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Futebol de rua 

O futebol de rua está em extinção e já faz tempo. E acredito que será uma virada de página irreversível, assim como foi o fim do cinema de rua, do pião, do bilboquê, do empinar pandorga, do jogar taco, do carrinho de lomba e de tantos outros hábitos.

O futebol de rua acontecia, deixa eu ver...na rua. Seja qual fosse o tipo de rua, de chão batido, de asfalto, de paralelepípedo, rua reta, esburacada ou lomba. Lá estavam as traves de chinelos ou pedras, os times divididos, regras no grito, o tempo era marcado por: “cinco gols vira, dez acaba”. 

No final do dia, já quando estava muito escuro para se continuar jogando, havia o tradicional quem fizer ganha, não importava se estava 9x1 para o outro time, o último tento marcado declararia o vencedor da partida e o verdadeiro campeão do dia.

Naquele tempo alguém jogava a bola para o alto, antes que ela caísse no chão, já haviam dois times divididos e um esperando do lado de fora. Os fardamentos   eram um time de camisa e um time de dorso nu.

Confesso que eu joguei muito pouco, meus pais não deixavam eu andar "solto" pelas ruas, era a Alvorada dos anos 80, uma cidade muito violenta. Eu ficava injuriado, adorava futebol, não jogava nada, mas queria me divertir. Não foram raras às vezes que eu fugia e ia jogar com a gurizada e era levado de volta para casa debaixo de chineladas, varadas ou cintadas. O que me valeu o singelo apelido de gordinho prisioneiro.

Nunca gostei de apanhar, acho que a violência que eu sofria tinham doses de sadismo, ódio e uma certa rejeição, mas isso é uma outra história. 

Na época de Copa do Mundo as ruas fervilhavam, só se esvaziaram para a gurizada assistir aos jogos e com as partidas terminadas elas voltavam a ficar cheias. 

E foi assim durante muito tempo. A minha rua era de chão batido, depois quando eu já era adulto, perto de ir embora de Alvorada ela ganhou asfalto, a maioria das ruas ganharam, e eu já notava uma diminuição deste esporte tão nobre. Quando retornei a morar em Alvorada, dezesseis anos depois ele estava quase extinto. 

Não só na rua em que eu fui morar, pois circulava de moto por quase toda a cidade e durante meses vi apenas uma partida de futebol de rua. Um ano antes em 2014 eu morava em Porto Alegre na Zona Sul e vi poucas vezes as pracinhas com cancha de futebol serem usadas. Por lá já estava acabado faz tempo a modalidade, a não ser talvez em que alguma zona muito periférica em que não haja praças para prática esportiva, o futebol de rua resista bravamente. 

Sai de Alvorada, morei em Gravataí, Sapucaia do Sul e agora em Capão da Canoa e vi nestes anos todos uma única partida realizada em Gravataí em 2016 ou 2017. Não vou dizer que porque eu não vejo, ele não exista mais, mas que a extinção é logo ali, disso eu não duvido. Em Capão existe uma infraestrutura esportiva muito boa, com diversas canchas de futebol em praças, mas maioria é vazia. Sim vazia, a não ser durante o veraneio em que elas enchem de turistas para correrem atrás da bola. Então se as canchas estão vazias, na rua é que não se pratica mais. 

Talvez a tecnologia, mudança de interesse geracional, distanciamento do futebol das camadas mais populares, ou uma melhor urbanização das cidades sejam fatores para o fim do futebol de rua. 

A vida é assim, claro que sempre haverá os saudosistas, os apaixonados. Eu não sou nenhum deles, resolvi escrever este texto porque fiquei reflexivo depois que nesta  noite eu sonhei que  jogava futebol em minha antiga rua, lá estavam todos os meninos da minha infância, eu não fiz gol, não fiz nenhuma jogada especial, mas eu fiquei feliz de eles estarem ali: vivos, inocentes, sorrindo e brincando novamente.




Texto:Jorginho


Arte:  Lisi Olsen


"Quanto mais arte, menos violência. Quanto mais arte, mais consciência, menos ignorância."
- Ricardo Mendes

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1 Comentários

  1. Belíssima nostalgia. Futebol de rua sempre foi saudável. Tecnologia nos tirou isso. Éramos felizes e as novas gerações não saberão disso. Eu fazia até campeonato de futebol de rua e os pais apoiavam. Parabéns. Trouxe muitas lembranças de minha infância.

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