
Toda traição será castigada
Há quem diga que a pior sensação é a de ser traído — pior do que a da morte. Jesus foi traído por Judas, que virou sinônimo de traidor. Júlio César, antes de ser morto, proferiu a famosa frase: "Até tu, Brutus, meu filho?". São dois casos bem conhecidos de traição, mas, ao longo da história da humanidade, existem várias por aí.
Em Benfica, bairro do subúrbio carioca, vivia Léo, que amava Ítalo, que amava a si mesmo. Não que Ítalo fosse alguém sem alma e coração; ele só carregava dentro do peito mágoas passadas. Não queria sofrer novamente as mesmas situações de antes. Já Léo era um franco-atirador: o que valia para ele era o prazer, sem criar raízes.
Num sábado qualquer, na tradicional Cadeg, Ítalo estava a fim de refrescar as ideias depois de uma semana cansativa, já que trabalha durante o dia e faz faculdade à noite. Parou no mesmo local de sempre, onde bebe chope e saboreia uns bolinhos de bacalhau e outros quitutes. Léo, no mesmo dia, foi fazer umas compras para casa e comer por ali. Cumpridos os seus afazeres, era hora de relaxar um pouco. Bebendo e comendo, observava as pessoas ao redor quando viu Ítalo, um belo rapaz de olhos verdes, ainda na flor da idade, sozinho em sua mesa. Léo, que tem uma boa lábia, sentou-se à mesa do belo rapaz e começou a trocar uma ideia, como se os dois fossem velhos conhecidos. Surpreso com a coragem e a atitude de Léo, Ítalo se encantou e se deixou envolver. Dali, foram para a casa de Léo e se entregaram ao prazer.
O que parecia ser apenas um encontro casual virou uma paixão avassaladora: os dois assumiram um namoro. Pareciam o casal ideal. Ítalo, todo apaixonado, fazia planos para o futuro; sempre foi mais coração e sentimental, do tipo que se entregava e se jogava, por mais que, muitas vezes, se machucasse. Léo só curtia o momento. A situação estava favorável, tudo "bem gostosinho", e ele não tinha do que reclamar da vida.
Mas a vida é uma caixinha de surpresas. Léo, que nunca foi de se prender a sentimentos, começou a se envolver com outro enfermeiro do hospital em que trabalhava: João. Foi se envolvendo e curtindo a vida dupla até não poder mais, sem dar brechas. O belo Ítalo nem desconfiava que estava sendo enganado. Mas a vida nos prega peças e dá reviravoltas. Num desses plantões em que os dois enfermeiros estavam trabalhando, o amante de Léo se infectou com a seringa de um paciente soropositivo, contraindo o vírus do HIV. Com medo da reação de Léo, João escondeu isso a sete chaves do rapaz e de todos ao seu redor.
Os encontros entre os dois continuavam, mas o sexo passou a ser evitado, o que causava estranheza e irritação em Léo. Até que um dia, João, cheio de amor para dar, por instantes esqueceu a sua condição, entregou-se aos desejos carnais e fez amor com vontade. Só tinha um detalhe: o casal não usava preservativo. Tempos depois, Léo começou a se sentir mal e, como já trabalhava em um hospital, foi mais fácil fazer uma bateria de exames. Ao saber do resultado, ficou atônito: tinha contraído o vírus do HIV. E agora, como iria contar isso a Ítalo, que era o único inocente na história?
| Daniel Filósofo |
Daniel Filósofo é cronista, jornalista, profundo conhecedor de rock'n'roll, torcedor do Fluminense e radialista. Também escreve a coluna "A música segundo o Filósofo".
Daniel também é o responsável pelo projeto Rock Roll Old School Webrádio pelo RadiosNet, confira AQUI
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