NAVALHAS AO VENTO

 DELETANDO NOSSO IDIOMA

Eu tenho verdadeiro ranço com a mania que as pessoas têm de americanizar as nossas palavras. Moro no Brasil, onde a língua materna é o Português e a segunda língua oficial é LIBRAS.

Sou defensora de que se tenha a matéria de LIBRAS desde o ensino fundamental, mas a desculpa é que não há espaço na grade curricular. Porque não tirar o Inglês para contemplar LIBRAS? Qual a possibilidade de encontrar alguém que só fale inglês? E qual a possibilidade de encontrar um cliente, paciente, vizinho, ter um filho, neto, sobrinho, afilhado... surdo? Com o Inglês ensinado nas escolas não conseguimos nem comprar um lanche nos Estados Unidos. Nas escolas só ensinam o To Be, quem quiser que faça cursinho particular.

Para que eu preciso do Inglês? Além de supervalorizar o governo norte americano, dando ao Trump o poder de por em risco a nossa soberania, algumas pessoas desejam transformar o nosso país em “curral dos Estados Unidos”, transformando os brasileiros em escravos. Tem político que quer entregar nossas riquezas, as terras raras de bandeja, entregar a Amazônia, nosso petróleo... se enrolam na bandeira americana e se dizem patriotas... E isso não é de hoje, quando eu estava no ensino fundamental minhas colegas já cantavam Beatles, Michael Jackson e Elvys Presley. Eu era a estranha que cantava Elis Regina, Raul Seixas, Gilberto Gil, Chico Buarque, Gal Costa, Maria Bethânia, Caetanno Veloso, Secos & Molhados. Nunca gostei de música que eu não entenda a letra, vejo pessoas cantando todo errado, criando outro idioma (o enroleicham), se achando “elite”.

Qual o orgulho de defender uma bandeira que só quer nos roubar? Sinto vergonha alheia e nojo quando vejo um brasileiro enrolado na bandeira dos Estados Unidos ou na de Israel. Defendo a nossa bandeira, os símbolos do meu país, o idioma do meu país.

Irritante é ver mães falando que seus filhos são fluentes em inglês e quando pergunto sobre o Português respondem com o peito inflado: “- Português é muito difícil, ninguém sabe. O futuro é saber inglês.” Além de antipatriótico, misturar Português com Inglês é brega. Falta senso de ridículo.

Nosso país é lindo, nosso idioma é riquíssimo, não precisamos nos apropriar de palavras de outrem. Hoje as pessoas se acham importantes por usarem palavras que nem elas mesmas sabem o significado. Em Gravataí temos a Rua Coberta, aquela que eu chamo de Rua Privada, porque é um local para poucos frequentarem e que de rua não tem nada. Esse local se chama Praça Mall. Na inauguração vi muitas pessoas que se julgam “inteligentes” rindo do nome da praça: - O que é mall? – perguntavam. –É um centro comercial, idiota. – eu respondia irada. Porque não colocaram o nome de Centro Comercial? O mesmo digo para Shopping, porque não Centro Comercial? Indo por essa linha de raciocínio tenho outras palavras que fico louca quando ouço. Planner = agenda; upgrade = atualização; streaming = tecnologia de transmissão de dados pela internet; home office = trabalho remoto; spoiler = revelação de fato importante, delivery = serviço de entrega; networking = rede de contatos; feedback = avaliação de trabalho; deadline =prazo final para entrega de trabalho; notebook = computador portátil; look = visual ou roupa; link = endereço digital; backup = cópia de segurança, entre outros. Estamos deixando de usar a nossa língua materna para assumir uma língua que nada tem a ver com nosso país. Vejo isso com maus olhos, vejo como um tipo de doutrina “homeopática” para quando o país for colonizado e o povo escravizado, como já fizeram quando o Brasil foi “descoberto” e os povos originários foram obrigados a falar a língua, cultuar a religião e agir conforme desejo dos colonizadores.

Já tem uma turma que “lambe as botas do Trump”, bate continência para a bandeira norte americana, apoiam as tarifas aplicadas nas importações e exportações, pedem ajuda  para anular as nossas eleições... E a ralé bate palmas para tudo isso... Em breve o nosso idioma será “deletado”, bem como as nossas vidas e as riquezas do país... E quem está promovendo isso somos nós quando ignoramos a Língua Portuguesa em detrimento a uma língua pobre como é o Inglês.


Isab-El Cristina

Isab-El Cristina Soares é poeta, membro do Clube Literário de Gravataí, autora de 6 livros.  Graduada em Letras/ Literaturas, pós-graduada em Libras, é Diretora Cultural do ColetiveArts.

Escute o episódio do podcast Coletive Som gravado com Isab-El , clicando Aqui.



"Quanto mais arte, menos violência. Quanto mais arte, mais consciência, menos ignorância."


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SENDO A MAÇÃ DE ALGUNS,
EU SOU A MOSCA QUE POUSOU
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