontando a Saudade e Diário de uma Amante (formato virtual), além de ter participado de diversas coletâneas literárias. Quando iniciei no clube literário, eu tinha um livreto chamado Janeiro sem Sol para divulgar os meus versos. Hoje, sou autora de muitas poesias — a maioria nascida como forma de desabafo. Uma delas, inclusive, deu origem ao meu livro virtual Diário de uma Amante, que tem seus contos eróticos divulgados todas as sextas-feiras pelo ColetiveArts. Como poetisa, já conquistei alguns concursos e homenagens, o que me traz imensa felicidade. Minha caminhada literária começou cedo e sigo escrevendo com amor. Sei que nada é fácil, mas também não é impossível. Este é um trabalho diferente, pois aqui quero eternizar as lembranças dos meus pais. Eles foram, e esteticamente continuam sendo, mais do que tudo para mim. Talvez eu escreva por eles, porque sempre fantasiei o mundo ao meu redor. Escrevo para homenageá-los, pois sei o quanto tinham orgulho de mim. É por isso que sigo lutando, buscando evoluir e crescer como pessoa: porque preciso honrar a memória deles.


"Quanto mais arte, menos violência. Quanto mais arte, mais consciência, menos ignorância."

08 ANOS DE VIDA DEDICADOS 
À ARTE E CULTURA!


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