
Eleições 2016 - A farsa ataca outra vez

Entrei
no bar e cumprimentei os convivas. O dono do bar, que já me conhecia bem, falou
em voz baixa enquanto me recebia: "Precisamos acertar aquela conta".
Respondi no mesmo tom que faltava pouco para riscar meu nome do caderninho.
"Mas, enquanto isso, vou tomar mais uma ou duas pra engordar a
matemática". Ele foi pegar a primeira e eu tratei de arrumar um canto no
balcão para me debruçar.
Não
tenho costume de ver televisão. Novelas e séries me dão náuseas. No máximo
assisto algum filme que me chame a atenção, mas normalmente só passam lixo. No
último quartinho mobiliado que tinha uma televisão, fiquei uns meses e quando
saí não soube responder ao proprietário se ela estava funcionando. "Está
do jeito que encontrei. Pra não dizer que não usei, serviu de cabideiro para o
meu casaco".

Quando
estou em algum lugar que tem o aparelho ligado, dou uma olhada sem muito
interesse. No momento, passava um programa sobre as eleições. A mesma coisa de
sempre. Parecia um repeteco das últimas. O velho circo de horrores voltando a
montar o picadeiro. O velho esquema esquerdo contra direita e o centro comendo
pelas beiradas. Alguns tentando correr no páreo e outros que conseguem até
fazer rir os que ainda têm algum senso de humor sadomasoquista. As alianças
deixam claro a falta de compromisso ideológico. Sobre os financiadores de
campanha ninguém fala, quando são os principais, pois, no fim, são eles que vão
mandar. Manda quem tem cifrão.
Os
pensamentos começam a inundar minha cabeça. Dou um gole para desacelerar e
poder analisar tudo com mais calma. Lembro quando estava entrevistando o poeta
Glauco Mattoso e perguntei sobre sua experiência durante a ditadura militar e
agora durante a ditadura do capital. O que tinha de igual e de diferente? Ele
respondeu com tranquilidade: "Fabio, a ditadura sempre foi do capital. Os
militares apenas foram úteis naquele momento. Quando não serviam mais, foram
retirados". Aquilo fez muito sentido. É importante estar atento e aberto
ao aprendizado, sem se apegar a verdades e conceitos.
Outra
coisa que me veio a mente foi um exemplo que sempre gosto de dar quando falo
sobre o financiamento de campanha. "Vamos dar o exemplo do empresário que
injeta uma grana forte no candidato a prefeito. Esse candidato ganhou. Passado
o primeiro ano de mandato, o empresário chega no eleito e diz que terá aumento
na passagem de ônibus. Se o prefeito questiona, a torneira fecha. Afinal, se
ele está sentado na cadeira, foi porque o financiador investiu para ele estar
ali. Tratos foram feitos e acordos fechados. Um capitalista não se desapega do
seu dinheiro, a não ser para ganhar mais. Apoiar o candidato é um investimento,
não uma doação. A ideologia dele é o
lucro a qualquer custo e nada mais importa.
Ouvi
um falatório e saí do universo reflexivo, dos pensamentos e elucubrações
infinitas.
Voltando
minha atenção para o que estava rolando a minha frente, vi dois frequentadores dali
um de frente para o outro, de punhos erguidos, prontos para começarem a se
soquear.
Nem
precisei prestar atenção ao que diziam para entender o que sucedia. Conhecia o
suficiente para saber que um era Bolsonarista doente e o outro PTista
igualmente inflamado. As discussões entre eles eram comuns no ambiente e só
pioravam nessas épocas.
O
dono do boteco chegou com autoridade, bradando que não queria mais confusão. Só
nessa semana, a polícia já tinha aparecido três vezes na bodega. A turma do
deixa disso chegou para ajudar na mediação do conflito. Toninho cachaça, também
conhecido como Cana Brava, deu uma golada na branquinha e sentenciou:
"Fica aí discutindo Lula e Bolsonaro sem correr atrás do de vocês pra ver
só se qualquer um deles vai vir querer saber como vocês estão, se tem comida na
geladeira, se já tem vaga no colégio das crianças, se já tem médico no posto de
saúde..." Cabeça Branca complementou afirmando que o Brasil é muito maior
que estes dois caras e todo mundo falava como se existissem apenas os dois.
"O Brasil não pode se resumir apenas a duas pessoas."
Fiquei
analisando a confusão e pensei em como as pessoas se dividem com maior
