
O ECO DO VAZIO: A TIRANIA DO TER EM TEMPOS DE DESEMPENHO
A marca do que somos não pode ser programada.
Reflita sobre o que te torna único além do que
você possui.
Vivemos tempos em que o ser foi eclipsado pela urgência do ter. Em uma sociedade moldada pelo consumo frenético, a identidade humana, outrora definida por valores e vivências, tornou-se subproduto de mercadorias. É cada vez mais comum observarmos indivíduos que priorizam a ostentação de bens supérfluos em detrimento do zem educação, movidos por um desejo imperativo de validação externa. Esta transição não é casual; é fruto de uma estrutura que prioriza a acumulação de futilidades em um cenário onde a tecnologia evolui em uma velocidade muito superior à nossa capacidade de desenvolver uma educação crítica e consciente.
Zygmunt Bauman (2001) define nossa época como "modernidade líquida", na qual nada é feito para durar. Segundo o autor, as relações, os valores e as próprias identidades tornam-se voláteis, assim como os produtos que consumimos e descartamos. Nessa fluidez, o indivíduo é compelido a buscar constantemente o novo para pertencer, o que gera uma angústia permanente pela posse, na tentativa vã de estabilizar uma existência que, por definição, não encontra raízes.
Simultaneamente, fomos lançados na "sociedade do desempenho", descrita por Byung-Chul Han (2015). O filósofo argumenta que não somos mais apenas súditos, mas sujeitos de desempenho, que exploram a si mesmos na crença de estarem se realizando. Esse imperativo de "poder tudo" transforma a vida em um projeto de otimização, onde o cansaço é visto como um fracasso pessoal e a ostentação torna-se o troféu dessa produtividade. Produzimos e consumimos incessantemente, não por necessidade, mas para provar valor em um mercado que nos vigia e nos compara.
Esse ciclo encontra seu braço técnico na obsolescência programada, que condena à morte precoce o que produzimos. Ao reduzir o trabalho, que deveria ser a forma humana de transformação consciente da natureza, a um mero mecanismo de acumulação, esgotamos não apenas os recursos do planeta, mas a nossa própria humanidade. Vivemos a ironia de dominar tecnologias complexas sem possuirmos o discernimento necessário para avaliar o impacto social dessas escolhas.
Ailton Krenak (2019) nos convida a sair desse torpor. Enquanto a cultura do ter nos empurra para a cópia de padrões e para a futilidade, Krenak nos lembra que a nossa humanidade reside na capacidade de ser em harmonia com a teia da vida. A dificuldade em sustentar formas de ser genuínas reside no fato de que o sistema recompensa a imitação, enquanto o exercício da singularidade exige a coragem de ser quem se é, fora das prateleiras do consumo ostensivo.
As consequências são visíveis: sociedades fragmentadas e indivíduos exaustos. O capitalismo exacerbado transformou a dignidade em ativo financeiro. A questão, diante do espelho, não é sobre o que poderemos ter amanhã, mas se ainda seremos capazes de nos reconhecer quando o ciclo do consumo for colocado em suspenso. A transformação que buscamos não virá de um novo objeto de desejo, mas da redescoberta de que o ser é, por natureza, expansivo, livre e capaz de criar sentidos que nenhum bem material pode substituir.
REFERÊNCIAS
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
HAN, Byung-Chul. A Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
KRENAK, Ailton. Ideias para Adiar o Fim do Mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
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| A marca da existência: o que é único não pode ser consumido |
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| Amabelia Diel |




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