ARTE E CULTURA

 Um porta-malas onde todos nós estamos

Imagine que você foi sequestrado e colocado no porta-malas de um veículo. Está escuro. Mesmo assim, você consegue perceber que tem à disposição o seu celular. A bateria não vai durar muito: 2%. Então você consegue, mesmo tenso, discernir que o melhor a fazer é mandar uma mensagem de socorro para um grupo — se uma pessoa ou mais a vir, poderá tomar as medidas necessárias para te ajudar, te socorrer.

Mas você não foi salvo. Porque havia uma regra no grupo — que você não sabia — de que não se podia mandar mensagens de socorro. Foi chamado de vacilão. Riram, de deboche.

A situação, exagerada de propósito, é recurso didático. E diz respeito à política.

Décadas atrás, em 1988, o país promulgou a sua Constituição. Vários homens e mulheres, de várias linhas políticas, de direita e de esquerda — lembrando que, antes desse período, havia apenas dois partidos —, conseguiram debater o destino da nação depois de uma Ditadura Civil-Militar que caçou direitos, perseguiu e matou pessoas que tinham posicionamento diferente dos militares. Evidente que havia medo. Mas o país estava começando a corrigir erros históricos, a dialogar mais. Perceba: ninguém ali era igual a ninguém. E foi justamente por isso que o acordo funcionou. Democracia não é conversar apenas com quem pensa como eu — é conversar, sobretudo, com quem pensa diferente.

O tempo passa e, por não corrigirmos alguns problemas daquele passado, o espaço democrático agora tem sido podado. Olhe ao redor dos seus grupos — de WhatsApp, de trabalho, de família. Quantos deles suportam uma conversa sobre política que não seja piada, deboche ou silêncio constrangido? Quantos viraram apenas um lugar de fotos e ações bonitas, que alimentam o próprio ego (claro que são ações importantes), mas onde qualquer alerta gera tensão, porque há pessoas que não querem discutir nada que possa fazê-las mudar de ideia? Não é um defeito de um grupo só. É um hábito que o país inteiro criou: transformar política em assunto proibido, como se falar sobre o preço do remédio, do aluguel e da conta de luz ou de um latrocínio (que envolve segurança) na região não fosse política.

Este texto é escrito no momento em que notícias de incêndios criminosos em universidades, agressões a manifestações pacíficas e ataques a comunidades negras e LGBTQIA+ se multiplicam. As poucas mensagens que circularam — as minhas, entre elas — foram alertas: o que já tem acontecido pode escalar ainda mais, e não estamos nos protegendo de verdade. Se um grupo pune quem pede socorro, o problema não é o socorro. O problema é a regra que ninguém lembra de ter criado.

Talvez você discorde de mim. Ótimo: esse desacordo, dito em voz alta, é exatamente o que estou pedindo. Afinal, foi assim que o país saiu da Ditadura — não concordando, mas conversando. Não precisamos pensar igual para combinar como não vamos juntos para o porta-malas. Precisamos apenas de coragem para reabrir, dentro dos nossos grupos, um assunto que incomoda. Se não fizermos isso, estaremos todos no mesmo lugar escuro — mas sem alguém para nos ajudar a sair de lá.


Leandro Blum


Leandro Carlos Blum é professor de matemática pela UFRGS com especialização em educação para os anos iniciais do ensino fundamental e quadrinista, ganhador do 32° Troféu HQMix pelo TCC "Quadrinhos e matemática: algumas possíveis construções usando a imaginação".



"Quanto mais arte, menos violência. Quanto mais arte, mais consciência, menos ignorância."


08 ANOS DE VIDA,
SENDO A MAÇÃ DE ALGUNS,
EU SOU A MOSCA QUE POUSOU
EM SUA SOPA, EU SOU A MOSCA
NO SEU PRATO A 
ZUMBIZAR!


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2 Comentários

  1. Adorei o modo como tu chamaste a atenção. Fiquei presa na construção do porta-malas até entender qual era o assunto. Fantástico. Abraços, Isab-El.

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  2. Ótimo texto sobre o nosso momento político. Parabéns!

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