
Vamos falar de Ensino - Educação?
Começando setembro, dia 1° hoje. O dia está radiante aqui na Aldeia dos Anjos! Sol, pessoas na rua, comércio dando sinais de recuperação? Ainda não sei. Fato é que, aos poucos, tudo vai se assentando. Demorei para chegar ao trabalho. Atrasei 5 minutos. Engarrafamento na entrada do Centro, começando na parada 79. Aqui em Gravataí/RS é assim, identificamos o ponto onde estamos por “paradas”, referência aos números das “paradas” de ônibus, ou “pontos” de ônibus. Como são ricas as nossas variáveis linguísticas, não?
Entre o percurso de casa ao trabalho, como sempre estive acompanhado pelos jornalistas da Rádio Gaúcha. Pauta do dia: abastecimento de energia, ou melhor, crise no abastecimento de energia elétrica, entrevistas com profissionais e gestores da área, explicações para o aumento do valor da energia, questões hidrelétricas, termelétricas, outras fontes de energia. Este assunto é batido e vem de anos! Falta de planejamento estratégico. O que se planeja hoje vai reverberar daqui a dez anos neste setor. Sem querer defender este ou aquele, estamos entrando em uma possível nova crise no setor, e não é culpa deste governo (ou não somente). Devesse olhar para o que foi feito dez anos atrás. Assim FHC sofreu com o maior Blackout de nossa história, Dilma “inventou” de abaixar o valor cobrado nas contas de energia elétrica via decreto e sofreu um revés econômico sem igual, decisão desastrosa que foi responsável pelo famigerado “tarifaço” e com consequências até os dias atuais. Este assunto me chama atenção, pois sou técnico de formação; fiz um curso (entre tantas capacitações realizadas) no Senai Gravataí na época do apagão (governo FHC), curso de Coeficiência Energética - assim mesmo, Coeficiência, não Eficiência - ou a readequação de sua planta, seu prédio, seu ambiente com a utilização de equipamentos mais eficientes, mais econômicos. Esta realidade hoje pouco nos diz devido ao que temos de avanços neste meio desde aquela época, mas veja o contexto dos anos 90. Lâmpadas incandescentes, equipamentos eletro eletrônicos sem a preocupação de economia de energia, motores de geladeira, ar-condicionados, freezers, fogões, televisores de tubo, monitores de vídeo, tudo gastava mais. Temos hoje lâmpadas econômicas, equipamentos com indicação de eficiência, avanço e miniaturização de muitos eletrônicos (televisores e monitores de tubo de raios catódicos quase não mais existem, potência nominal dos equipamentos utilizados nas residências, empresas e indústrias diminuíram muito), e mesmo assim, estamos frente a uma nova crise energética. Percebem a importância do investimento constante em evolução tecnológica, pesquisas e desenvolvimento? Precisamos de equipamentos mais eficientes, desenvolvimento de novas fontes de energia, limpas e renováveis. É assunto para uma boa dissertação, uma tese bem feita. Vou explorar isso!
Enfim, vamos à educação! Ao ensino!
Pois bem, antes deste percurso ao trabalho, uma última olhada nas redes, e novamente um texto muito bem escrito pela talentosa Miriam Coelho, ilustradora, escritora e professora, na coluna Contraponto de hoje, com o título Caixinha Didática. Texto em que a autora tece um comentário bastante pertinente sobre os modelos de educação seguidos atualmente, a mecanização do ensino, o papel do professor no processo ensino-aprendizagem.
A educação, tanto pública como privada, será sempre tema de debates - e precisa ser- a comunidade escolar e todos os atores participantes têm a obrigação de se fazer presentes neste tema. Vamos esclarecer uma coisa: toda a educação é pública. A rede de ensino particular possui uma concessão do poder público, uma autorização para representar o Estado no que tange a questão educar, ensinar, mas devem seguir diretrizes, como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Possuem liberdade para inovar, implementar, mas não podem se afastar das diretrizes curriculares estabelecidas pelo Estado, a ponto de criarem ou omitirem conhecimentos e regras.
