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Vitória da Democracia
Esse é um título batido, porém, nessa quadra da nossa história, profundamente verdadeiro.
No segundo turno, com apenas dois projetos em disputa, ficou clara, para quem quisesse ver, a ameaça fascista que ronda, tal qual uma assombração, o Brasil.
Não é exagero dizer que a vitória de Lula foi gigante. A forças contrárias eram imensas, desde a ganância do império estadunidense até os mesquinhos interesses de grupos econômicos nacionais e seus associados, passando pelos boicotes no transporte público até as idiossincrasias sacanas do presidente do TSE, que perturbaram, mas não derrubaram, o processo eleitoral.
Foi uma vitória da coragem, do amor-próprio e da razão, diante do obscurantismo dos negacionistas da ciência, dos saudosistas da ditadura e dos entreguistas das riquezas do Brasil ao imperialismo ianque.
Essa não foi qualquer vitória, foi a vitória. Conquista das apaixonantes mobilizações populares que lotaram ruas, praças e praias pelo Brasil à fora gritando a todo o pulmão o nome do candidato que defende a soberania nacional, o SUS, a educação pública e a inclusão social: LULA.
Foram os jovens, nas caminhadas e comícios, que engrossaram essa campanha de segundo turno diante da explicita ameaça do fascismo. Esses jovens anunciam o futuro e são a esperança de um Brasil democrático e solidário. Entretanto, não podemos deixar de registrar as emocionantes cenas de genuíno patriotismo produzidas pelos idosos de todos os cantos desse país. Pessoas com mais de 70 anos, que estavam desobrigadas de votar, não fugiram ao seu compromisso de cidadãos preocupados com o futuro do Brasil. Com seus cabelos brancos, homens e mulheres em cadeira de rodas, de andador, levando tubos de oxigênio, carregadas no colo para chegarem até sua seção no segundo andar, teve de tudo, porque o perigo do fascismo, da retirada de direitos/benefícios e da apologia à ditadura era real com a não eleição de Lula. Foi uma mobilização histórica e, acredito, inédita nesses 137 anos de República. Realmente emocionante.
Assim como “não tá morto quem peleia”, não está morto quem vota.
Estamos diante de uma grande jornada e o primeiro passo foi dado nesse domingo. Reeleger Lula é reafirmar o nosso compromisso, enquanto brasileiros, pela democracia.
Emocionado me dou conta de que a minha geração dos 60+ viveu as lutas pela redemocratização. Participamos das Diretas Já, estávamos, em 1984, no comício em Porto Alegre, na frente da prefeitura, vendo Ulisses Guimarães, Brizola e dois jovens sindicalistas, o bancário Olivio Dutra e o metalúrgico Luís Inácio Lula da Silva, defendendo o direito de o povo brasileiro escolher os seus governantes. Em todas as eleições para presidente que ocorreram, desde a inédita de 1989, nossa primeira eleição depois dos vinte da longa noite da ditadura, até esse último domingo, votei em Lula.
A primeira vez que ouvi falar em Lula foi como líder das greves dos metalúrgicos do ABC. Lembro, com carinho, do meu livro de história do primeiro ano do Ensino Médio, “História da Sociedade Brasileira”, do Francisco Alencar, abordando as lutas sociais no Brasil e da foto de um barbudo na revista Times, com o seguinte título: “the hero of work class”.
Luís Inácio Lula da Silva, um brasileiro que tinha tudo para não sobreviver, como tantos outros meninos e meninas, engolidos pela miséria forjada na desigual sociedade brasileira. Sua origem e a consciência sobre ela, certamente, é a principal motivação na sua incansável política de combate à fome. Sua clareza na defesa da vida é a resposta diante dos que desejam perpetuar esse modelo de sociedade excludente. Lula é um sopro de humanidade na política brasileira e um exemplo mundial de que o monstro do imperialismo, que engole as soberanias nacionais e as vidas de tantos América Latina afora, pode e deve ser enfrentado, tal qual São Jorge enfrentou o dragão da maldade.
Ao fundar um partido político, o Partido dos Trabalhadores, Lula afirma à classe trabalhadora que a luta política é o caminho para conquistar uma vida melhor para todos, combatendo a “exploração do homem pelo homem”.
É uma utopia pensar na superação da sociedade na qual “o homem é o lobo do homem”?
Certamente, uma vida na busca de alcançar utopias é uma vida digna de ser vivida, é “lutar o bom combate”. E Lula luta o bom combate. Me orgulha pensar que essa vitória também possui um pouquinho do esforço de cada um de nós nessa bela campanha contra o fascismo e pela vida, nos seus amplos sentidos de acolhimento e generosidade a todos os brasileiros e a toda humanidade. Sim, Lula não é somente uma liderança brasileira, ele é um símbolo na luta contra a barbárie, um filho da miséria, forjado no útero da injustiça social, que se levanta para clamar pela vida, não somente a sua, mas a todos os seres humanos.
Essa é a última vez que voto no Lula e que honra e felicidade poder participar nas suas campanhas eleitorais. Quantos, como eu, tiveram suas consciências de classe forjadas ao escutar aquela voz grave falando “companheiros, a luta continua” e “poderão destruir uma, duas três ou quatro rosas, mas não poderão impedir a chegada da primavera”.
Muito obrigado Lula e muito obrigado a todos nós, povo brasileiro, por essa vitória da democracia.
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