UM POUCO DE HISTÓRIA

 No tempo dos cinemas de rua em Porto Alegre

Hoje, vendo a divulgação de Betty Blue não pude deixar de sorrir com nostalgia. Fui um daqueles adoradores do literalmente “cult movie” que passava uma sexta-feira por mês, na sessão da meia noite no Cine ABC. Era uma “viagem” ver caras conhecidas na sala de espera e depois ver aquele filme fora do padrão de Hollywood.

Película francesa lançada em 1986, ano em que concluí minha graduação em História na saudosa FAPA, rapidamente ganhou uma legião de fãs oriunda dos bairros boêmios de Porto Alegre: Cidade Baixa e Bom Fim.

Película, fita eram todas expressões utilizadas nos anos 1930, 40, 50, 60... Uma palavra importada da Argentina e outra que representava muito bem o que era fisicamente o filme, uma fita de celuloide que, ao colocarmos contra a luz, enxergávamos os fotogramas que ao serem expostos numa determinada velocidade nos davam a ilusão de movimento.

A magia do cinema é insubstituível: o som nos envolvendo, a tela, aquele pano enorme estendido na nossa frente, onde as imagens saídas de um projetor atrás de nós, mas acima de nossas cabeças, eram refletidas. Hoje as tvs refletem as imagens diretamente nos nossos olhos, o que, em excesso, prejudica a saúde.

Os cinemas de rua, não confundir com cinema na rua, eram salas com acesso direto ao passeio público. Hoje existem pouquíssimos cinemas de rua em Porto Alegre e no Brasil à fora. Cinema, quando existe, localiza-se dentro de algum shopping, fazendo parte do tripé compras, comida e diversão. A cultura de “pegar um cineminha” sozinho ou bem acompanhado sofre a concorrência das Netflix da vida. O prazer de olhar os cartazes, conversar, comprar pipocas ou balas, observar as outras pessoas que, assim como nós, aguardam a abertura das portas para entregarem o ingresso ao bilheteiro e entrarem na sala escura guiados pela luz do “lanterninha” ficou na memória de alguns com mais cabelos brancos e outros até sem cabelo.

Na fila para comprar o ingresso a gurizada aproveitava aquela espera para trocar revistinhas em quadrinhos, figurinhas ou dar aquela espiada em alguém especial, conhecido(a) ou não, que chamou a atenção. Muitos namoros iniciaram na fila do cinema e muita confusão também. Tudo isso fazia parte da interação social provocada pelo ato de ir ao cinema.

Esse relançamento de Betty Blue não sei se vou assistir. Já se vão quatro décadas desde a primeira vez. Heráclito, filósofo grego que viveu 500 anos antes de Cristo, já dizia “um homem nunca se banha duas vezes no mesmo rio”. A vida é movimento, o rio flui constantemente e o homem de ontem não é totalmente o mesmo de hoje e nem será o mesmo de amanhã. Dito em outros termos: hoje, aos 65 anos, não sou o mesmo homem quando tinha 25 anos e nem os cinemas são os mesmos, na verdade, aqueles cinemas não existem mais, assim como o rio de Heráclito secou.



 

NESTOR OURIQUE MEDEIROS

"Quanto mais arte, menos violência. Quanto mais arte, mais consciência, menos ignorância."

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1 Comentários

  1. Lindas lembranças! Saudade das matines no Cine Estrela, sessão dupla, nos fins de semana.

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