Mima Coelho fala do "alijamento” da educação, no sentido de privar, de jogar fora, de não aproveitar a qualidade dos professores e as características das instituições de ensino, mecanizando a educação, terceirizando o ato de mediação do conhecimento ao livro didático, limitando o papel do professor e dos atores envolvidos neste modelo tecnicista.
Dissertando sobre a interpretação acima, um intertexto de uma reflexão importante, o que temos é a preocupação em estabelecer regras e parâmetros utilizando de meios que deveriam ser apenas ferramentas de apoio, e jamais a solução final. As soluções prontas, aquisição de sistemas de ensino utilizadas por grandes redes de ensino ou a criação de redes para distribuição precisam ser muito bem pensadas! Nosso país é do tamanho de um continente, as variáveis linguísticas e culturais, enormes. Precisa-se trabalhar com as especificidades de cada região. A cultura, a história, o contexto mudam. Lei de Diretrizes e Bases é uma norteadora, a educação deve seguir determinados preceitos, mas há liberdade para as regiões, as redes de ensino e tudo que envolve a educação seguirem seu fluxo. Perfeita a posição do texto de Miriam Coelho sobre a questão livro didático. Vamos a outros pontos de discussão.
Religião. Assunto sempre polêmico. Lembrando sempre, o Brasil é um país laico. Significa que não temos religião oficial. Bom, que isso tem a ver com o ensino? Muito! Grandes redes de ensino e escolas são oriundas de redes pertencentes a grupos religiosos. Escolas Adventistas, Batistas, Salesianas, Jesuítas, Sociedade Educação e Caridade, e por assim vai. Ensino Religioso é matéria na grade curricular de quase todas as escolas, item obrigatório; há liberdade de expressão, porém o correto seria o Ensino Teológico, estudar não uma religião ou sob o prisma de uma religião, mas estudar todas as religiões, estudos aprofundados acerca da cultura que cerca as religiões, suas origens, povos, metodologias. A mente das pessoas precisam estar abertas ao diálogo e ao intercâmbio, independente de quais sejam suas crenças, e os estudos das matrizes religiosas começam na escola. Fui aluno de uma escola de freiras por muito tempo, concluí os estudos no ensino público. Digo que fui estudar religião na acepção correta da matéria no ensino público, pois em uma escola de freiras, de origem católica, tudo era feito de acordo com a visão do catolicismo. Assim acontece com todas as escolas particulares pertencentes a grupos religiosos, a visão é sempre sob a óptica destes grupos. Quando se está estudando, o foco deve ser amplo!
Avaliação
Escolar. Este ponto é nevrálgico! Tema que deve estar sempre em pauta dos
debates acerca dos modelos de educação, é intimamente ligado ao sucesso e ao
fracasso dos modelos. Como avaliar? Qual o melhor modelo para se avaliar?
Dissertei
sobre os diferentes tipos de inteligência existentes, a Teoria das Múltiplas Inteligências,
fazendo um contraponto com o modelo em desuso que é sobre o QI (Quociente de
Inteligência). As formas de avaliação estão intimamente ligadas ao processo de
conhecimento e avanço dos alunos/alunas e do feedback ao sistema de ensino como
um todo, como norteador de políticas educacionais. Percebo a educação como um
treinamento em que as mentes não estão sendo desenvolvidas a pleno de suas
capacidades, deixando nossos jovens com capacitações importantes para operar o
sistema porém incompetentes para outros temas tão ou mais importantes para a
vida em sociedade, sendo o principal deles a correta interpretação do ambiente
a que estão inseridos.
