DEAMBULÂNCIAS

A volta de Paçoca 

Reconheci o chamado insistente da vizinha no meio da noite, gritando por Paçoca. Àquela altura já não me causava mais estranheza. Tudo normal: a vizinha tem um cachorro, o cachorro se chama Paçoca, Paçoca adora escapar pela brecha do portão; o portão de vez em quando é deixado sem tranca. Enunciado de equação perfeita, c.q.d.

Inicia-se então uma performance que parece ter sido ensaiada várias vezes, com idas e vindas pela calçada. Paçoca ouve o chamado, faz-se de rogado e dispara livre. A vizinha sai de camisola para o meio da rua, desesperada, gritando com voz em falsete: Paçoooooca! Insiste para que ele volte, ordena, pede, suplica. Paçoca faz que vai mas não vai, passa rapidamente por entre as pernas de sua dona e segue para a outra esquina.  Da janela sinto-me como se estivesse na  arquibancada do estádio, acompanhado o jogo. Só falta  a cena ser narrada por um locutor, em ritmo de emoção:                 

“  - Lá vai Paçoca, dispara para o centro do campo… Dá uma paradinha, vê que tem condições. Sai da marcação, segue com domínio… Enfrenta  o adversário de igual para igual, sabe que precisa apenas de um empate.  Não tem pressa, o Paçoca. Ninguém para marcar… Contorna uma lata de lixo, dá uma cheiradinha básica para conferir… E segue o jogo! Paçoca para, verifica mais uma vez a posição do adversário… Sinaliza com a língua pra fora à esquerda, dribla de última hora pra direita… Tem condições, segue livre, livre… Tem tempo até de se coçar na orelha com a pata traseira, mostrando habilidade. A torcida delira!...”

Que Paçoca dê suas escapadas é mesmo cão-preensível. A grande questão filosófica e existencial, porém, é saber por que ele em algum momento cede aos chamados e volta para casa.  Afinal, uma vez ganha a liberdade, com todo esse mundão de cheiros, cores e movimento aberto a sua frente, não seria natural correr e correr, até gastar toda a euforia bem longe? Talvez nunca mais voltar,  iniciando carreira solo em outros arrabaldes, mais compatíveis com sua cachorrosidade.  Até mesmo porque a qualidade da comida industrial servida aos cães nem sempre oferece  motivo racional  para fidelidade.  

Não, tem de ser outra coisa, outra motivação paçoquiana mais importante do que simplesmente correr na rua. Nem seria o caso de apelar para Étienne de la Boétie, com seu discurso da servidão voluntária, espantado como humanos entregam a própria liberdade a líderes sem razão. É que os animais refletem o melhor que temos, são elo de afetividade que nos humaniza. Paçoca de algum modo sabe que não podem viver sem ele, nem a vizinha nem nós, que moramos próximo. Seria uma vida com menos graça sem essas noites de correria e de gritos familiares na calçada, no resgate aflito de um bem valorizado pelo risco da perda, a nos lembrar que o amor não pode ser preso, mas tem de ser muito bem cuidado.  


Paulo Malburk

Paulo Albuquerque, nome literário Paulo Malburk. Já foi filatélico e normativista, hoje é nefelibata e caçador do poético. Crônicas, mini-contos, contos e quase alguma coisa mais. Selecionado em coletâneas nacionais.


Instagram: @paulo_malburk

"Quanto mais arte, menos violência. Quanto mais arte, mais consciência, menos ignorância."

Arte:Waldemar Max
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