
DIÁLOGOS DECOLONIAIS: A VOZ DA TEKOA KARANDATY E O CORAÇÃO VIVO DO MATO DO JÚLIO
A invisibilização dessas famílias escancara a hipocrisia de uma sociedade que se diz progressista ou ecologicamente correta, mas que reproduz a lógica de que o indígena só tem espaço se estiver confinado aos estereótipos do passado ou distante dos centros urbanos.
Quando se debate a preservação ambiental no Rio Grande do Sul, o nome do Mato do Júlio, localizado em Cachoeirinha, frequentemente ecoa em pautas de ativistas, coletivos ecológicos e debates legislativos. Trata-se da última grande área verde e de retenção hídrica da Região Metropolitana, um refúgio de biodiversidade que abriga espécies ameaçadas, árvores centenárias e desempenha um papel ecológico inestimável. No entanto, ao focar exclusivamente nas árvores, na vegetação e nas águas, o discurso urbano e ocidental comete um apagamento histórico e humano profundo. Esquece-se de que, no meio do mato, existem vidas pulsantes, história e humanidade. Invisibiliza-se de que ali reside a comunidade indígena Tekoa Karandaty.
Dar visibilidade a essa comunidade é um ato urgente de justiça e descolonização do olhar. A história da chegada das 18 famílias que compõem entre os 60 a 70 moradores atuais, sendo que 25 são crianças, incluindo cinco pequenas vidas nascidas no próprio território, não é fruto do acaso, mas da profunda conexão espiritual com a terra. Como relatou o cacique Luciano, “a espiritualidade mostrou ao seu pai, através de uma visão onírica, o caminho que deveria ser trilhado”. Em uma jornada de ancestralidade e resistência, seu pai caminhou desde Guarita até a comunidade Cantagalo, em Viamão, e de lá rumou para Cachoeirinha, fixando raízes no solo que hoje conhecemos como Tekoa Karandaty.
Nas palavras sábias do cacique Luciano, resume-se uma verdade que o modelo civilizatório urbano insiste em ignorar: "A floresta é vida para nós." Para os Mbyá-Guarani, a floresta não é um cenário estático de contemplação turística ou um mero ativo imobiliário à espera de loteamento. É o seu nhande reko, o seu modo de ser, a morada dos deuses, o espaço onde cultivam a subsistência de suas roças e criam seus filhos em comunhão com o sagrado. A Tekoa conta com uma estrutura coletiva essencial, dispondo de uma escola com um professor guarani e três não indígenas que atendem os ensinamentos do fundamental, médio e educação infantil, além de uma casa de reza onde, cerca de duas vezes por semana, renovam sua espiritualidade. Quando necessitam, buscam amparo na saúde indígena ou na emergência do posto de saúde do Parque da Matriz, em Cachoeirinha, recorrendo a esses espaços e também buscam a cura medicinal através de elementos naturais retirados da própria floresta.
Contudo, a permanência dessas famílias enfrenta uma ameaça implacável. De um lado, há uma disputa judicial movida por herdeiros que arrastam anos de privilégios e débitos fiscais acumulados, e pelo apetite voraz do mercado imobiliário, que deseja rasgar a vegetação para erguer condomínios e destruir o ecossistema. Do outro lado, ergue-se a narrativa seletiva de uma parcela da sociedade não indígena, que muitas vezes debate a ecologia ignorando os povos originários. Como bem aponta o pensador e ativista indígena Ariel Ortega (2024), a luta dos povos originários é pela demarcação e proteção de seus territórios tradicionais, lembrando que a terra não é mercadoria, mas a própria condição de existência e reprodução física e cultural. Quando a sociedade reduz a discussão ambiental apenas à paisagem verde, ela invisibiliza o indígena, tratando-o como um intruso em sua própria casa ancestral.
A intelectualidade e a sensibilidade dos moradores da Tekoa Karandaty contrastam fortemente com a violência institucional e o preconceito diário que sofrem. São pessoas extremamente educadas, calmas e respeitosas. Vivem em completa harmonia, ostentando uma sabedoria milenar e uma energia contagiante que acalma e inebria. Enquanto a sociedade ocidental insiste na ilusão arrogante de que eles devem se encaixar nos moldes da sua "civilização", a realidade demonstra o oposto, os não indígenas têm muitíssimo a aprender com os povos originários. Eles possuem o verdadeiro respeito e amor pela natureza, compreendendo o limite entre o uso sustentável e a ganância.
O pensador Ailton Krenak (2019) nos convida a refletir sobre como a humanidade ocidental está adoecendo por se colocar "fora" da natureza, transformando a mãe terra em recurso econômico e mercadoria. Krenak argumenta que o "desenvolvimento" promovido pelo capitalismo é, na verdade, um processo de desumanização que consome o futuro do planeta. A luta da Tekoa Karandaty dentro do Mato do Júlio é, portanto, um chamado urgente de todos nós contra a barbárie do concreto e da especulação.
As famílias dessa comunidade só querem viver em paz, cultuando sua espiritualidade, mantendo o contato sagrado com a natureza e exercendo sua subsistência por meio da agricultura e do artesanato. Proteger o Mato do Júlio sem proteger o povo indígena que nele habita é um ato incompleto e colonial. É preciso romper com essa lógica que separa a árvore dos povos originários.
Dar voz à Tekoa é reconhecer que a última grande floresta e área de retenção hídrica da Grande Porto Alegre, tem nome, rosto, espírito e guardiões legítimos. Que a justiça brasileira saiba ouvir a sabedoria ancestral que habita o Mato do Júlio e garanta a permanência definitiva do povo Mbyá-Guarani em seu território de direito. Pois defender a Tekoa Karandaty é defender a nossa própria humanidade.
REFERÊNCIAS:
ORTEGA, Ariel Kuaray; CARVALHO, Ernesto de. A Transformação de Canuto. Brasil: Vídeo nas Aldeias, 2024.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
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| Amabelia Diel |




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