Lembro
de uma aula, um exercício que promovi certa vez para uma turma de formandos de
3° ano, alunos que estavam em processo final de aprendizagem, preparando-se
para os desafios futuros, ENEM, Vestibulares e afins. A matéria, Língua
Portuguesa e eu estava trabalhando com regência verbal, sintaxe. Gosto muito de
trabalhar sempre com produção textual, análise de textos ou então a produção
destes, despertar nos alunos o hábito de ler e interpretar e também de expressarem-se
com clareza. E assim foi … solicitei um exercício que foge do padrão
dissertação-argumentação. Pedi que redigissem uma carta simples, narrando as
agruras e aventuras realizadas em uma viagem, destino de livre escolha e
endereçada a alguém também de livre escolha. Pai, mãe, irmão, irmã, primos,
parentes, amigos, amigas, namorado, namorada, enfim. Um texto livre, escrito em
primeira pessoa. Que dificuldade! Alguns demoraram mais de vinte minutos para
redigirem a primeira linha! Quantas perguntas! Neste dia, comecei a refletir o
processo do ensino-aprendizagem como um todo. Estamos apenas treinando os
jovens? E os desafios da vida real? A falha de interpretação a que sempre
discorremos quando assistimos a alguma postagem de opinião mal feita e formulada
não estaria correlacionada com os fatos aqui expostos? Passei a mudar meus
métodos, e isso refletiu na qualidade dos textos apresentados após. Aprofundei
mais autores fora dos livros didáticos, textos que incitam o pensamento. Ferreira
Gullar, Stanislaw Ponte Preta, Tirinhas que primam pelas metáforas ácidas. Acho
que, em outros tempos, eu seria chamado de subversivo! Porém, gostei do resultado,
a qualidade dos textos melhorou muito, e alguns alunos e alunas surpreenderam.
Enfim,
não estou mais em sala de aula, porém sigo na cultura. Qualquer questionamento
que fale de educação e do ensino deve ser reverberado e deve ter sempre a
atenção devida. O sistema de educação como um todo não é um sistema estático,
está em constante processo de evolução, tem dinamismo. Paulo Freire está em
discussão. Certo, vamos discutir Freire então! É importante discutir os pensadores.
Vamos incluir Piaget, Vygotski, Durkheim, Marx, Weber nesta discussão. Vamos
escutar mais os professores! Eles são a linha de frente! Eles são o principal
termômetro. Discutir sociologia da educação sem escutar os professores que
estão inseridos nas comunidades e nas periferias é falácia de políticos (refiro
políticos a um todo, não só aqueles que estão eleitos pelo sufrágio universal,
mas a todos que fazem política mesmo não empossados). Os tecnocratas que
dirigem e decidem a educação precisam dar voz às comunidades deste meio, não
podemos pensar os jovens como máquinas em linha de produção ou um depósito de
filhos e filhas enquanto os pais estão fora, trabalhando. Precisamos de mais!
Precisamos ter ambições, formar técnicos, mas também arquitetos do pensamento e
construtores do futuro deste país, pessoas aptas aos desafios e ao intercâmbio
de ideias, argumentadores capazes!
Sandro Ferreira Gomes, Professor de Língua Portuguesa, Conselheiro Municipal de Políticas Culturais em Gravataí/RS, Servidor Público, Porto Alegrense, admirador das belas artes, do texto bem escrito e das variedades de pensamento.
03 ANOS DE COLETIVEARTS
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2 Comentários
Excelente texto, Sandro! Amei teus exemplos e as aulas. Tua dissertassão me deu uma saudade de ser professora de língua portuguesa novamente! Podemos brincar com tantas coisas em aula! 😍 Sabe que eu nunca vi o ato de dar aulas como um trabalho. Para mim, era diversão! Fugir dessa chatice de livros didáticos e viajar por textos atuais, diferentes, que despertassem vida nos alunos.
ResponderExcluirTambém nunca entendi por que "temos" de iniciar uma aula dizendo o que é substantivo e aplicando frases bobas como treino! Por que não trazer um conto de terror num dia de chuva, ler com os alunos de forma misteriosa, brincar com as plavras que ali se encontram, para depois reparar na função dos substantivos ali presentes? Faz muito mais sentidooooo! As pessoas têm medo de português e matemática porque falta aplicar essas matérias na vida! Falta ter sentido! 😍😍😍😍
Exatamente! Falta trabalhar melhor, dá para produzir muito, aplicando ao contexto atual e respeitando as inúmeras variáveis existentes. Este texto rendeu desdobramentos! Citei você e sua tese novamente, junto a um artigo de Denilson Reis que fala do uso de Fanzines em sala de aula. Muito bom! Acho que você vai gostar. Quanto à sua arte, méritos ao Jorginho! Ficou bom, né? Beijos
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