ISSO DÁ UMA CRÔNICA

 Atenção, moradores!

Acordo com a voz metálica de um alto-falante. “Atenção, moradores de Santa Luzia! O El Niño está chegando. Faça sua parte e evite situações de emergência!” É o carro da Defesa Civil passando na minha rua. Alertando para o perigo de inundações e deslizamentos em consequência das fortes chuvas que estão por vir. “Não leve na brincadeira, porque El Niño não vem para brincar”, brinca a voz.

Afasto as cortinas, espio para fora. Hoje o dia amanheceu até bonito: o céu aberto, apenas aqui e acolá algumas nuvens de aparência indefesa, o sol ainda tímido após o inverno. O vento que varria o campo de madrugada, chiava pelas esquinas e esbarrava nas janelas deu uma acalmada e agora não é mais do que uma leve brisa quase agradável no meu rosto sonolento. Mas eu sei que em um piscar de olhos o tempo pode virar e deixar de cabeça pra baixo previsões e certezas.

Desço pra cozinha, boto o café no fogo, arrumo as plantas no parapeito pra pegarem um solzinho — a carnívora que faz tempo não apanha uma drosophila sequer, o pequeno cacto que a Larissa ganhou de presente, o pezinho de pimenta cheio de botões brancos, querendo florir, querendo frutear. Do outro lado da janela, um grupo de vacas com seus bezerrinhos se aproxima pelo capinzal. Seu Jorge da fazenda falou que este ano elas entraram no cio antes do tempo, culpa das temperaturas mornas, de um inverno que começou tarde, ficou pouco, partiu cedo. Agora os três pequenos bagunceiros estão ali, ora pulando pelo campo feito coelhos, ora brincando de apostar corrida. São crianças, correndo livres; as diferenças entre as espécies, mera teoria. Logo as mães mugem e eles voltam pra perto. Por alguns instantes me perco na observação da cena, da paisagem harmoniosa atrás da janela. Quase dá pra acreditar que está tudo bem, que nada ruim vai acontecer.

Moro numa região costeira, agraciada com cadeias de colinas verdes, de onde brotam cachoeiras. O canal que recebe a água de uma delas passa bem atrás  da casa. Bem atrás mesmo: se eu pulasse pela janela agora, cairia dentro dele. E o mar bate tão perto daqui que, não fosse por uns telhados e copas de árvores no meio, conseguiria vê-lo do andar de cima. Além do oceano imenso de um lado e do canal de outro, ainda tem o rio que serpenteia pelo bairro e  serve de estrada fluvial para os homens que saem pra pescar. Moro numa comunidade pesqueira, onde a pesca é tradição, alimento e renda. Aqui de vez em quando chove que alaga, mesmo sem evento extremo. Aqui de vez em quando a chuva se junta com a maré, invade as ruas pelo rio, produz peixes fora da curva, faz o campo virar lagoa e os bois saírem boiando. Aqui é um parquinho para o El Niño.

O carro da Defesa Civil passa em frente ao portão e me acorda das minhas divagações. “Atenção, moradores de Santa Luzia! Prepare-se para a chegada do El Niño. Faça sua parte e evite situações de emergência!”

Minha parte eu faço. Não votar em negacionista climático é o primeiro passo. Tomo o café amargo enquanto, lá fora, o tempo fecha.


Yvonne Miller
Foto:
Thaís Vieira


Yvonne Miller: berlinense de nascença, brasileira de alma, mestre em linguística, escritora migrante, contista e cronista, observadora de bichinhos, autora do livro “Deus Criou Primeiro um Tatu – Crônicas da Mata” (Aboio, 2022), estado civil: preocupada.

"Quanto mais arte, menos violência. Quanto mais arte, mais consciência, menos ignorância."

 OITO ANOS DE VIDA,
NOSSO MUITO OBRIGADO POR
ESTAREM NOS ACOMPANHANDO DURANTE 
ESTA PEQUENA
JORNADA"



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