
A CRISE DA RESPONSABILIDADE: ONDE A EDUCAÇÃO REALMENTE COMEÇA
Quem não domina o seu próprio discurso
acaba sendo escravo dos preconceitos
que herdou.
Vivemos tempos estranhos. De um lado, assistimos à desmedida divinização de figuras políticas, cuja ascensão alimenta e é alimentada por uma egrégora de culto, transformando meros indivíduos em ídolos intocáveis. De outro, vemos uma agressão crescente e gratuita àqueles que dedicam a vida a ensinar, os professores. Nesse cenário de valores invertidos, a escola tem sido alvo de um peso que ela não deveria carregar sozinha: a responsabilidade total pela formação ética e comportamental dos nossos jovens.
É comum ouvir pais que, diante de um desvio de conduta de seus filhos, reagem com a lógica do consumo. "Eu pago a escola", dizem, como se a mensalidade comprasse um serviço de correção de caráter. Ou pior, quando o comportamento da criança desagrada, usam a escola pública como uma ameaça, como se ela fosse um lugar de castigo, um espaço de perigo onde o filho seria forçado a conviver com a "negrada". É um pensamento carregado de um preconceito profundo, que dói e revela muito mais sobre quem fala do que sobre o ambiente escolar.
Precisamos falar sobre isso com franqueza: o modo como falamos não é inocente. A linguagem é um ato político. Quando alguém utiliza a escola pública para desmerecer pessoas, tratando-a como um depósito de mau caráter, está reproduzindo estruturas de uma sociedade que ainda não se descolonizou. É um vocabulário que perpetua o racismo e a xenofobia contra indígenas, orientais e negros. É hora de desconstruir essas falas. A escola pública é, muitas vezes, o espaço onde se encontra a verdadeira resistência pedagógica e a pluralidade que nos torna humanos.
A educação, em seu sentido acadêmico, é o papel da escola. É ali que aprendemos a ler o mundo, a escrever nossa história, a pensar por conta própria e a criticar as verdades impostas. Mas os bons modos? A gentileza de um "bom dia", a empatia de um "com licença", o respeito sagrado pelo outro? Isso nasce no âmbito familiar. A escola complementa o que o coração e o exemplo dos familiares iniciaram em casa.
Não existe essa divisão geográfica de bom ou mau caráter baseada em boletos pagos. As escolas particulares, longe de serem ilhas de virtude, estão lotadas de alunos que muitas vezes reproduzem a falta de empatia e a agressividade que observam em seus próprios lares. O comportamento dos nossos filhos é, na maioria das vezes, o reflexo do nosso próprio espelho.
Como afirma Freire (1996), “a educação não transforma o mundo; ela transforma as pessoas, e as pessoas transformam o mundo”. Talvez estejamos precisando, antes de exigir mudanças na escola, de um processo de autoexame dentro de casa. Precisamos purificar o nosso vocabulário e entender que, como defende Fanon ( 2008),” a emancipação real começa pela superação das estruturas mentais que nos fazem olhar para o outro com desdém.”
A educação é um ato de afeto e de compromisso. Enquanto insistirmos em terceirizar a nossa responsabilidade moral para as instituições, enquanto continuarmos usando a fala para ferir e hierarquizar, estaremos apenas perpetuando a ferida que tentamos, hipocritamente, esconder. Educar é, antes de tudo, dar o exemplo. É na construção dessa ética cotidiana que realmente formamos cidadãos capazes de habitar um mundo mais justo.
REFERÊNCIAS
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 25. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008.
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| Amabelia Diel |




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