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A necropolítica e as eleições
“Quem não vive para servir não serve para viver”. Esse é um ditado alemão anterior ao nazismo, mas que se encaixa perfeitamente na ideologia fascista alemã, justificando o extermínio de tantos negros, ciganos, homossexuais, eslavos, doentes e judeus.
Sei que os eleitores de Bolsonaro não leem esta coluna. Acho até que o único livro que leem é a Bíblia, no Antigo Testamento — principalmente nas partes sanguinolentas de esquartejamentos, decapitações e apedrejamentos, onde matar é o verbo predominante.
Assim como eu, certamente estás profundamente abalado com os resultados do primeiro turno. Os números não são nada animadores. Diria até que são traumáticos e, portanto, assustadores.
Freud, o pai da psicanálise, incentivava seus pacientes a contarem sobre seus traumas, a falarem sobre seus medos mais secretos; só assim revelariam para si mesmos o que os atormenta, assumindo a existência de suas dores e não simplesmente as escondendo sob camadas e mais camadas de falsos sorrisos e frases motivacionais que tentam escamotear a realidade.
Trauma não se cura. A dor sentida não pode ser apagada da memória — e nem deve, afinal, seria como apagar uma parte da vida. Deixe isso para o Alzheimer. O que Freud queria era que seus pacientes aprendessem a seguir vivendo apesar do trauma e o entendessem, estudassem o dito cujo e, assim, provavelmente perceberiam que, apesar de doloroso, o trauma não te define nem deve ditar os caminhos da tua vida, as tuas escolhas. Muitas vezes, quando estudamos o monstro, damos-nos conta de que ele é menor e mais fraco do que originalmente pensávamos.
Os traumas fazem parte da vida, mas a vida não deve ser reduzida a eles. Exposto isso, vamos seguir tentando decifrar esse resultado eleitoral antes que ele nos devore.
A vitória dos candidatos da extrema-direita — que aqui vamos chamar como de fato são: fascistas — precisa ser estudada não como um fenômeno isolado, mas como parte de uma estratégia mundial de dominação, na qual o avanço dos Estados Unidos e de seus aliados (entre eles o governo sionista de Israel) sobre riquezas naturais, como o petróleo e as terras raras, provoca o afloramento de governos com projetos concentradores de riquezas e ausência de políticas sociais.
São projetos fascistas eleitos por dentro das democracias para depois destruí-las, mesmo defendendo a liberdade, inclusive a liberdade de espalhar fake news. Meu filho me apresentou o “paradoxo da tolerância”, que Karl Popper escreveu em 1945: “a tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância aos intolerantes e se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante do assalto da intolerância, então os tolerantes serão destruídos, e a tolerância com eles”.
Deviam ter cassado o meliante deputado que fez, no plenário da Câmara, um elogio ao torturador Ustra e apologia à ditadura. Lembra? Pois é, se houvesse coragem lá, teriam destruído o ovo da serpente. Há dois livros interessantes para serem lidos: Como as Democracias Morrem e O Pobre de Direita.
Ainda sobre o fascismo, seria interessante conceituá-lo e, para isso, é necessário buscar a origem da palavra e o seu contexto histórico. Fascismo, palavra de origem italiana, vem de fascio (feixe): uma varetinha que, sozinha, pode ser facilmente quebrada; já quando está unida a outras varinhas em um feixe, tem uma imensa resistência, torna-se forte. Assim é o fascismo: a união de diversos indivíduos que, juntos, tornam-se fortes.
Na Itália, após a Primeira Guerra Mundial, cresciam os movimentos comunistas, socialistas e anarquistas que almejavam a construção de uma nova sociedade fora dos marcos capitalistas. Buscando barrar o crescimento desses movimentos, os capitalistas apoiaram a criação de uma outra alternativa para atrair os trabalhadores, principalmente os desempregados: o fascismo. Na Alemanha, também com a economia destruída pela guerra, o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães surge como uma opção da burguesia ao crescimento do movimento comunista alemão. É interessante observar o uso da palavra “socialista” como uma forma de iludir e atrair os ingênuos. Os fascistas hoje utilizam a palavra “liberdade” assim como os nazistas utilizavam a palavra “socialista”, mas a prática deles é outra, muito diferente.
O fascismo é uma proposta política autoritária e capitalista, portanto, não tem nada de revolucionária; é, sim, um fortalecimento do capitalismo na maior concentração de riquezas na mão da burguesia e na manutenção da ordem social, com o agravamento da exploração da classe trabalhadora. No caso do nazismo, havia mais dois elementos: a luta pelo espaço vital (guerra para ampliar as fronteiras) e a superioridade racial (uma “guerra contra os sub-humanos”, como dizia Goebbels). Entenda-se: racismo. “Meus filhos foram muito bem-educados e não correm o risco de namorar uma mulher negra”, já disse o Bolsonaro pai.
Nunca foram mais atuais os versos de uma música que gostava de cantar nos anos 1980: “o fascismo é fascinante, deixa a gente ignorante e fascinada”. A ignorância não percebe que o neofascismo traz em si mesmo a necropolítica, que é o poder do Estado de decidir quem vive e quem morre. Durante a pandemia, com a demora na compra das vacinas, muitos morreram — mortes que poderiam ter sido evitadas. A redução de investimentos públicos em políticas sociais e o corte de verbas utilizadas para melhorar a vida dos mais pobres é apostar na volta da fome e no aumento da mortalidade infantil, por exemplo, ou na redução da expectativa de vida com o aumento da miséria. Na Alemanha Nazista, foi colocada em prática a eugenia, que nada mais é do que matar indivíduos que são considerados inadequados à sociedade, tais como pessoas com deficiência, negros, ciganos, eslavos, homossexuais e judeus.
Poderia encerrar este texto citando Dante Alighieri na Divina Comédia, com a frase inscrita na entrada do inferno: “Deixai toda a esperança, vós que entrais!”. Entretanto, ainda nos resta, na ponta dos dedos, um fio de esperança para não entrarmos no inferno. Afinal, quem luta pela vida traz em si mesmo a esperança.
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"Quanto mais arte, menos violência. Quanto mais arte, mais consciência, menos ignorância." Facebook: Nestor Ourique Medeiros Instagram: @nestormedeiros2 |

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2 Comentários
Texto muito importante para formação histórica e política do que está ocorrendo hoje no Brasil. 😍
ResponderExcluirObrigado pelo fundamental apoio.
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