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 Picasso, Lump e as minhas linguicinhas

Falar de arte é, muitas vezes, falar de afeto. E poucos artistas traduziram isso de forma tão sensível quanto Pablo Picasso — inclusive na sua relação com seu cachorro Lump, um dachshund que não era apenas um animal de estimação, mas companhia constante, quase uma extensão do seu próprio universo criativo. 

Lump, na verdade, não era originalmente de Picasso. Ele pertencia ao fotógrafo David Douglas Duncan, amigo próximo do artista. Em uma visita à casa de Picasso, no sul da França, algo curioso aconteceu: Lump simplesmente decidiu ficar. Como se tivesse escolhido seu novo dono — ou talvez reconhecido ali um lugar onde também pertencia. 

E Picasso aceitou. Mais do que isso: acolheu. 

Dizem que Lump participava do cotidiano do artista como se fosse parte da obra. Ele aparecia nos ateliês, nas rotinas silenciosas de criação e até em trabalhos inspirados — como uma releitura curiosa de Las Meninas, onde o pequeno dachshund substitui um dos personagens da pintura original. Não era só um cachorro: era presença, era afeto vivo dentro da arte. 

E eu fico pensando... talvez todo artista tenha um pouco disso: um amor que atravessa a vida e acaba virando inspiração. 

Eu também tenho minhas musas — ou melhor, minhas três linguicinhas: Cacau, Polly e Gaia

A Cacau ganhou esse nome por causa da sua cor. Ela é a mais elegante da casa, a mais comportada,  aquela que parece carregar uma sabedoria antiga no olhar. Às vezes, tenho a sensação de já conhecê- la de outras vidas. Já assisti ao filme Quatro Vidas de um Cachorro e, sinceramente, se reencarnação  for real, tenho certeza: Cacau é a volta da minha querida Daiana, uma vira-lata que resgatei da rua. As atitudes são as mesmas, o jeito, o carinho... certas conexões não se explicam, só se sentem. 

Já a Polly... ah, a Polly! O nome é uma homenagem à personagem da série Peaky Blinders, mas na prática ela parece um desenho animado. Daquelas que você olha e pensa: isso aqui poderia estar  fazendo sucesso no Instagram! Brinco com meus filhos que eles estão perdendo uma oportunidade de ouro (risos).

E então temos a Gaia. Nome forte, inspirado na deusa da Terra, criadora de tudo. Mas aqui em casa... digamos que ela se aproxima mais de uma pequena destruidora (risos). Foi a única que meu marido não queria. Resistiu, resistiu... até ver. Foi amor à primeira vista. Hoje? Tenho minhas dúvidas se ela não é a favorita dele — e, sendo bem sincera, ela também sabe puxar o saco como ninguém. 

Diferente do Picasso, eu me dou bem com gente e com animais — desde que não sejam folgados, malandros ou aqueles que se aproveitam da bondade dos outros. No fim das contas, acho que é sobre isso: relações verdadeiras. 

Já pintei minhas cachorras algumas vezes. Não tantas quanto Picasso pintou seus afetos, mas o suficiente pra entender que, quando a gente ama, isso sempre encontra um jeito de aparecer na arte. 

Porque, no fundo, um bichinho de estimação pode fazer mais do que companhia: pode abrir o coração da gente.



Magda Ferreira Gomes, artista visual de Gravataí e membro do Conselho Municipal de Políticas Culturais de Gravataí Setorial de Artes Visuais (suplente). Praticante do desenho e linguagens artísticas desde 2004. Exposições voltadas às suas memórias afetivas. Oficineira, mandaleira, atuante na customização de roupas e acessórios.

"Quanto mais arte, menos violência. Quanto mais arte, mais consciência, menos ignorância."

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