facilidade que se juntam. Aqueles dois caras, explorados e escravizados pelo
sistema, eram para estar se organizando para lutar contra estes parasitas que
só sabem sugar o povo e os mantém na total miséria. Sai esquerda, vem direita,
volta esquerda, o centro sempre por ali... e o custo de vida não para de subir,
e os massacrados não param de sofrer cada vez mais massacres...
A
confusão aos poucos foi se acalmando e cada um foi resmungando para seu lado.
Ganharam a rua prometendo se pegar mais tarde. Juras e ameaças... Aquela coisa
macho escrota primitiva.
Com
a desculpa de evitar a questão do poder paralelo dos financiadores de campanha,
foi criado o Fundo Partidário. Nem preciso dizer que não adiantou nada. O que
acontece hoje é que os famintos por dinheiro, no auge de sua ganância, mamam
nas duas tetas.
Na
Gazeta do Povo, de vinte e quatro de fevereiro deste ano, Gustavo Ribeiro
assina matéria que fala sobre o recorde do Fundo Partidário de 2025. "A
distribuição de recursos do fundo partidário atingiu R$ 1,126 bilhão em 2025,
um aumento de 2,4% em relação ao ano anterior, quando o montante chegou a R$
1,099 bilhão.". Mas isso não é nada em comparação com o volume de dinheiro
disponibilizado para este ano. Na revista Exame, existe matéria de oito de
março, assinada por Gabriela Peçanha, falando sobre a distribuição do fundo
deste ano. Estamos falando de... Passando a palavra para Gabriela, cito um
trecho da matéria: "O Fundo Especial de Financiamento de Campanha, ou
Fundo Eleitoral, é um recurso público distribuído entre os partidos para as
campanhas. Em 2026, o montante será de R$ 4,9 bilhões."
Fico
pensando nas escolas públicas caindo aos pedaços, com professores desmotivados
e cansados por trabalhar em várias atividades para complementar a renda devido
aos baixos salários, nos hospitais lotados, sem a infraestrutura necessária
para um atendimento de primeira, como devia ser, postos de saúde sem a
quantidade necessária de profissionais para atender a população que enfrenta
filas enormes em busca de ajuda e muitas vezes não consegue o atendimento
adequado... e por vezes nenhum tipo de atendimento. São muitas coisas que me
vêm a cabeça... Muitas formas de utilizar melhor esse dinheiro. Maneiras muito
mais úteis para a população. Mas quem define para onde vai o nosso dinheiro são
os mesmos que lucram com toda essa falácia. Dizem que tudo isso é importante
para que tenhamos ares de democracia.
O
fato é que votar em quem vai alimentar toda essa máquina que nos tritura entre
os dentes de sua engrenagem não é o suficiente para que possamos bater no peito
e afirmar que vivemos de forma democrática.
Que
democracia é essa onde a classe política vive na fartura, enquanto o povo, para
quem teoricamente esses políticos deveriam estar trabalhando, passa
dificuldades na luta para garantir o básico? Que democracia é essa onde nosso
dinheiro, através dos impostos, mantém altos salários, além de inúmeros
benefícios, para que os parasitas não tenham a menor preocupação? Todos os
privilégios concentrados nas mãos dos que já ganham mais que merecem. Isso é
uma coisa que sempre me intrigou. Qualquer migalha que sobra para o povo, é
sempre criticada, mas ninguém fala sobre os auxílios de políticos, juízes e
demais categorias que recebem muito mais que a maioria dos brasileiros. Isso se
não formos ainda para situações mais bizarras, como ao comparar o salário de um
professor, que é responsável por todo conhecimento, com o de um jogador de
futebol do porte do Neymar, entre outros. Qual a importância se um cara desses
fez ou não gol? No que isso realmente muda a vida das pessoas? Enquanto isso, o
professor forma toda a sociedade. Todo mundo passa por ele. Se não fosse...
Acho que já havia tocado nesse ponto em outra...
De
repente uma gritaria do lado de fora. Barulho de tiros. Uma mulher que veio
correndo pra dentro do bar disse que os dois resolveram voltar para acertar as
contas e se encontraram do outro lado da rua. Enquanto isso, seus heróis devem
estar gozando os benefícios sugados da nossa gente.
CPF? TENTA...




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