ISSO DÁ UMA CRÔNICA

Coisas estranhas acontecem neste interior

Coisas estranhas têm acontecido em Santa Luzia. Faz semanas venho observando um movimento suspeito na ladeira, onde inicia a trilha que dá na  prainha. Começou de forma tão sutil que até duvidava se não era apenas coisa da minha cabeça: vez ou outra um carro parado no meio do caminho, gente subindo e descendo, mesmo nos dias mais ventosos e frios. Tudo isso eu observava de longe, nos passeios matinais com Chico pela estrada. Pois de lá, no meio do descampado, tem-se uma vista livre ao flanco da colina atrás da vila, com seu carreiro de terra amarela entre a mata verde. Era nesse carreiro onde — dia sim, outros não — eu via tal movimentação. E não é que de repente a brecha entre a vegetação começou a me parecer — não seria só uma sensação minha? — mais larga do que já era? “Estão aprontando alguma coisa”, cheguei a comentar com a Larissa. No entanto, ainda não dava pra perceber nenhuma mudança flagrante.

Depois foi o ipê da nossa rua. Em janeiro, quando chegamos de mudança, ainda vestia suas folhas verdes. Depois, confesso que o dei por morrido, pelado e esquelético que só. Também não me surpreenderia, pois ao cimentarem a calçada não tiveram a consideração de deixar um quadradinho de terra sequer ao redor do tronco magro. Cimentaram tudo de vez, o concreto sufocando as raízes delicadas. Mas ele sobreviveu. E umas semanas atrás, nasceu dos frágeis galhos um par de flores triunfantes e amarelas, anunciando a primavera. Após as primeiras duas veio uma explosão de cor que chegava a iluminar o quarteirão. Por pouco tempo, a solitária arvorezinha, frente à casa da vizinha, alegrava-me a vista pela janela lateral do quarto de escrever. Não podia acreditar quando, passado menos de um mês, ela pareceu se arrepender. Largou o vestido amarelo no chão, e não deve ter sido por coincidência que foi no mesmo dia em que o manjericão, tão novinho ainda, não resistiu às mudanças e pulou do parapeito da cozinha. Morreu afogado no riacho atrás da casa. Até o pezinho de pimenta se desprendeu dos seus botões. Desistiram antes do tempo: nenhum chegou a se desenvolver. Não é estranho a primavera querer encruar?

Cheguei a mandar uma mensagem no grupo de Santa Luzia; talvez os mais velhos soubessem explicar o fenômeno. Mas ninguém me respondeu, deve ser porque a vizinhada estava em alvoroço por outros acontecimentos, não menos inusitados. Pois não é que alguém tinha entrado na garagem e tentado roubar o botijão de gás de dona Carmem? Logo aqui nos cafundós, onde a lebre e a  raposa se desejam boa noite e as crianças ainda brincam na rua. E — como podia me esquecer? — este final de semana mesmo! Mais uma notícia espantadora na comunidade virtual: tinha escapado um casal de calopsitas — de dentro da gaiola fechada! Você já deve pensar que estou mentindo, ou  então que inventei de fazer crônica de realismo mágico, e eu ainda nem contei o causo do relógio no nosso micro-ondas, que após meio ano de dar qualquer hora menos a que era, do nada voltou a se sincronizar com o tempo. Tempos estranhos esses...

Realismo mágico ou não, de uma coisa eu estava certa: estão mesmo aprontando alguma coisa! Larissa acabou de confirmar. Encontrou no passeio com Chico um velho pescador ao pé da ladeira. No meio do carreiro que sobe a colina e dá na prainha, estava parada uma betoneira.

— O senhor sabe o que estão fazendo ali? — perguntou ao vizinho.

— Vão asfaltar — respondeu ele, cachimbo no canto da boca, estranhamente feliz. — Mas estão fazendo devagar, tem algum problema com o licenciamento. Vais ver, logo dá pra ir de carro por aqui até Zimbros!

Prefiro não ver e continuar fazendo a trilha a pé. Mas isso explica outra coisa, pois a natureza é assim: o que se oprime aqui, sai por ali. E você acredita que dia desses começou a crescer, do ralo da pia da cozinha, uma tímida plantinha?


Yvonne Miller
Foto: 
Thaís Vieira

Yvonne Miller: berlinense de nascença, brasileira de alma, mestre em linguísticaescritora migrantecontista e cronistaobservadora de bichinhos, autora do livro “Deus Criou Primeiro um Tatu – Crônicas da Mata” (Aboio, 2022), estado civil: preocupada.

"Quanto mais arte, menos violência. Quanto mais arte, mais consciência, menos ignorância."

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