
A Chama e a Memória: Identidade, Silenciamentos e Tradição na Semana Farroupilha
A Semana Farroupilha, celebrada anualmente em setembro, constitui o ponto alto do calendário cívico e cultural do Rio Grande do Sul. Mais do que uma alusão à Revolução Farroupilha, o mais longo conflito separatista do período imperial brasileiro, a festividade consolida-se como um ritual de reafirmação identitária. Através da preservação de mitos, usos, costumes e narrativas, o tradicionalismo gaúcho moldou uma forma singular de pertencimento, ancorada no profundo amor telúrico que o povo rio-grandense devota à sua terra e aos seus símbolos máximos, como o próprio Hino Riograndense. As raízes desse movimento festivo e de resgate remontam ao ano de 1947, quando um grupo de idealistas liderado por João Carlos D'Ávila Paixão Côrtes, que dois dias antes havia realizado a recepção e escolta dos restos mortais de David Canabarro, promoveu a "Ronda Crioula" na Capital, acendendo a Chama Crioula a partir da centelha da Pátria. Conforme destaca Paixão Côrtes (1994), “o trabalho de pesquisa e revalorização das danças, da vestimenta e dos hábitos tradicionais teve como objetivo principal que era consolidar a alma e o comportamento telúrico do gaúcho, salvaguardando o patrimônio folclórico frente às imposições da modernização urbana". Com a fundação do CTG 35 em 1948, institucionalizaram-se os Centros de Tradições Gaúchas como espaços vivos de preservação cultural, celebrando a bravura e a hospitalidade de um povo que cultiva sua história com fervor.
Contudo, a construção dessa identidade regional transita por múltiplos e complexos atores sociais que, por muito tempo, sofreram com o esquecimento ou a marginalização nas narrativas oficiais. Entre eles, destacam-se os Lanceiros Negros, combatentes formados por escravizados libertos em troca de alistamento militar que constituíram a vanguarda e a elite de choque do exército republicano. Apesar de sua importância tática e de sua contribuição direta para a causa farroupilha, o pós-guerra os relegou a um profundo silenciamento, culminando na tragédia do Porongos (1844), onde foram desarmados e surpreendidos pelas tropas imperiais em um massacre sistemático. A historiografia crítica aponta que a narrativa tradicional por décadas mascarou as contradições sociais de um movimento liderado por elites agrárias. Como pontua Flores (1988, p. 45), "o negro participou ativamente da insurreição republicana buscando a liberdade e a cidadania, mas a historiografia oficial do pós-guerra tratou de omitir o seu protagonismo para preservar a imagem heroica e elitista dos estancieiros". A recuperação da memória dos Lanceiros Negros representa, portanto, um ato de justiça histórica fundamental para reconhecer que a identidade gaúcha é plural.
Da mesma forma, a formação cultural do estado é profundamente marcada pela presença ancestral dos povos indígenas, cujas raízes antecedem a própria irrupção farroupilha. As etnias originárias, com destaque para os guaranis das Missões Jesuíticas, moldaram a relação com o solo gaúcho, deixando legados cotidianos basilares, como o hábito do chimarrão, o vocabulário tupi-guarani na toponímia e o manejo do cavalo nos campos. Essa rica tapeçaria humana encontrou em Simões Lopes Neto (2005, p. 12) um de seus cronistas mais brilhantes, que ao retratar o universo sulino buscou "recolher a tradição oral e dar expressão literária aos tipos marginalizados do pampa: o gaúcho, o negro e o índio, imortalizando-os em sua obra". Embora não tenha testemunhado diretamente o conflito oitocentista por questões geracionais, Lopes Neto foi um pioneiro na valorização antropológica do tipo humano rio-grandense em obras primordiais como Contos Gauchescos e Lendas do Sul.
Todo esse arcabouço histórico, que intercala a epopeia bélica, o sangue derramado dos lanceiros, a ancestralidade indígena e a pena sensível de seus escritores, deságua no afeto quase religioso que o gaúcho nutre pelo Rio Grande do Sul. Esse orgulho telúrico atinge seu ápice lírico no Hino Rio- Grandense, cujos versos solenes, entoados com a mão no peito em cada galpão durante a Semana Farroupilha, sintetizam o espírito de liberdade, justiça e coragem que resiste através das gerações. Para o povo rio-grandense, cantar o hino e celebrar a tradição sob a luz da Chama Crioula é renovar um pacto eterno de amor à terra, honrando os heróis do passado,dos visíveis aos invisibilizados, garantindo que a memória permaneça viva e inextinguível.
Referências
FLORES, Moacyr. Negros na Revolução Farroupilha. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1988.
LOPES NETO, João Simões. Contos Gauchescos e Lendas do Sul. Porto Alegre: Globo, 2005.
PAIXÃO CÔRTES, João Carlos. O Gaúcho: origens e evolução da sua cultura. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1994.
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| Amabelia Diel |
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